Drink do Cão – Rat Pack Manhattan

 

rat pack manhattan

Esses dias estava conversando com um amigo sobre o Rat Pack.

Você sabe o que foi o Rat Pack? O Rat Pack foi um grupo de artistas americanos – cantores e atores – cujo líder era o lendário Humphrey Bogart. O nome Rat Pack foi criado durante a década de cinquenta, provavelmente por Lauren Bacall, esposa de Humphrey, que se referiu a ele e seus amigos como “um grupo de ratos” ao vê-los completamente transtornados e embriagados após uma das incontáveis noitadas em Nova Iorque.

O grupo teve diversas formações ao longo do tempo. Alguns de seus membros mais proeminentes foram Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Joey Bishop, Lauren Bacall, David Niven, Peter Lawford e, obviamente, Bogart. Os mais jovens incluíam Marilyn Monroe e Angie Dickinson.

O Rat Pack foi, provavelmente, o grupo de amigos mais talentoso que já existiu na história moderna. Seus membros reuniam uma gama variadíssima de interesses e talentos. Mas havia uma habilidade comum a todos eles. O poder quase sobrehumano de entornar absolutamente qualquer coisa que continha álcool. E em quantidades leviatanescas.

ratpack manhattan
Dean, Sammy e Frank, demonstrando algumas das habilidades do Rat Pack

Naturalmente, tamanha habilidade não poderia passar sem o devido reconhecimento. Já no novo milênio, no ano de dois mil, quando quase todos os membros do Rat Pack já haviam falecido – com exceção de Joey Bishop – Wayne Collins, um famoso bartender do bar High Holborn, de Londres, lhes prestou uma homenagem. De suas mãos nasceu o coquetel Rat Pack Manhattan.

O Rat Pack Manhattan é, basicamente, um Perfect Manhattan, mas com uma adição discreta de sabor cítrico, proporcionado por algum Grand Marnier. Já um Perfect Manhattan – caso você esteja se perguntando – é quase um Manhattan, mas com o acréscimo de vermute seco. E um Manhattan, por sua vez, é quase um Rob Roy, que, ao invés de whisky escocês, utiliza whiskey americano. Porque nada é bom o suficiente para não ser melhorado.

Bom, quase tudo.
Bom, quase tudo.

Para preparar o coquetel, o amigo Fernando Lisboa me aconselhou a usar um vermute diferente desta vez. Sua recomendação foi o Vermut Miró Reserva De Luxe, produzido na Espanha pela Emilio Salvat Miró. É um vermute doce, utilizando a receita tradicional da família Miró, e maturado em soleras – grandes tanques de madeira que jamais são esvaziados por inteiro. E como um admirador do Rat Pack, antes de preparar o drink, tive que experimentá-lo puro. Assumo que gostei tanto do vermute que, quando minha sessão de experimentação estava concluída, me sentia um pouco – para utilizar uma palavra culta – obnubilado.

Além do vermute doce, o Rat Pack Manhattan utiliza vermute seco, algum licor de laranja ou triple sec – como Cointreau ou Grand Marnier – e, claro, Whiskey. Existem versões com e sem Angostura. Aqui, ensinarei a versão que leva o bitter. Porque, bom, porque eu acho que fica melhor com Angostura, e o blog é meu. Mas não se preocupe muito se você não tiver.

Então, mais uma vez, munam-se de seus smartphones e preparem seus dedos. Aí vai mais uma pequena peça de sabedoria destilada por este Cão e Fernando Lisboa, para que vocês, meus caros, bebam melhor.

RAT PACK MANHATTAN:

INGREDIENTES:

Para fazer o coquetel você vai precisar de:

  • ½ dose de licor de laranja/triple sec (este Cão usou Cointreau. Pode usar também Grand Marnier. Funcionará perfeitamente bem)
  • 1 e ½ doses de whiskey americano (como sempre, recomendo utilizar Maker’s Mark ou um Jack Daniel’s Single Barrel. Se estiver se sentindo sofisticado, vá de Woodford Reserve. Nada lhe impede de usar Jack Daniel’s No. 7, ou Wild Turkey. É um país livre).
  • ¾ dose de vermute seco
  • ¾ dose de vermute doce (como já viram acima, seguindo os conselhos de quem entende, utilizei o Miró Reserva).
  • 3 dashes de Angostura (já sabe – nem tente substituir por outra coisa. Dessa vez, se você não tiver a Angostura, não coloque nada no lugar. O coquetel funciona perfeitamente bem sem ela. É sério. Reserve sua criatividade).
  • Mixing Glass (ou qualquer recipiente em que seja possível misturar tudo)
  • Taça de Martini ou taça Coupé
  • Strainer (também conhecido como coador ou peneira)
  • Laranja bahia (opcional)
  • Cereja em calda (opcional)

 PREPARO:

Revesta o interior da taça com o licor de laranja – coloque a ½ dose na taça, e gire-a lentamente, de forma que o licor escorra por suas paredes, por inteiro. Descarte o excesso.

No mixing glass, coloque três pedras de gelo, o whiskey americano, os vermutes (doce e seco), e a angostura. Ou não coloque a angostura. Como eu disse, é opcional.

Misture os ingredientes colocados no mixing glass utilizando uma colher por uns quatro ou cinco segundos. Desça a mistura na taça, separando o gelo não diluído do restante do coquetel, utilizando o strainer.

Se estiver com tempo e quiser dar um ar mais profissional para seu coquetel, corte uma pequena fatia da casca de uma laranja bahia, e coloque, juntamente com uma cereja em calda, no fundo da taça.

Pronto. Agora você já pode se juntar a grandes nomes do cinema e sentir-se um verdadeiro membro do Rat Pack. Quer dizer, pelo menos estará bebendo tão bem quanto eles.

6 thoughts on “Drink do Cão – Rat Pack Manhattan

  1. Com o falecimento esta semana de Luis Carlos Miele, lembro que por estas bandas tb tivemos um grupo bastante talentoso, que protagonizaram deliciosas histórias, composto pelo próprio Miele, Vinícius, Tom Jobim, Bôscoli, Hugo Carvana, Antonio Pedro, Menescal, Maysa e tantos outros. Todos apreciadores da “água da vida”.
    R.I.P. Miele.

    1. Neste momento ele está no céu recitando poesia e tomando whisky enquanto vê duas anjas se atracando…

  2. Considerando que um Master Blender passa anos desenvolvendo a combinação perfeita de 20, 30, 40 ou mais whiskies de malt e grãos para entregar um blended suficientemente capaz de nos satisfazer por horas de prazer e conforto, por que gastar energia para estragar tudo com essa mistureba?
    Good whisky is enough, always.

    1. Antonio, não vai blended whisky aí não. Só whiskey americano, que não é blended (não no termo escocês da palavra, pelo menos).

      Mas vou te contar uma coisa… Muita gente acha um pecado colocar whisky – normalmente, single malts – em coquetéis. Minha humilde opinião é que tudo depende do uso. Colocar um Royal Salute 21 ou um single malt como um Macallan Ruby em um coquetel que ficaria igualmente bom com um blended whisky comum, como um black label ou mesmo um famous grouse é mesmo um contrasenso. Mas às vezes o coquetel ficará muito melhor com determinado single malt. É o caso do Penicillin. Penicillin precisa de um whisky altamente esfumaçado para dar certo e ficar realmente bom. Dá até para usar o Double Black ou o Black Grouse, mas com Ardbeg ou Laphroaig Quarter Cask, fica muito – mas muito – melhor. Inclusive, no caso do Penicillin, a receita do Sam Ross, bartender novaiorquino que criou o coquetel, é explícita ao mencionar o Laphroaig como um dos únicos aceitáveis para a receita.

      Quer dizer… colocar algo mais caro em algum lugar que um substituto mais barato funcionaria igualmente bem não faz sentido. Mas, em muitos outros casos, a qualidade e as características do ingrediente fazem diferença. É a mesma coisa com culinária: faz diferença comprar aquela posta um pouquinho mais alta do bacalhau, aquele queijo um pouquinho mais maturado ou aquela picanha um pouquinho menor, mas mais nobre. A picanha será mais macia. No coquetel, usar um vermute bom, como o Miró ou o Antica Formula faz diferença, porque o coquetel fica mais “redondo”. Por isso que normalmente recomendo marcas de outras bebidas para executar o coquetel.

      Bom, depois dessa resposta mega prolixa, o resumo é o seguinte: tem que pensar bem se vale a pena usar um bom single malt em um coquetel. Senão, realmente é bem possível que seja só desperdício de um bom whisky, como diria o 007.

  3. Desculpe-me o mal entendido. Eu vi que no drink em questão não vai blended escocês. Talvez a minha colocação tenha sido fora de lugar, mas o que tentei dizer é que pra mim o whisky, por si só, já é uma bebida completa e complexa o suficiente para não precisar de outros aditivos. No entanto, reconheço que gosto é bastante pessoal e o que realmente importa é que cada um seja feliz e se satisfaça com o que gosta.
    Cheers!

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