O Cão Maduro – Johnnie Walker Platinum Label

Platinum Label

Ernst Hemingway, dentro da miríade de célebres e sábias frases, em uma carta a Ivan Kashkin, escreveu “Quando se trabalha o dia todo com sua cabeça, e tem-se a certeza que se trabalhará também no dia seguinte, o que mais poderia transmutar suas ideias e fazê-las funcionar em um plano diferente, como whisky? (…) A vida moderna, também, é geralmente uma opressão mecânica, e o álcool é o único alívio mecânico

Eu arriscaria, dentro de minha humildade, complementar a peça de sabedora de Hemingway. Eu diria que o cinema, a literatura e a música são como o whisky. Alívios eficazes, ainda que não tão mecânicos. Um bom filme, um grande livro, ou até uma bela canção têm o poder de nos colocar em uma rotação diferente daquela rotineira, despindo e transformando nossas ideias. São como peças coincidentemente complementares, cunhadas a quilômetros de distância, mas que, estranhamente, se encaixam perfeitamente.

Sabendo disso, tento ler e ver filmes o máximo que posso. Tenho vontade de ver uma centena deles. Mas por algum motivo que foge à minha razão, há aqueles que sempre deixo para depois. Talvez por falta de tempo, ou talvez porque sinta que aquela película específica deveria ser assistida em outra situação. Um desses filmes é Cães de Aluguel (Reservoir Dogs), do Tarantino.

Se você não sabe, Cães de Aluguel foi o primeiro filme realmente famoso de Tarantino. Mas por algum motivo inexplicável, eu consegui ver quase todos os filmes dele antes, para, por fim, ver seu primeiro. Não fez sentido para você? Para mim também não. Quando finalmente me concedi a oportunidade de assisti-lo, fiquei impressionado. O ritmo, as atuações e os diálogos são ótimos. E o mais incrível é que a marca do cineasta que Tarantino se tornaria já estava lá, quase integralmente.

Ele já era um péssimo ator, por exemplo.
Ele já era um péssimo ator, por exemplo.

Com whiskies, algo muito semelhante me aconteceu com o Johnnie Walker Platinum Label. Quando soube de seu lançamento, tinha a certeza que não levaria nem duas semanas para experimentá-lo. Este deve ter sido o par de semanas mais longo da humanidade. Demorei quase dois anos inteiros até finalmente prová-lo. E ainda que estes dois anos tenham aumentado consideravelmente a expectativa sobre o blend, admito que ele não me decepcionou nem um pouco.

Assim como em Cães de Aluguel, a marca inconfundível da Johnnie Walker se faz presente no Platinum Label. A fumaça. O Platinum Label é levemente defumado, mas guarda também um certo dulçor e sabor cítrico que o tornam quase perfeitamente equilibrado. Não há uma nota predominante, como no caso do Double Black (defumado) ou do Gold Label Reserve (adocidado). O Platinum Label é um blend sisudo, sofisticado e elegante. Há uma troca clara do apelo pela complexidade.

Assim como seu irmão mais jovem, o Johnnie Walker Black Label, e ao contrário dos demais blends da Johnnie Walker à venda no Brasil (Red Label, Double Black, Gold Label e Blue Label), o Platinum possui idade estampada no rótulo. Dezoito anos. Isso significa que o whisky mais jovem em sua fórmula passou dezoito anos maturando antes de compor seu blend.

Falando em sua fórmula, a Diageo, detentora da marca Johnnie Walker, é bastante reservada quanto aos whiskies que compõe seus blends. Um palpite educado, entretanto, é que o single malt base do Platinum Label poderia ser Caol Ila. Essa teoria ganha força ao lembrar que, quase concomitantemente ao lançamento do novo blend, a Diageo deixou de distribuir no mercado a expressão 18 anos daquele single malt.

Há únicas duas ressalvas que me sinto obrigado a fazer em relação ao Johnnie Walker Platinum Label. A primeira é seu preço. Não se trata de custo-benefício. Mas acompanhe minha frágil lógica econômica. No Brasil, uma garrafa do Platinum Label custa, em média, R$ 450,00. É quase o triplo do preço da superestrela da família, o Johnnie Walker Black Label, e aproximadamente R$ 200,00 mais caro do que a expressão imediatamente anterior, o Gold Label Reserve.

Acontece que duzentos reais é um pulo bem alto, principalmente considerando que a diferença entre Black e Gold não chega à metade disso. É uma diferença que, na verdade, acaba por impedir a evolução natural de um consumidor que, à medida que vai experimentando os blended whiskies da marca, busca sempre algo mais sofisticado. E isto é uma pena, porque o Platinum Label é realmente bom.

Tá, você não precisa me dizer quão bom o whisky é.
Tá, você não precisa me dizer quão bom o whisky é.

A segunda é sobre seu corpo. Na singela e humildíssima opinião deste canídeo, o Johnnie Walker Platinum Label poderia, talvez, se não fosse muito esforço, claro, ser um pouco mais encorpado. Veja bem, não é que o fato dele ter pouco corpo estraga a experiência de toma-lo. Mas seus aromas, sabores e complexidade combinariam perfeitamente com um whisky mais oleoso. Tá bom, ignore isso. Talvez seja petulância demais.

Apesar destas ressalvas, o Johnnie Walker Platinum Label é, certamente, um blended whisky que se deve experimentar. Há um notável ganho de complexidade entre ele e as expressões mais em conta da marca. Ele é, na verdade, exatamente como aquele grande filme ou livro que você sempre deixou para depois. Um grande clássico, apenas aguardando a sua chance de te surpreender.

JOHNNIE WALKER PLATINUM LABEL

Tipo: Blended Whisky com idade definida (18 anos)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: aroma de frutas secas com pouca fumaça e especiarias.

Sabor: cítrico, frutas secas, levemente herbal, com final discretamente e elegantemente defumado.

Com água: A água reduz o sabor e aroma de especiarias e ressalta o final defumado.

8 thoughts on “O Cão Maduro – Johnnie Walker Platinum Label

  1. O whisky, se tomado com moderação, serve perfeitamente como relaxante, antitérmico, analgésico, previne doenças, etc. (ainda que de forma “mecânica” rs).

    Vc sabe que minha mãe estava viajando na época do lançamento do Platinum e no aeroporto ele estava sendo vendido a um ótimo preço. Ela teve a oportunidade de provar e realmente disse que é outro nível de scotch.

    O que nos afasta dele é esse preço nada convidativo, mas quem sabe num futuro distante haha.

    Abraços, Cookie Monter!

    1. Hahahaha! Pois é, Felipe. O Platinum é genial mesmo, mas dá um aperto no coração o preço. Mas se tiver oportunidade, experimente!

  2. As materias de vcs são ótimas eu adoro a familia Jhonnie Walker e é sempre bom saber sobre eles principalmente o que eu mais gosto o double black muito obrigado a todos da equipe pelas informações……

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *