Ballantine’s Bourbon Finish – Cubismo

Quando Pablo Picasso pintou Les Demoiselles d’Avignon, provavelmente nem sabia o que era o cubismo. O movimento, nascido na primeira década do século vinte, teve como pioneiros o pintor espanhol e Geroges Braque. Surgiu como uma forma de representar distintos as várias faces de objetos e pessoas em um mesmo plano. O cubismo começou analítico, decompondo as figuras, e evoluiu para o sintético – agrupando-as novamente.

O Cubismo não levou nem dez anos para se tornar um movimento artístico fundamental daquele século. E ainda que Picasso e Braque tenham sido seus precursores, o movimento contou também com importantíssimos difusores. Dentre eles, Juan Gris – que se juntou à vanguarda pouco tempo depois de sua criação – e Julio Gonzalez. E após algumas décadas de glória, desembocou nos irremediáveis reprodutores, como aqueles famosos gravuristas de Miami.

Chora Pablo.

Na verdade, é um caminho natural, este – quando algo é criado e se torna desejado, a tendência é que seja reproduzido até se tornar convencional. O que não é ruim – muito pelo contrário. Acontece nas artes, no cinema, e também no whisky. Como foi com a alardeada Extra-finish, ou finzalização. Uma técnica desenvolvida quase simultaneamente por duas destilarias escocesas – Picasso e Braque do whisky – e que rapidamente foi adotada por mais de uma dezena delas, até passar também para o blended whisky.

A “finalização” é tão simples quanto genial. É a técnica de transferir um whisky já maturado para outras barricas de natureza distinta daquelas que o compõe, de forma a acentuar determinada nota sensorial, ou agregar complexidade*. Que é justamente o que ocorre com o Ballantine’s Bourbon Finish, lançado em dezembro de 2020 aqui no Brasil. É um blended scotch whisky jovem, que é finalizado por um tempo não declarado em barris de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey.

No caso do Ballantine’s Bourbon Finish, o whisky é primeiro “blendado” para, depois, ser transferido para os barris de finalização, ainda com graduação alcoolica de retirada do barril. Depois, ele é cortado (diluído) e engarrafado. Nas palavras de Luiz Eduardo Moraes, Head de Brown Spirits da Pernod-Ricard, “O master blender de Ballantine’s, Sandy Hyslop, escolheu cuidadosamente uma seleção de whiskies que são individualmente maturados antes de serem misturados para finalização em barris de Bourbon. Esse é um processo que demanda tempo, rigor, experimentação, resultando em um produto de sabor incomparável e que vai levar a proposta do Scotch Whisky para novos públicos”.

Sandy trabalhando

Há, aqui, dois pontos curiosos a respeito do Ballantine’s Bourbon Finish. O primeiro é que a técnica de finalização é bem mais comum em single malts – e extremamente benéfica. Barris não se comportam todos da mesma forma. Então, a finalização permite que um malte já maturado, cujas arestas pontudas já foram aparadas pelo tempo de barril, ganhe complexidade sensorial sem perder equilíbrio – já que barris de tipos distintos levam tempos diferentes para atingir equilíbrio sensorial entre o new-make spirit e a maturação. Em blends, porém, a técnica é mais incomum. Ainda que tenha galgado popularidade nos últimos anos.

A segunda é que o Ballantine’s Bourbon Finish é finalizado no mesmo tipo de barrica que já foi utilizada nos componentes de seu blend. De Bourbon Whiskey. A ideia, aqui, na verdade, não é criar um sabor diferente. Mas sim acentuar uma característica sensorial que já está lá. Aumentar a intensidade, e não agregar algo novo. O resultado é um blend que claramente puxa para o caramelo, baunilha, mel e creme brulee.

Fora do Brasil, o Ballantine’s Bourbon Finish, curiosamente, traz no rótulo a idade estampada – sete anos. Por aqui, entretanto, a marca preferiu lançá-lo como um whisky sem idade declarada. O que faz sentido – a declaração de idade neste caso apenas confundiria mais o consumidor. O produto é essencialmente diferente, e não se encaixaria acima ou abaixo do tradicional Finest ou 12 anos.

O Ballantine’s Bourbon Finish é um whisky jovem, leve e adocicado. Há um tema de mel, caramelo e baunilha bastante aparente – ainda mais do que no Ballantine’s 12 anos. Mas, na opinião deste Cão Engarrafado, ele vai além disso. Ele é um exemplo perfeito de que mesmo técnicas sofisticadas de produção de whisky podem ser empregadas para trazer inovação mesmo em rótulos mais acessíveis. É uma demonstração de que o consumidor evoluiu e, a indústria, com ele. Picasso aprovaria.

BALLANTINE’S BOURBON FINISH

Tipo: Blended Whisky sem idade declarada

Marca: Ballantine’s

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: futado, nozes, mel.

Sabor: adocicado, caramelo, mel, baunilha, amêndoas. Adocicado e floral, com final de baunilha e caramelo.

*Caso você esteja se perguntando, a técnica de finalização, ou “extra-finish” é distinta da técnica de combinar barricas distintas. Nesta, a maturação acontece em paralelo. Então, por exemplo, uma parcela de líquido maturado em barricas de carvalho europeu de ex-jerez é combinada com outra parcela, maturada em carvalho americano de ex-bourbon, para compor o produto final. Na finalização, entretanto, o líquido é o mesmo, e a maturação não ocorre em paralelo, mas, em sequência. Então, o mesmo líquido que estava em determinada barrica é transferido para outra – por isso, é chamada “finalização”.

7 thoughts on “Ballantine’s Bourbon Finish – Cubismo

  1. Olá cão …..
    O que posso dizer sem ser redundante? Mais uma vez a sua análogia e precisão, baseada em suas percepções de cada rótulo são estimulantes e divertidas….ou seja, mais um rótulo que me vejo inspirado a experimentar…rs rs…..
    um grande abraço
    Luiz F.

  2. Prezado amigo Cão,
    Tenho acompanhado com veemência seu blog e comprar whiskies tem se tornado uma tarefa cada vez mais complicada. Veja bem, o que se espera da informação é que ela te ajude a fazer decisões bem fundadas, mas o mundo do whisky é cruel, e gostoso: tem muita variedade por aí e é inevitável pensar que a garrafa de 500 reais que você pensou em comprar ontem pode ser a resposta de todos os seus problemas. E pode mesmo, porque whisky bom é um prazer único.
    O grande problema é que a vida tem etapas e, às vezes, como eu, você ainda está galgando os patamares para resolver sua vida financeira. Quem sabe você é um estagiário, é jovem e mesmo assim quer retirar algo do mundo etílico. Como comprar whiskies para o dia a dia e ao mesmo tempo apreciar alguma garrafa mais interessante (e cara) de uns seis em seis meses? O que fazer para lidar com a pouca grana e a ardente paixão pela bebida dourada? Alguma recomendação para trazer conforto ao coração de um iniciante não tão bem afortunado?

    1. Ahahahaha, olá caro Vira-Lata Caramelo. O seu nome é porque você usa corante e-150A? Ou é unchillfiltered? (nossa, que piada de tiozão). Bem, vamos à duvida.

      Eu acho que seu plano etílico-financeiro está perfeito. Vá provando os whiskies mais em conta, e, de vez em quando, pegue algo sofisticado. O que eu fazia muito no começo era me forçar alternar entre estilos. Então, primeiro um frutado, depois um defumado, depois um adocicado, e por aí vai. Isso, para os sofisticados. Para os mais baratinhos, tentaria ir entre um blend e um bourbon, sempre. Ou manter sempre abertos um blend e um bourbon.

      Agora, o que comprar? Bem, vai do gosto e da curiosidade do freguês. Rs. Dentre os mais em conta, gosto muito dos Grouses (tanto famous quanto smoky), Chivas 12 e incrivelmente o White Horse.

  3. Só uma observação, na caixa fala que são 7 anos envelhecidos, esse informação da forma discreta que está, não pode ser considerado idade declarada?

    1. Diego, sim e não. Em tese, teria que estar no rótulo – Mas, se a caixa falou, tá falado!

  4. Caro mestre Cão, será que a opção da marca de lançar está expressão como um NAS é apenas estratégia de mercado? Ou será que de fato este whisky não é maturado por 7 anos como em outros países? Parabéns pelo texto e pelo trabalho, sou muito fã deste blog.

    1. Caro Roberto, tudo bom? É o mesmo whisky, provavelmente – como voce pontuou bem – é uma estratégia de mercado para nao confundir o consumidor (como um whisky 7 anos pode ter idade equiparada a um 12?)

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