Sobre Gelo e Molho Shoyu – Gelo no Whisky

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Nota: Este texto foi originalmente escrito pelo Cão Engarrafado e publicado na página de nossos parceiros da Charutando.com.br . Mas, dada a relevância do assunto, achei que seria uma boa reproduzi-lo por aqui também.

Hoje em dia as pessoas tem regra para tudo. Há uns meses fui a um restaurante japonês famoso e me sentei ao balcão. E como tenho mania de sempre experimentar o diferente, fui logo pedindo o menu de especialidades. O sushiman preparou quatro niguiris. Primeiro, passou um pouco de raiz forte. Aí pegou um pincel, molhou em um potinho de shoyu, e cuidadosamente sacudiu o pincel sobre o sushi, deixando que algumas gotinhas do molho caíssem sobre o peixe cru. Tipo o Pollock, se o Pollock fosse um sushiman.

Até aí, lindo. Mas como eu gosto de shoyu, pedi a ele que me desse um potinho com um pouco mais do molho. E a resposta dele foi não, de forma nenhuma, porque é assim que você deve comer sushi, para sentir o real sabor do peixe.

Sushi, como deve ser feito
Sushi, como deve ser feito

Frente à negativa, argumentei que já conhecia o sabor do peixe, porque eu já tinha comido sushi com shoyu e sem shoyu, e em minha opinião, com era melhor que sem. Depois de uma pausa dramática, o sushiman simplesmente sorriu, preparou quatro hossomakis e me entregou. Daqueles, o molho passou longe. E em seus olhos desafiadores eu vi que se eu continuasse a discussão, o próximo passo seria comer só arroz, sem peixe. Então me calei e mastiguei aqueles enroladinhos de arroz com sabor de derrota.

Depois fiquei pensando se eu também não dava uma de sushiman do whisky, de vez em quando. Afinal, já havia me pegado diversas vezes condenando silenciosamente o cara que colocou uma calota polar de gelo dentro de seu copo de Black Label. Existe realmente jeito certo de apreciar a bebida, ou são só regras sem sentido?

Na verdade, existem algumas regras, mas que nem sempre são aplicáveis. Para ficar mais fácil, desenvolvi um método que não tem nada de científico, mas funciona. Divido meus whiskys em dois tipos. Protagonistas e coadjuvantes.

Coadjuvantes são aqueles que eu coloco no centro da mesa em uma reunião de amigos, do lado do balde de gelo. Ele é coadjuvante simplesmente porque o assunto do papo não é ele, ainda que ele seja, às vezes, notado. Tipo o menino que fica apontando pra braguilha, no final do De Volta Para o Futuro III.

Gênio
Gênio

Whiskys coadjuvantes podem ser tomados puros, com água, ou com gelo. Mesmo porque, naquela situação, ninguém está lá para ficar identificando descritores aromáticos a cada gole, e bebe-se simplesmente por prazer. Um whisky coadjuvante pode até ser caro, mas, via de regra, um blended whisky ou um american whiskey simplesmente decentes já desempenham muito bem esse papel.

Já os protagonistas são o tema do papo. Eles normalmente são single malts, american whiskeys ou blended whiskys premium, e a discussão gira em torno deles. Nesta situação, a ideia é realmente entender e prestar atenção na bebida. No caso de whiskies protagonistas, o melhor é tomar puro, ou com um pouco de água. A água tira parte do álcool do caminho, facilitando a identificação de aromas e sabores secundários.

No caso dos whiskies protagonistas, a escolha do copo também é importante.Um copo baixo com bordas arredondadas está ótimo. Mas se for um glencairn ou taça ISO, melhor ainda.Esses cuidados favorecem a concentração do aroma e do sabor da bebida, facilitando sua identificação. Assim, sempre que experimento um bom whisky pela primeira vez, tomo alguns goles dele puro, para depois colocar umas gotas de água.

ISO e Glencairn
ISO e Glencairn

 

E quanto ao gelo? Bem, adicionar muito gelo em um whisky protagonista pode não ser uma boa ideia. É, na verdade, como colocar shoyu demais no seu niguiri. A diluição excessiva e a temperatura baixa tornam a percepção mais difícil e alteram o paladar.Não é que é errado colocar gelo no whisky. Mas se a ideia é realmente prestar atenção em seus aromas e sabores, o gelo vai deixar a tarefa bem mais difícil.

Mas, na verdade, e acima de tudo, o whisky é seu, e você é livre –  pelo menos mais livre do que alguém que gosta muito de molho de soja em um restaurante oriental caro. E ao contrário de comer sushi seco, tomar whisky deve ser, acima de tudo, uma experiência divertida e agradável.

Então, na verdade, este não é um texto instrutivo. Este é um texto libertador. Não se prenda muito a essas normas, principalmente se estiver com seus amigos. O gosto – e o copo de whisky – é seu. Afinal, o mundo já tem regras demais para alguém que você nem conhece dizer quanto de shoyu você tem que colocar no seu sushi.

28 thoughts on “Sobre Gelo e Molho Shoyu – Gelo no Whisky

  1. Como vai, Mestre?
    Bom, em minha humilde opinião, fico com os Protagonistas e sem gelo! A adição de gotas de água eu venho estudando como fazer, mas até o momento ficou apenas na teoria.
    Quando eu comecei a degustar whisky, eu fiz tudo errado. Escolhi o whisky errado, o copo errado, enfim… haha.
    Depois de um histórico de exageros e um longo hiato, hj fico feliz como este hobby veio evoluindo e amadurecendo. Tem sido uma experiência divertida e agradeço a vc, por sempre me ajudar prontamente.

    Grande abraço!

  2. Eu vendo whisky em uma empresa no estados unidos e sempre digo o mesmo aos meus clientes, leio muita merda no facebook sobre whisky, e essa é a primeira que realmente gostei e tinha total coerência,

    Mas admito que um dia trouxe um dalwhinnie 18 anos de presente pra um amigo e quando vi ele colocar coca, deu vontade de dar um murro no pâncreas dele. Lkkkkkkk

    1. Já me aconteceu várias vezes. Mas no final das contas, vai fazer o que? É como comprar o computador mais rápido do mundo para… escrever no Word. E tem muita gente que faz isso!

  3. Taí um ponto que sempre me encucou.
    Antigamente era impossível, para mim, beber whisky sem gelo. Bebida quente, parecia cachaça.
    Desenvolvi um raciocínio que fazia sentido para mim:
    “O whisky é, em sua maioria, bebido na Escócia (e Europa), com temperaturas ambiente médias bem mais baixas que a do Brasil, por volta dos 18 graus. Alguns degustadores também recomendam adicionar água para ‘abrir’ o whisky. Então, uma pedra de gelo no whisky serviria para os dois motivos: reduziria a temperatura do whisky para a mesma da Escócia, e adicionaria água”.
    Eu precisei ter duas garrafas de whisky razoáveis para perceber a falha no meu raciocínio. Ambos ficavam exatamente com o mesmo gosto depois do gelo.
    Então resolvi aprender, na marra, a beber whisky sem gelo. Bebo somente em dias mais frescos ou frios. Deixo a garrafa e o copo na varanda por algumas horas antes de beber, e consigo apreciar de verdade a bebida.
    Isso não me impediu de beber whisky com gelo, alguns blend’s foram tomados com gelo em reuniões de amigos.
    Mas, por outro lado, me encorajou a gastar um pouco mais em garrafas mais caras que não seriam devidamente apreciadas de outra forma.

    1. É isso mesmo, João. Na verdade, o gelo atrapalha, porque é dificil voce controlar até onde vai a temperatura, e se a diluição não é excessiva. Deixando em um lugar fresco em casa já ajuda muito. Tem gente que coloca na adega, eu acho preciosismo. Basta escolher um dia e momento bons. E, aliás, provar em diferentes situações. Há dias que estamos mais bem humorados, ou que o paladar está mais aguçado. São muitas variáveis. Mas, em nome da ciência, estamos desbravando estes campos de malte.

  4. Texto sensacional !

    “Afinal, o mundo já tem regras demais para alguém que você nem conhece dizer quanto de shoyu você tem que colocar no seu sushi.”

  5. Uma vez garçom me disse que não se coloca gelo no conhaque. Pedi a ele o manual de instrução do inventor ou do fabricante.

  6. De uns tempos pra cá tenho colocado numa taça ISO um pouco de gelo picado, aquele que sobra quebrado da forma. Deixo uma dose de single malt sobre esse gelo e mexo até que ele derreta. Assim tenho temperatura mais baixa e não tenho variações de diluição. O que acha?

    1. Flávio, é uma boa idéia. É pouco gelo, e corresponderia a colocar água no whisky. Pode funcionar e você acaba padronizando sua degustação com um nível único de diluição!

  7. Isso mesmo, se eu quiser tomo meu whisky com gelo, de água pura ou de coco, energético….etc a bebida é minha e tomo como quiser.

  8. Sei que o assunto principal do tópico é whisky, mas a questão do sushi tbm é interessante. Diferente do whisky, onde o mestre destilador não está ali te vigiando, no caso do sushi vc deixou a cargo do chef o preparo do seu prato, então ele se sente no dever de ditar como se aprecia da melhor forma. Esse tipo de coisa já não ocorreria na mesa normal.

    Comer no balcão por conta do chef em si já é uma experiência (que acho que vale a pena), portanto ir com isso em mente pode transformar o gosto de derrota em gosto de surpresa

    1. Hahaha gostei do email e do nome!

      Pois é, Peixe! Na verdade, como é uma espécie de menu degustação, nada mais justificável. Talvez com um espírito mais aventureiro a experiência teria sido melhor. Aliás, foi bem boa, apesar da falta de shoyu…rs

  9. Caro cão! Em diversas publicações suas que li, vejo diversos comentários elogiosos aos seus textos: você merece a todos! Divertidos, leves, inteligentes, sem falar no principal: conhecimento sobre whisky (e sem a arrogância quase natural dos que “manjam” muito sobre um assunto).

    Sempre gostei de degustar bebidas e confesso que seus textos me elevaram esse prazer.

    Mas noves fora a rasgação de seda (kkkk), meu motivo é prático (e desculpe se já falou sobre o assunto e não li), mas qual a proporção da água a ser usada na degustação? Sempre tive dúvida para não “matar” o whisky, mas para realça-lo como você diz.

    Obrigado!

    1. Fala Marcelo! Muito obrigado, meu caro! Baita elogio!

      Olha, depende do whisky – mas eu usaria algo como 1/3 ou 1/4 da dose, dependendo do ABV do whisky.

  10. Gostaria que você desse exemplos de whiskys que considera coadjuvantes. Por exemplo, Jack Daniels, normal ou gentleman? Black Label?

    1. Wilson, vai depender da situação, do valor, do que cada um considera e o que cada um já experimentou. Não demos exemplo de propósito 🙂

  11. Excelente texto…
    Eu faço algo que a maioria deve achar um absurdo. Como não curto whisky com gelo, sempre deixo uma garrafa “coadjuvante” na porta da geladeira. Assim, mesmo em dias mais quentes, bem comum aqui no Brasil, consigo degustá-los a aproximadamente 7 graus (em dias mais frios, espero por uns 5 minutos para dar o primeiro gole).
    Abraços e novamente parabéns pelos excelentes textos publicados.

    1. Caro Guilherme, excelente tática essa. Mesmo porque, com o tempo, ele vai ganhando temperatura e a complexidade muda 😀

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