Johnnie Walker A Song of Ice and Fire

Foram oito anos. Oito anos de conspirações, assassinatos, incesto, dragões, garrafinhas de água e café roubando a cena, gente que não sabia de nada, e gente que bebia e sabia das coisas. Setenta e três episódios de expectativa e teorias malucas. Mais de sessenta horas de antecipação para descobrir quem sentaria na cadeira mais desconfortável do universo. Eu nem preciso dizer do que estou falando. Você já deduziu – Game of Thrones.

E – pule este parágrafo se você não quiser um spoiler – quando finalmente descobrimos, veio a decepção. Eu sei que nas temporadas anteriores a Daenarys lentamente flertava com a loucura. Mas ficar mais doida que a Caipora e transformar King’s Landing em um enorme churrasco não é exatamente uma sutil descensão à insanidade. E nem vou falar do fato – completamente ignorado e pouco aproveitado – de seu laço de sangue com Jon. Ou a irrelevante relevância do cavalo branco da Arya.

Mas, apesar do desastroso final, a série, como um todo, foi muito boa. E inspirou uma miríade de objetos. Potes de biscoito, bonecos temáticos, jogos de cartas e muito mais. Mas, provavelmente, a parceria com Game of Thrones mais bem sucedida foi com a Diageo – a empresa por trás da Johnnie Walker. A série inspirou um blended scotch, o White Walker, bem como uma série de single malts baseada nas casas de Game of Thrones. E, mesmo depois de seu final, mais dois whiskies foram lançados – Johnnie Walker Song of Ice e Johnnie Walker Song of Fire – temas desta prova dupla.

Mais genial que o final de GoT.

De acordo com Jeff Peters, VP de licenças da HBO, “Estamos muito orgulhosos de fazer parceria com Johnnie Walker novamente para trazer mais uísques para o reino. O público de Game of Thrones continua a se engajar com a cultura da série e a procurar os itens colecionáveis especiais que a permitem relembrá-la. Depois de ver a empolgação com o White Walker por Johnnie Walker, estamos felizes em comemorar o final de uma história épica, oferecendo mais whiskies de qualidade para os fãs do show e entusiastas de whisky para colecionar e apreciar

Antes de tudo, deixe-me fazer um mea culpa. Decidi fazer a prova dos dois whiskies juntos porque, de certa forma, eles fazem mais sentido em conjunto do que individualmente. Os whiskies Johnnie Walker Song of Ice and Fire foram criados para serem – discutivelmente – perfeitos opostos, sensorialmente falando. Além disso, creio que esta será a forma que a maioria comprará e provará. Experimentar um sem o outro é uma tremenda oportunidade perdida – tipo não explorar a relação familiar entre Jon Snow e Daenerys. Além de ser comparável à cretinice de comer só a parte branca do Iô-iô-mix, se me permite um exemplo externo a Westeros.

“Quem come só a parte branca devia arder em chamas”

O Johnnie Walker Song of Ice é um blended scotch whisky leve e adocicado – que, de certa forma, relembra o Gold Label Reserve. Ele foi desenvolvido para ser apreciado com gelo, mas não no congelador, como seria o caso do lançamento anterior, o White Walker. Assim como o Gold Label e o White Walker, o malte central na composição do Johnnie Walker Song of Ice é Clynelish. Segundo a Johnnie Walker, o Song of Ice é inspirado nos lobos símbolo da casa dos Stark.

O Johnnie Walker Song of Fire, por sua vez, tem como coração Caol Ila, um single malt turfado – enfumaçado e medicinal – produzido na ilha de Islay. Ao contrário do Song of Ice, ele foi criado para ser bebido puro. Se pudesse compará-lo com algo da linha permanente da Johnnie Walker, diria que se assemelha ao Johnnie Walker Double Black. Mas, aqui, a diferença é maior – o Double Black é bem mais enfumaçado, intenso e adocicado, enquanto o Song of Fire é mais seco. A homenagem é à maluca da Daenerys – o que é meio óbvio, visto que o rótulo é estampado com um Drogon enorme.

Sensorialmente, para este Cão, os dois whiskies parecem bastante jovens. O Johnnie Walker Song of Ice é delicado e frutado, com uma sutil nota sulfúrica. O whisky de grão aparece – há um certo sabor de pão fresco – mas não chega a dominar o sabor. O álcool não chega a incomodar, mas é aparente. Já o Johnnie Walker Song of Fire é mais apimentado e seco, com um final enfumaçado. É talvez mais bem resolvido que o Song of Ice, e também mais complexo. Experimentá-los na mesma oportunidade acentua o contraponto entre os rótulos.

Ainda assim, sinto-me obrigado a fazer uma ressalva. Uma rara ressalva de opinião pessoal – aliás, bem mais pessoal do que a opinião sobre o final de uma das mais épicas séries televisivas. É que, individualmente, o Johnnie Walker Song of Fire é um whisky muito mais interessante do que o Song of Ice. Explico. Este é, no mínimo, o terceiro lançamento da Johnnie Walker, em menos de cinco anos, que usa Clynelish de base. Talvez a falta de criatividade dos criadores da série tenha atingido a marca do andarilho. O Song of Fire, por sua vez, apesar de não ser um blend extremamente complexo ou enfumaçado, é mais distinto.

Os Johnnie Walker Song of Ice and Fire custam, no Brasil, aproximadamente R$ 110,00 cada. É um preço razoável, especialmente para a versão enfumaçada. Mas, suspeito que o líquido seja a característica menos importante destes blended scotches. Afinal, foram oito anos, sessenta horas e setenta e três episódios. Tudo isso para um final daqueles. A gente merece um whisky para lembrar – ou esquecer – tudo isso. Ou melhor, um não. Dois.

JOHNNIE WALKER SONG OF ICE E FIRE

JOHNNIE WALKER A SONG OF ICE

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40,2%

Notas de prova:

Aroma: frutado, levemente sulfúrico.

Sabor: Frutas maduras, cereais, discreta baunilha. Final médio, vegetal e picante.

Disponibilidade: disponível no Brasil – R$ 110,00, em média.

JOHNNIE WALKER A SONG OF FIRE

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40,8%

Notas de prova:

Aroma: levemente enfumaçado, frutas vermelhas.

Sabor: Frutas vermelhas, cereais, fumaça. Final discretamente enfumaçado e frutado

Disponibilidade: disponível no Brasil – R$ 110,00, em média.

9 thoughts on “Johnnie Walker A Song of Ice and Fire

      1. Saudações meu caro. Seu texto, mais uma vez, continua impecável. Me lembra um antigo colunista de restaurantes da imprensa carioca, o Apicius. Quanto aos whiskies, entendo que como qualquer experiência sensorial, deve agradar ao máximo todos os sentidos. E dar prazer a quem o possui. E, para os fãs da série, penso que entregam uma experiência bem completa. Por um preço bem razoavel. Já os provei e comprei outros para minha coleção. Nisso a Diageo, temos que reconhecer, são craques. Saudações etílicas.

  1. Mestre, iria fácil no Song of Fire.
    Talvez provasse o Ice pela curiosidade em relação ao caráter sulfúrico, mas a preferência pelo outro é clara.
    Abraço!

  2. Meu caro, o seu texto é simplesmente fantástico. Tenho lido vários de seus reviews porque sua literatura é simplesmente cativante.

    Gostaria de deixar meu comentário sobre os produtos em questão, mas o Sr. sinta-se a vontade para rejeitar/excluir afinal o Blog é seu.

    Tive uma profunda decepção com a Johnnie Walker (Song of fire & Song of Ice), ou com a Diageo, ou com o site The Bar, tristemente nem sei quem culpar.
    Ontem fiz a degustação de ambos esperando encontrar o que se vê e se lê em reviews, a diferença entre os dois, já que a base de Malte é diferente, e para minha decepção já na abertura da garrafa encontrei o que poderia ser um indício de erro, veio sem o dosador, que seria obrigatório no Brasil.
    Que bom seria se apenas esse fosse o inconveniente.
    Procurei no aroma as famosas notas de degustação que tomei nota em reviews e não encontrei nada se não aroma de whisky Standar de baixa qualidade. O mesmo aconteceu com o sabor.
    Não contente resolvi degustar o Song of Ice, procurando desta vez os aromas adocicados, mel, baunilha. Nada estava lá. Mais indignado fiquei quando percebi que nas duas garrafas estava o mesmo líquido, mesmo aroma, mesmo sabor, mesma tonalidade de cor, mesma falta de caráter.
    Com a pulga atrás da orelha resolvi abrir um Red Label que tenho em casa para procurar diferença, e adivinhem, só mudou a embalagem.
    Nas duas garrafas que recebi, lacradas, com selo IPI, com caixa, sem dosador, está o mesmo whisky que é idêntico ou simplesmente é o red label.

    Tamanha safadeza com nós consumidores Brasileiros não deve ser calada.
    O que pensam os culpados por traz disso? (mandaremos Red Label porque o brasileiro vai tomar com energético e gelo e aí nem vai ver diferença e vai achar excelente postar foto no face e no insta).

    Se ao menos pudesse culpar alguém.

    Desculpe o desabafo mas realmente fiquei decepcionado, ainda porque sou fã da série.

    Abri uma reclamacao junto ao vendedor The Bar mas sem resposta até o momento.
    Também abri uma reclamacao no site Reclame Aqui.

    1. Fala Fabricio, tudo bem? Nada de excluir não, aqui é um lugar para todas as opiniões. Deixa eu ver se consigo endereçar alguns de seus pontos:

      O dosador não é obrigatório não. Ele é apenas facultativo. Muitas marcas escolhem usa-lo porque ele dificulta falsificações. Mas, no final do dia, a decisao sobre usar ou não cabe ao produtor. O Chivas 18, por exemplo, vem com rolha, e não é cork-screw. O mesmo para a maioria dos single malts. Whiskies de entrada, que tem cork-screw fora do Brasil, normalmente vem com o dosador aqui. Mas, mais uma vez, não é obrigatório.

      Olha, a gente fez a prova com o Red, e achamos diferente. O Song of Fire tem o mesmo perfil sensorial do Red, é um whisky jovem, meio defumado, com um componente de grão mais claro. Mas achamos ele bem mais delicado e apimentado do que o Red, e um pouco mais equilibrado, com álcool menos agressivo. O Red também nos pareceu mais adocicado.

      O Song of Ice lembra bem o Johnnie Walker White Walker. Mas, mais uma vez, é uma receita realmente semelhante, com Clynelish na linha de frente. Então, não me estranha a semelhança.

      Os dois são rotulos comemorativos bem acessíveis. Acho que é justamente a ideia da linha de blends da parceria com GoT. Já os single malts – que infelizmente não chegam no Brasil – são bem mais complexos (e caros).rs.

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