A Catedral do Whisky – uma visita à maior coleção da América Latina

 

catedral-colecao

Às vezes grandes descobertas estão mais próximas do que imaginamos. Tão próximas como, por exemplo, o jardim de casa. A internet está cheia de casos sobre objetos curiosos que teriam sido desenterrados de onde eles menos poderiam estar.

Uma das minhas histórias preferidas é a de duas crianças, que em 1978 decidiram que iriam – à revelia de sua mãe – cavar alguns buracos no jardim. E aquilo poderia ter terminado em apenas uma bronca bem dada, se a dupla não tivesse encontrado uma Ferrari Dino 246 GT enterrada logo ali. O carro, que hoje vale aproximadamente trezentos mil dólares, teria sido sepultado lá por ladrões que, por algum motivo, jamais voltaram para reavê-lo.

Outra história curiosa é de um homem, que talvez por tédio, talvez por ser esquisito mesmo, resolveu que percorreria seu jardim com um detector de metais. E graças a essa atividade completamente aleatória, ele acabou encontrando uma pepita de ouro de aproximadamente três quilos e meio. Aquele perdigoto de metal precioso foi mais tarde leiloado por quatrocentos e sessenta mil dólares.

Depois de tirar o superesportivo daí, vocês vão plantar todas as minhas roseiras, ouviram?
Depois de tirar o superesportivo daí, vocês vão plantar todas as minhas roseiras, ouviram?

E eu, apesar de nunca ter encontrado nada enterrado em meu jardim – em parte porque moro em apartamento – me senti como se tivesse feito uma descoberta preciosíssima há alguns meses. Descobri que logo ali, há alguns quilômetros de São Paulo, estava uma das maiores coleções de whisky do mundo. A santíssima Catedral do Whisky.

Demorei alguns meses até visita-la. Mas, quando fui, pouco conseguia acreditar no que via. A Catedral do Whisky fica dentro de um sítio em Itatiba, de propriedade do empresário José Roberto Briguenti. Ele mesmo nos recepcionou e guiou pelos ambientes da coleção com muito bom humor e simpatia.

A primeira impressão que tive ao chegar ao sítio foi de perplexidade. Todas as paredes da garagem possuem armários de apotecários antigos, restaurados, contendo centenas de garrafas de porcelana e miniaturas. Aquela provavelmente foi a manobra mais lenta e meticulosa que já fiz com meu automóvel, incluindo quando saí do hospital com a Cãzinha recém-nascida.

Perguntei a ele como teria criado interesse por colecionar whisky. “Casualmente, ao procurar algumas garrafas para abastecer o bar da propriedade, encontrei uma bela coleção, aí começou

Atualmente, a Catedral do Whisky conta com mais de vinte e três mil garrafas, entre vidro, cristal, cerâmica, porcelana e miniaturas. Há whiskies brasileiros do passado, whiskeys americanos da época da Lei Seca e uma absoluta infinidade de single malts e blended scotch whiskies. As prateleiras contam com uma pequena prateleira retrátil, para apoiar alguma garrafa a ser estudada.

Algumas pepitas de ouro chamaram a atenção deste Cão, durante a visita. A maior delas foi um Glenmorangie Pride 1981, bem no centro da mesa principal da catedral. Aquela era, na opinião deste canídeo, uma das mais belas garrafas de whisky já produzidas.

glenmorangie Pride
Quero.

Ao lado do ícone da destilaria das highlands estavam mais algumas raridades. Um Bowmore 40 anos em um belo decanter de cristal e um Mortlach 50 anos. Alguns centímetros à frente, uma caixa de madeira contendo um Johnnie Walker Blue Label 1805 Celebration – blend de whiskies de 45 a 70 anos de idade, que geralmente é dado de presente pela Johnnie Walker a expoentes da atualidade, e não se encontra à venda.

A caneta é brinde
A caneta é brinde

Frente a todas aquelas Ferraris do mundo etílico, indaguei se havia alguma garrafa ou linha favorita. Briguenti mostrou que seu bom gosto não se balizava por valor ou pompa: Tenho preferência por rótulos antigos elaborados, o conjunto que mais gosto é o da cerâmica para whisky Royal Doulton Kingsware – respondeu.

Além das garrafas, Briguenti coleciona também portas de madeira, armários de farmácias antigas e peças de mobiliário, tudo restaurado aos mínimos detalhes. Há relíquias como um gramofone da década de vinte que ainda funciona perfeitamente. Ele também possui uma linda coleção de lápis antigos e de xícaras de marcas de café.

A visita levou em torno de duas horas, mas poderia facilmente ter se estendido por seis. Há itens inacreditáveis que este Cão jamais imaginou que viria ao vivo. E, melhor, nem foi preciso pegar um avião para isso.

Alguns têm a sorte de encontrar superesportivos italianos enterrados em seu jardim. Outros, pepitas de ouro gigantes. Mas à distância de algumas poucas dezenas de quilômetros, a Catedral é provavelmente a melhor descoberta que um apaixonado por whiskies poderia fazer.

Se quiser fazer um tour virtual pela coleção, clique aqui.

 

11 thoughts on “A Catedral do Whisky – uma visita à maior coleção da América Latina

    1. Leandro, está no site deles, lá no final da notícia! Se nao conseguir, mande um e-mail para eles. As visitas são sempre guiadas, e tem que marcar hora.

      1. olá.voce sabe onde posso ou quem pode avaliar uma garrafa de whisky?é uma garrafa de White horse que segundo minha esposa foi trazida por um tio dela que lutou na 2 guerra.obrigado.

        1. Otavio, tudo bem? Entre em contato com o pessoal da Casa Curia e Feldman! Eles poderão te ajudar 🙂

  1. Como vai, Maurício?
    Meu quintal está concretado, então melhor dirigir alguns quilómetros do que destruir tudo na marreta, ainda correndo o risco de não achar nada interessante, né? Hahaha
    Estarei de férias em Janeiro, então, por que não fazer um tour por lá?

    Grande abraço!

  2. Por falar em Islay, descobri no Paraguai um single extremamente barato e muito interessante, do qual nunca ouvira falar: McClelland’s Islay. Você tem alguma informação sobre esse nosso amigo?
    Abraço

    1. Luiz, é um mistery malt, engarrafado pela McClelland’s. Eles não divulgam a destilaria, mas eu apostaria em Caol Ila ou um Bowmore. Eles tem também linhas das outras regiões da Escocia – Lowlands, Speyside e Highlands

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