Drops – Ledaig 18 Anos

Às vezes, apenas o tempo é capaz de nos mostrar a significância de algo. Há experiências que temos certeza que permanecerão por muito tempo em nossa memória. Mas há outras que não parecem grande coisa no momento e que, depois, se revelam importantíssimas. Tive uma dessas com o Ledaig 18 anos. Comprei o whisky durante minha primeira viagem à Escócia. Assumo que, em boa parte, devido à bela caixa de madeira gravada. Passei um bom tempo sem abri-lo, até que, certo dia, resolvi que o experimentaria. Logo ao abrir a rolha percebi que era algo que me agradaria. Aroma, primeiro gole, segundo. Um whisky excelente. Entretanto, não dei muita importância. Era uma delícia como muitos. O curioso aconteceu depois. À medida que experimentava outros whiskies com perfil semelhante – Bowmores, Longrows, Juras – minha memória sempre recorria àquele Ledaig 18. Era como se ele fosse a base de comparação. Uma base de comparação bem alta. E o mais estranho é que, muitas vezes, quando alguém me perguntava qual whisky eu era apaixonado, ainda que muitas vezes respondesse de forma política, no fundo do meu pensamento, o Ledaig 18 surgia. Levou um bom tempo para eu perceber isso, e ainda mais […]

Da Arqueologia e Evolução – Glenmorangie Lasanta

Essa semana fiz uma descoberta arqueológica em minha dispensa. Encontrei lá, escondido, num cantinho, atrás das caixas de Macallan Ruby e Glenlivet 18 anos, um panetone. Fechado, na caixa. Totalmente intocado. Uma reminiscência do de nosso último natal. Visualmente, estava intacto, ainda que aparentasse levemente ressecado. Não sei o que me levou a fazer isto. Mas, quando menos percebi, já provava um pedaço. E estava horrível. Não bastasse o leve aroma de gorgonzola que aquela peça arqueológica exalava, havia um exagero de frutas cristalizadas. Não passas. Eu até gosto de uvas passas. Mas uns perdigotos de frutas inominadas. Recobrei minha razão com a primeira mordida. Sério. Quem poderia, em sã consciência, colocar tantas frutas assim num panetone? O pior é que eu realmente, realmente gosto da massa do panetone. Há aquele sabor adocicado, leve, que às vezes remonta a especiarias e às vezes a baunilha. É quase um whisky em formato sólido. Felizmente, alguma mente fértil e com bom gosto idealizou algo que resolveria este problema. O Chocolate. Assim, nascia a versão aprimorada – ou melhor, corrigida – do panetone. O Chocotone. O Chocotone é a salvação para todos aqueles que – assim como eu – gostam muito da massa, […]

Drops – Glenmorangie Pride 1981

  Aí vai um whisky despretensioso para sua tarde de quarta-feira. Este é o Glenmorangie Pride 1981, maturado por 28 anos, uma das mais exclusivas e cobiçadas expressões da destilaria de Tain. A maturação do Glenmorangie Pride ocorreu em duas etapas. Em 1981, seu precioso líquido foi destilado e colocado em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey. Segundo Bill Lumsden, master distiller da Glenmorangie, a ideia teria sido produzir uma edição especial, maturada por 18 anos. Entretanto, em 1999, a Glenmorangie adquiriu uma pequena quantidade de barricas de carvalho que antes teriam sido usadas para envelhecer um dos mais famosos e caros vinhos sauternes do mundo, o Chateau D’Yquem. Ou seja, joias em forma de barril. Na posse dessas maravilhas, Lumsden então decidiu que produziria um whisky ainda mais especial. Transferiu o conteúdo das barricas de bourbon – que lá já descansavam por 18 anos – para aquelas de Chateau D’Yquem, e lá deixou por mais dez anos. Na época, o maior tempo de finalização (ou maturação extra) já praticada pela Glenmorangie. Segundo Bill “Percebi que se deixasse o whisky nas barricas por mais tempo, sabores resinosos, picantes e de taninos do carvalho francês poderiam começar a […]

Drops – Macallan Rare Cask

Juvenal – o poeta grego, não o jogador de futebol – escreveu em suas sátiras que “Rara é a união entre o puro e o belo“. Provavelmente Juvenal se referia a algum conceito misógino, ou à pureza inalcançável do homem, corrompido por um mundo impuro. Não sei. Mas se não fosse um hiato temporal de alguns milênios, eu poderia apostar que Juvenal escrevera a frase na presença de uma garrafa do Macallan Rare Cask. O Rare Cask é a quase perfeita fusão entre beleza, pureza e – como o próprio nome indica – a raridade. Nas palavras da The Macallan”muito menos do que 1% das barricas maturando na destilaria foram identificadas como capazes de receber o nome Rare Cask. Com raridade como sua essencia, este é um whisky produzido de barricas tão raras que jamais serão usadas para outro whisky da The Macallan. A combinação de barricas de carvalho americano e espanhol de ex-jerez, sendo grande parte delas de primeiro uso, dão origem a um whisky com coloração esplêndida e incontestavelmente amadeirado (…)” De acordo com a destilaria, o Rare Cask é a combinação dos whiskies maturados em algumas das melhores barricas de The Macallan. E tudo bem que “muito menos de 1%” pode ser qualquer […]

Drops – Bruichladdich Octomore Scottish Barley

Aí vai mais um whisky para valentes. Este é o Octomore Scottish Barley. Os Octomore são edições limitadas anuais da destilaria Bruichladdich, localizada em Islay, na Escócia. Islay é famosa por seus whiskies turfados, que possuem sabor defumado por conta do processo de secagem da cevada maltada em uma fogueira de turfa. Mas o Scottish Barley não é um defumado qualquer. Veja bem, sua graduação alcoolica é de 57%. Como se isso não bastasse, os Octomore são os whiskies mais defumados do mundo. É que a defumação de um whisky é medida em partes por milhão (ppm) de fenóis. Whiskies turfados, como o Johnnie Walker Double Black, por exemplo, possuem algo em torno de 30ppm. Outros mais defumados, como Ardbeg, entre 40 e 50 ppm. Já o Scottish Barley possui 167ppm. Mais do que o triplo do Ardbeg. E ainda há uma versão de Octomore que chega a 258ppm! O álcool e a defumação extrema dão ao Octomore sabor de bacon, fumaça, pimenta do reino e iodo. Aliás, se você é fã de bacon e sempre sonhou em encontrar uma versão líquida da iguaria, pode parar de procurar. O Scottish Barley é para você. O Cão já fez a prova de […]

Do Eterno Retorno – Chivas Regal 18 anos

Quinta-feira cheguei em casa mais tarde. A querida Cã já havia jantado, e estava deitada na varanda, completamente absorvida por alguma leitura. Aproximei-me e tentei introduzir algum assunto prosaico, ao que ela me respondeu apenas com grunhidos, sem descolar os olhos do livro. Aí resolvi perguntar o que estava lendo. E ela, por duas horas, discorreu sobre a teoria do Eterno Retorno de Nietzsche, combinada com a do multiuniverso. O que, basicamente, minha melhor metade me explicou, traduzido para uma linguagem de boteco, é o seguinte. Segundo a teoria do multiuniverso, não há apenas um universo. Mas infinitos universos paralelos. Haverá universos paralelos absolutamente idênticos. Outros drasticamente diferentes. E alguns, apenas um pouco divergentes daquele em que vivemos. Soma-se a isso o Eterno Retorno, que ensina que, dentro de um leque virtualmente infinito de possibilidades, mesmo o evento mais insólito e improvável se repetirá infinitamente. Neste universo. E também em outros. Difícil? Então deixe-me ilustrar. Por exemplo, em certo universo paralelo, você está vivendo este mesmo sábado, tomando café e lendo este blog. Em outro, talvez não seja café sua bebida, mas whisky. E em outro talvez você esteja ainda lendo este texto, mas flutuando sentado em uma cadeira antigravitacional, […]

Drops – Talisker Dark Storm

Você sabia que não é só o processo de secagem da cevada maltada utilizando turfa que contribui para o sabor defumado e turfado de alguns whiskies? Pois é. Outro fator que aumenta a impressão de fumaça dos whiskies defumados é a tosta ou torra da barrica. Barricas altamente torradas (existe uma diferença aqui entre torra e tosta) costumam empresar ao whisky que lá maturou notas de fumaça e bacon. É o caso, por exemplo, do Talisker Dark Storm. O Dark Storm é um single malt sem idade definida, produzido pela destilaria Talisker, a única da ilha de Skye. Seu destilado é levemente turfado, mesmo antes de entrar no barril. Mas o que realmente contribui para o sabor defumado, no caso deste whisky, é a maturação em barricas torradas. O sabor emprestado pelas barricas tostadas é levemente diferente daquele proveniente da secagem do malte. As barricas trazem também um sabor residual de caramelo queimado, ou calda de açúcar. A Talisker é a única destilaria localizada na belíssima ilha de Skye, ao noroeste da Escócia. A ilha é famosa por suas paisagens bucólicas e, muitas vezes, é palco de casamentos e luas-de-mel dos escoceses. Atualmente, a destilaria pertence à Diageo, o mesmo grupo […]

Drops – Aberlour A’Bunadh

Aí vai um whisky para quem gosta de emoções fortes. Este é o Aberlour A’Bunadh. Ele é produzido em pequenos lotes anuais, não sofre qualquer diluição e não passa por filtragem a frio.A maturação ocorre exclusivamente em barricas de carvalho europeu que antes continham vinho jerez. Isso o torna um whisky extremamente oleoso, de sabor frutado e especiarias. Como ele não é diluído (Cask Strength), a graduação alcoólica varia de lote para lote. Varia, aliás, de altíssima para absurda. A garrafa deitada na foto é de lote 50, com 59,6% de álcool. Já a garrafa em pé tem uma história interessante. Seu nome é A’Bunadh Sterling Silver Label. É uma edição especial, lançada em 1999, limitada a apenas 2.000 garrafas. O nome faz alusão a seu rótulo, que é feito de prata de lei. O A’Bunadh Sterling Silver é o único da série que possui idade estampada no rótulo – 12 anos. Sua graduação alcoolica é de 58,7% A Aberlour é uma conhecida destilaria da região de Speyside. A’Bunadh é uma de suas expressões mais famosas, juntamente com seu 15 e 18 anos. Atualmente, a destilaria pertence à Pernod Ricard, o mesmo grupo que detém o controle da marca Chivas […]

O Cão Maduro – Johnnie Walker Platinum Label

Ernst Hemingway, dentro da miríade de célebres e sábias frases, em uma carta a Ivan Kashkin, escreveu “Quando se trabalha o dia todo com sua cabeça, e tem-se a certeza que se trabalhará também no dia seguinte, o que mais poderia transmutar suas ideias e fazê-las funcionar em um plano diferente, como whisky? (…) A vida moderna, também, é geralmente uma opressão mecânica, e o álcool é o único alívio mecânico” Eu arriscaria, dentro de minha humildade, complementar a peça de sabedora de Hemingway. Eu diria que o cinema, a literatura e a música são como o whisky. Alívios eficazes, ainda que não tão mecânicos. Um bom filme, um grande livro, ou até uma bela canção têm o poder de nos colocar em uma rotação diferente daquela rotineira, despindo e transformando nossas ideias. São como peças coincidentemente complementares, cunhadas a quilômetros de distância, mas que, estranhamente, se encaixam perfeitamente. Sabendo disso, tento ler e ver filmes o máximo que posso. Tenho vontade de ver uma centena deles. Mas por algum motivo que foge à minha razão, há aqueles que sempre deixo para depois. Talvez por falta de tempo, ou talvez porque sinta que aquela película específica deveria ser assistida em […]

Drops – Glenmorangie 18 Anos Extremely Rare

O que você faria ao se deparar com uma garrafa cujo rótulo diz “extremely rare” ou “extremamente raro”? Bem, este é o caso do Glenmorangie 18 anos, produzido pela destilaria homônima localizada em Tain, na Escócia. E tudo bem que fora de nosso país ele nem seja tão raro assim. Mas continua sendo uma preciosidade. O Glenmorangie 18 anos é maturado em uma combinação de barricas de carvalho americano que antes continham bourbon whisky, e de carvalho europeu, que maturaram vinho jerez. O processo consiste em maturar por quinze anos o destilado em barricas de ex-bourbon, e depois transferir aproximadamente 30% dele para barricas de ex-jerez. As duas partes então passam mais três anos nas diferentes barricas, até serem reunidas para criar o Glenmorangie 18 anos. A destilaria Glenmorangie é conhecida por possuir os alambiques mais altos de toda a Escócia. Isso porque os primeiros alambiques da destilaria teriam sido comprados de uma fábrica de gim. Os atuais são reproduções maiores daqueles primeiros. A altura dos alambiques, aliada a seu formato, fazem com que apenas os vapores mais leves do processo de destilação cheguem ao seu topo, o que produz um whisky leve e elegante. O resultado é um whisky sofisticado, […]