Relevância – Arran Machrie Moor Cask Strength

A cobertura jornalística de alguns veículos é fascinante. Desde que o Caetano Veloso parou o carro no Leblon, me deslumbro com a relevância de algumas notícias. Como, por exemplo, da galinha que sobreviveu a um incêndio no Acre, e foi rebatizada de Fênix. Mas acho que a que mais me enfeitiçou recentemente foi de um rapaz que foi hospitalizado após comer uma pimenta – talvez por conta de meu interesse gastronômico em condimentos.

A pimenta pivô do quase trágico acidente é a Carolina Reaper. Ela foi criada pelo californiano Ed Currie, proprietário de uma companhia com um nome bem sugestivo: Pucker Butt Pepper Company – numa tradução esdrúxula, Cia. de Pimentas Bunda Enrugada. Algo que, suspeito, tenha algo a ver com o processo, diremos assim, pós-digestivo da Carolina Reaper.

A tal pimenta é considerada desde 2013 a mais forte do mundo pelo Guiness. Algumas delas chegam a dois milhões e duzentas unidades de Scoville (SHU) – escala usada para medir a picância destes belos frutos. Para você ter uma ideia, aquele Tabasco tradicional que você tem em casa mede de 2.500 a 5.000 SHU. E aquela habanero, que você acha super ardida e pinga só uma gotinha, como se temperasse a comida com ácido sulfúrico, tem só sete mil SHU.

a Fênix, depois de comer uma Carolina Reaper

No mundo dos whiskies, se houvesse algo comparado à Carolina Reaper, seriam os whiskies Cask Strength. Mas antes de prosseguir, permita-me uma breve explicação sobre este conceito. A maioria dos whiskies – do clássico Jack Daniel’s até o sofisticado Glenfiddich 25 – quando são retirados das barricas e misturados, sofrem certa diluição com água. A ideia é que os whiskies tenham sabor mais suave, e agradem a mais paladares. Além disso, mais diluição significa que, para um mesmo número de barris, mais garrafas serão produzidas.

Porém, há whiskies que não sofrem qualquer diluição – a graduação alcoólica do engarrafamento é a mesma do barril. Estes são conhecidos como Cask Strength. Isso resulta em graduações alcoólicas muitas vezes estapafúrdias para a maioria dos seres humanos – algo entre cinquenta e sessenta e cinco por cento.

O Arran Machrie Moor Cask Strength é um desses whiskies. E mais. Ele é o primeiro whisky assim a ser vendido oficialmente em terras brasileiras. Fruto da primeira importação da Single Malt Brasil, loja especializada na bebida, sediada no Rio de Janeiro. De acordo com Alexandre Campos, sócio da empresa “Inauguramos uma nova fase para o whisky no Brasil. Conseguimos importar um malt Cask Strength da Arran. Feito inédito até então. Estamos muito entusiasmados com as possibilidades que temos. Nosso maior objetivo é colocar o nosso país na rota dos whiskies de prestígio. E trabalharemos para levar o melhor aos consumidores brasileiros

Tamanha empolgação tem motivo. A graduação alcoólica do Machrie Moor Cask Strength é de 56,2% – a maior já vista por aqui. Isso lhe traz maior intensidade de sabor. Além disso, permite que você, nobre entusiasta, escolha quanto de água adicionará a seu whisky. A quantidade de água adicionada alterará suas características sensoriais, e ressaltará aromas e sabores diferentes. É como se, dentro de uma garrafa, você tivesse uns três whiskies diferentes

A maturação do Machrie Moor Cask Strength ocorre em barricas de carvalho americano. Não há indicação de idade. Porém, este Cão estima que a média seja de uma década. Ocorre que a defumação do Machrie Moor é próxima dos 20 ppm. E, para atingir tamanha sensação de fumaça, é necessário um destilado jovem, já que, à medida que matura, os fenóis responsáveis por essa impressão são atenuados.

Barrica de Peated Whisky da Arran

Sensorialmente, e sem a adição de água, o Machrie Moor Cask Strength é um whisky extremamente enfumaçado e picante, com uma nota frutada doce que remete a pêssegos. Com um pouco de água – algo como um terço da dose – a pungência é aliviada, e certos aromas salinos e marítimos podem ser sentidos. Não é um whisky fácil. Mas é extremamente recompensador.

A destilaria Arran tem uma história curiosa. Ela foi fundada por Harold Currie – que não tem qualquer relação com o Ed da pimenta – em 1993, com produção inciada em 1995. Perto de certas destilarias bicentenárias da Escócia, ela é somente um adolescente. Porém, nestes poucos anos, a Arran produziu um extenso portfólio de whiskies. De whiskies fortemente enfumaçados até florais e delicados, a destilaria encontrou seu espaço e demonstrou polivalência em um mercado considerado, por muitos, difícil e saturado.

Se você é do tipo que coloca pimenta até na sobremesa, acha que o bacon sempre podia ser um pouquinho mais defumado ou acha que tem muito gelo na sua caipirinha, o Machrie Moor Cask Strength será sua paixão etílica por muito tempo. E vá por mim, essa é a notícia mais relevante que você lerá sobre o mundo do whisky em um bom tempo. Sobre o mundo do whisky, claro – porque não dá pra concorrer com a Fênix, ou o Caetano e seu carro no Leblon.

ARRAN MACHRIE MOOR CASK STRENGTH

Tipo: Single Malt sem idade declarada (NAS)

Destilaria: Arran

Região: Higlands (Islands)

ABV: 56,2%

Notas de prova:

Aroma: fumaça, iodo. Frutas em calda.

Sabor: Frutado e salgado. Pimenta do reino. Final longo, enfumaçado e picante.

Com água: a água ressalta as notas adocicadas e picantes, e reduz a impressão de fumaça.

Preço: aproximadamente R$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta reais) – à venda exclusivamente na Single Malt Brasil.

4 thoughts on “Relevância – Arran Machrie Moor Cask Strength

  1. Ótima história, mestre! Por esses dias mesmo estava lendo sobre a Arran. Demorei um pouco para entender que o Machrie Moor era deles.
    Eu ainda não provei nenhum Cask Strength, mas meu PC Scottish Barley contava com 50% e eu adicionei um pouco de água. A conta é sempre mais ou menos essa? Cerca de 1/3 da dose de água?
    Bom, gostei da notícia. Ótima chance de provar um CS. Ainda mais defumado hahaha.
    Abraço!

    1. Fala mestre! Olha que eu acho que está na hora de voce comprar um MM Cask Strength, hein?

      A conta é mais ou menos essa aí. Nos cask Strength talvez eu coloque um tequinho a mais. E nos whiskies com seus 43-40, eu colocaria um pouquinho menos. O ideal é ir pingando. Eu compro aqueles kits de pipetinha plástica, que ajudam bastante!

  2. Infelizmente os preços praticados aqui por algumas lojas desses single malts e fora da realidade da maioria dos brasileiros, entendo que os impostos são altos, mas comparado com os preços praticados la fora chega a ser bizarro a diferença, obrigando infelizmente aos entusiastas recorrer para vendedores paralelos no mercado e sim, existem bons vendedores que vendem produtos originais e com procedência com preços justos.

    1. Olá Marcelo, bom dia! É, infelizmente, a regra é essa. Mas você chegou a fazer a conta em relação ao Machrie Moor? Olha, vou dar um exemplo que dei esses dias:

      No UK, o Machrie Cask Strength custa 45 Libras. O que equivale a uns 250 reais. Então, 445 (preço a vista em real) / 250 = 1,78 (ou seja, é o preço do UK vezes 1,78).
      No Mercado Livre, peguei dois exemplos:
      Glendronach 12 – No UK, custa 32 Libras. Equivale a 176 reais. Então, 469 (preço do ML, tirei 20 reais de frete que está incluso) / 176 = 2,66 (ou seja, é o preço do UK vezes 2,66, quase 0,9 a mais do que da importadora oficial).
      Aberlour A’Bunadh – 66 LIbras na UK. Equivale a 363 reais. Então 699 / 363 = 1,92 (1,92 vezes o preço original em libra).

      Nos dois casos, me pareceu mais caro no mercado paralelo do que a importadora oficial, que emite NF e tudo. De qqr modo, estes são apenas exemplos. Claro que há whiskies mais baratos no mercado paralelo, mas acho que cada caso deve ser analisado individualmente. Além disso, são também whiskies de procedência questionável, que entram no Brasil de forma ilegal, fruto de contrabando e receptação – ainda que possam ser originais. Enfim, um é fruto de uma atividade criminosa, mas infelizmente negligenciada. O outro é um produto que segue todos os ditames legais.
      Eu entendo o que motiva alguém a comprar no ML – há variedade e preço atrativo. Mas não vejo como comparar, legitimamente, as coisas, sendo que uma é uma atividade legal, e a outra, crime.
      E olha que, mesmo assim, às vezes o whisky fruto da atividade legal tem margem menor, percentualmente, que o criminoso.

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