Vira Lata Engarrafado – White Horse

White Horse

Antes de dar continuidade ao projeto de três whiskies abaixo de cem reais, permita-me uma digressão: preço é uma coisa engraçada. Quando algo é caro, necessariamente a tratamos com mais respeito, e procuramos – as vezes, inutilmente – qualidades ocultas naquilo. Carros são bons exemplos disso. Mas os melhores são, provavelmente, restaurantes.

Restaurantes são bons exemplos porque há uma conjunção louca de fatores que poderiam justificar um preço simplesmente extorsivo. Além disso, avaliar um restaurante é um processo quase exclusivamente subjetivo. Não há parâmetros matemáticos. No caso de carros, por exemplo, podemos dizer que um vai de zero a cem em dois segundos a menos que outro. E que há mais espaço interno. É como dizem: contra fatos não há argumentos. Mas é difícil medir objetivamente se o bacalhau de um restaurante é duas e setenta e cinco vezes melhor que de outro.

Uma vez fui com a Cã a um restaurante autoproclamado conceitual. Meu prato, que custava quase o preço de todas as minhas peças de roupa combinadas, era descrito como crisps de batata sobre suculentos escalopes em uma cama de verdes. Entretanto, ele se mostrou, na verdade, como um contrafilé maltratado, com batata palha e algo que lembrava, remotamente, espinafre.

Não me leve a mal. Gosto de restaurantes inventivos. E acho que teria achado até engraçada aquela situação, se não tivesse vendido meu senso de humor naquele dia para pagar a conta. O cara que escreveu aquele menu poderia descrever qualquer coisa bem. Imagine-o descrevendo um lixão: idílica e montanhosa vista das reminiscências abandonadas por uma sociedade em progresso.

Bangalô-Food-Truck para venda de empanadas brasileiras com veículo utilitário vintage
Bangalô-Food-Truck para venda de empanadas brasileiras com veículo utilitário vintage

Com whiskies, essa distorção é ainda maior. É absolutamente impossível avaliar se certo whisky é melhor que outro de uma forma cem por cento objetiva. E o que acontece é que, em geral, whiskies mais caros tendem a ser mais bem avaliados, enquanto que os baratos sofrem preconceito. E, na opinião deste Cão, um dos blended whiskies que mais sofre com isso é o White Horse.

Ele foi um dos primeiros whiskies escoceses a entrar no mercado nacional. Era um dos preferidos do distinto cavalheiro que inspirou o nome deste blog, Vinícius de Moraes, que o definia como um “cachorro engarrafado”. Com o tempo, entretanto, este whisky foi adquirindo fama ruim, até se tornar um verdadeiro vira-latas engarrafado.

O White Horse é um blended whisky sem idade definida, desenvolvido em meados do século dezenove por James Logan Mackie e seu sobrinho, Peter Jeffrey Mackie, proprietários da destilaria Lagavulin – uma das preferidas deste Cão que vos escreve- localizada em Islay, e famosa por seu whisky com aroma defumado e medicinal. Hoje, tanto a marca White Horse, quanto a destilaria Lagavulin pertencem à Diageo, que é também responsável pelos mundialmente famosos blends Johnnie Walker.

O White Horse é composto por grain whiskies e single malts, numa proporção de aproximadamente quarenta por cento. O seu malte base é o próprio Lagavulin. Além dele, há em sua composição maltes de Talisker, Craigellachie, Glen Elgin e Linkwood. O resultado é um whisky que preserva o aroma de fumaça do Lagavulin, mas bastante suavizado, com sabor doce e fácil de ser bebido.

Que?!
Que?!

 

Entre os prêmios internacionais recebidos por este humilde whisky, está o título de Blended Whisky do Ano, pela Whisky Bible de Jim Murray de 2007. Além dele, o White Horse recebeu medalha de ouro na International Wine and Spirits Competition de 2014 e medalha de prata pela Scotch Whisky Masters, em 2013. Nada mau para um vasilhame que custa menos do que um tanque de etanol.

No Brasil, uma garrafa do White Horse custa, em média, R$ 70,00 (setenta reais). E, por incrível que pareça, é realmente difícil encontrar algum whisky melhor nessa faixa de preço.

Ainda que ele esteja longe de ser o melhor blended whisky que este Cão já tomou, o White Horse é bastante consistente, considerando seu custo. É um blend despretensioso, que não quer provar nada. Aliás, ele sempre me gerou uma certa simpatia. Talvez seja por conta do uso do Lagavulin, ou talvez porque Vinícius de Moraes o apreciava. Como disse, um Vira-Lata Engarrafado, que está lá, e só precisa de um pouco de atenção para te surpreender.

WHITE HORSE

Tipo: Blended Whisky sem idade definida

Marca: White Horse

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: aroma de açúcar e malte, levemente frutado.

Sabor: sabor doce, frutado e levemente cítrico, com final defumado e persistente. O final é bem mais longo do que da maioria dos whiskies em sua faixa de preço.

Com água: a água ressalta o sabor doce, de açúcar, e reduz o final defumado.

Preço: R$ 70,00 (setenta reais)

32 thoughts on “Vira Lata Engarrafado – White Horse

    1. Obrigado! Também acho. Na verdade, uma das coisas que o matou foi a falsificação. Havia tanto White Horse falsificado que, no final, o produto original ficou prejudicado.

      1. Parabéns por ter lembrado desse whisky, concordo com você com a questão do melhor nessa faixa de preço, e apenas ressaltando que o mesmo que aconteceu com ele por causa da pirataria, acontece também agora com o queridinho do momento, que acompanha a mesma faixa de preço, JOHNNIE WALKER RED LABEL, também é um bom whisky abaixo de R$ 100,00 mas por estar na moda agora também é muito pirateado.

      2. Tanta complicação no mundo de hoje … trânsito, criminalidade , preço da gasolina subindo sempre, impostos cada vez mais caros, crise econômica . Mas o pior é a Falsificação do Whisky ! Devia classificar a falsificação do Scotch Whisky como Crime Hediondo punivel com três décadas de cadeia ! O mundo pode ficar de cabeça para baixo mas não mecham no nosso Whisky ! Chegar em casa e render-se a uma boa dose de Scoth com gelo de água mineral ajuda a viver !

        1. Marcelo, concordo plenamente com você. Isso é hediondo! É como disse o Vincent do Pulp Fiction – você não sacaneia o automóvel alheio. Substitua o carro pelo whisky!

  1. De fato injusticado. Pra mim melhor q Johnie Red, e muito. Gosto bastante dele com água de coco. Aliás, parece-me que os turfados casam bem c água de coco.

  2. Na cidade do interior onde me criei existiam apenas duas marcas de whisky, respectivamente consumidas pela classe média média (White Horse) e média alta (Old Parr). Foram estes whiskies que me encantaram ainda na infância por seus perfumes característicos, tão próximos e tão diferentes. ainda me encantam e sempre me remetem às impressões da infância. Recentemente descobri que nos EUA e em outras partes do mundo existe um “White Horse Black”, um White 12 anos. No Brasil é vendido como Logan, um ótimo blend.

  3. Provei hoje e, de fato, me surpreendeu. Muito melhor do que sua fama me fazia antever. Frutado, senti pouca fumaça, e mais importante, não senti alcool em excesso, seja no aroma, seja no paladar. Com gelo, dá pra se divertir bastante.

  4. Eu questionava isso mesmo. O meu velho e conhecido “cavalo branco” não troco por outro. Bingo!.

  5. Boa noite, tenho um White Horse lacrado, acredito de mais ou menos 50 anos. Gostaria de saber onde posso encontrar um havaliador profissional para um venda. Abraço

    1. Ricardo, nos mande fotos da garrafa para ocaoengarrafado@gmail.com . Precisamos de algumas fotos: uma do lacre, outra da parte de trás, outra do rótulo e uma da garrafa inteira. Consegue fazer e nos passar? Talvez possamos dar a você algum norte. Abs.

  6. comprei dois litros do white horse, mas estou desconfiado porque a tampa é diferente, mesmo bem lacrado com selo na tampa e o rotulo em brasileiro achei estranho o nome do produto nao fica cruzando o lacre o nome fica mais abaixo, pode ser falsificado?

    1. Eronaldo, essa garrafinha da nossa foto é de 500ml. Talvez por isso você ache diferente. Você comprou no Mercado Livre? Bom, o site possui muitos vendedores honestos, mas há uma chance de ser falsificado sim, ainda mais por tratar-se de um produto disponível no Brasil.

      Para evitar problemas, recomendamos sempre comprar os produtos em lojas confiáveis, com emissão de Nota Fiscal. É mais caro, mas é também uma garantia a mais de que o produto será original. Não temos como afirmar que o whisky que voce adquiriu é falso. Não entendemos o que quis dizer com “não fica cruzando o lacre”. Pelas fotos, nos parece ok.

  7. Nunca entendi tanto que não sei nada dessa bebida da Escócia. Esse site é muito bom, bem escrito, parabéns. Meus conhecimentos da bebida eram apenas 3. Whisky de mulher (ballantines), de homem (chivas 12) e de playboy (johnnie Walker 12 anos). O White horse e o grant’s eu descobri bebendo, embora prefira o primeiro e não saiba nada de whisky. Concordo com seu texto e agora, com o poeta também.

    1. Hahaha, fala Alexssandro! Se gosta do cavalinho (eu também), então procure os whiskies defumados. Talvez seja por aí. Tente tomar um Teacher’s (sério, sem preconceito!), um Famous Grouse Smoky Black (Black Grouse) ou um Johnnie Walker Double Black! Acho que voce pode curtir.

  8. Concordo plenamente, conheço desde 1985, e desde sempre apreciei bastante, acho ele bem superior aos seus concorrentes (incluisive o Red label), parabéns pela honestidade nas palavras, um abraço!

  9. Bom dia, Cão. Meu primeiro uísque foi um Red Label, meu segundo um Passport e meu terceiro um Teachers. Por incrível que pareça, minha ordem pessoal fica de trás para frente, hahah! Me desculpa Johnnie Walker, mas o professor me ganhou bem mais, rs. Bebia uma dose de dois dedos dele, com uma pequena adição de água (uma colher de sopa pequena) e gostava bastante. Aliás, me desculpe, eu ainda gosto bastante dele, é meu uísque de batalha (dia a dia)… Recentemente, amigos me indicaram o Ballantines Finest e este do seu review, o White Horse. São um pouco mais caros que meu “Professor”, uns 20 reais, mas vale o investimento, não? Não sou da grana, como já da pra ver heheheh, longe disso… Então busco alternativas que cabem no meu bolso… Aliás, o uísque é a única bebida alcoólica que aprecio. Aí vem minha pergunta, Cão… Qual dois dois é melhor? O cavalinho ou o Balla? Quais suas diferenças? Qual o melhor puro/com água? Pretendo adquirir um deles em breve… Um grande abraço! SKOL! (Saudação Viking da Netflix, ou se preferir, MACALLAN! )

    1. HAHAHAHAHA SKOL foi ótimo!

      Caro South, eu não sou de tomar decisões pelos outros então vou falar o que eles são. O Balla é bem adocicado, puxado pro mel e caramelo. É um whisky delicado mas com álcool mais ou menos agressivo. Mas nada que incomode. Já o White Horse é um whisky um pouquinho mais “cremoso”, com um final enfumaçado. Pela sua ordem “de trás pra frente”, eu chutaria que você gostará mais do simpático cavalinho.

      E pode beber como gostar mais. Para o White Horse, eu iria puro ou com uma pedrinha de gelo para quebrar a seriedade (nesse caso, não para degustar, mas para beber por prazer). Não acho que a água vá ajudar muito, o ABV do whisky é relativamente baixo já!

  10. Aqui em Fortaleza Ceará, em um respeitado e tradicional supermercado da nossa ensolarada cidade, encontrei esse “filhote de cavalo branco” o White Horse de 500ml que custa R$40,00 ! Achei interessante ! que quem tem duas notas de R$ 20,00 na carteira poderá terminar o dia saboreando um legítimo e de boa qualidade Scotch Whisky ! Gostei de conhecer a garrafa de meio litro , talvez hoje mesmo eu compre uma !

    1. Sim! Compramos a de 500ml para fazer a prova, mas assumo que tenho uma de 1L por aqui em algum lugar 🙂

    1. Anderson, até onde sabemos, não é não. Teacher’s e Passport são. E imaginamos que o Black&White também seja. Mas o White Horse anuncia no rótulo – ao menos o que temos aqui – que é “bottled in scotland”.

  11. Boa noite, amigo! Ganhei de presente na última compra do mês uma garrafa de L de White Horse de minha namorada, que vive comigo. Eu havia apreciado duas doses num bar muito especial para nós e gostei bastante. No auge dos meus 20 anos, morando com a namorada, pensava ser cedo demais para apreciar um bom whisky. Estou na segunda dose, uma pedrinha de gelo para quebrar um pouco e achei excelente. Alguma recomendação para alguém que não entende muito sobre? Gosto de coisas antigas (dirijo um Opala 78, com toca-fitas e tudo) e aprecio os velhos tempos. Um abraço!

    1. Opa, fala Murilo! Dentro da legalidade, nunca se é jovem para whisky. Dos 18 pra cima, basta ter bom gosto, rs!

      Continue degustando seu White Horse do jeito que mais gostar. Depois, procure whiskies com perfil sensorial próximo dele. O Johnnie Walker Black Label é um deles. O Teacher’s, incrivelmente, também é, apesar de ser mais seco e defumado, e mais simples um pouquinho!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *