Da Arqueologia e Evolução – Glenmorangie Lasanta

Glenmorangie Lasanta

Essa semana fiz uma descoberta arqueológica em minha dispensa. Encontrei lá, escondido, num cantinho, atrás das caixas de Macallan Ruby e Glenlivet 18 anos, um panetone. Fechado, na caixa. Totalmente intocado. Uma reminiscência do de nosso último natal. Visualmente, estava intacto, ainda que aparentasse levemente ressecado. Não sei o que me levou a fazer isto. Mas, quando menos percebi, já provava um pedaço.

E estava horrível. Não bastasse o leve aroma de gorgonzola que aquela peça arqueológica exalava, havia um exagero de frutas cristalizadas. Não passas. Eu até gosto de uvas passas. Mas uns perdigotos de frutas inominadas. Recobrei minha razão com a primeira mordida. Sério. Quem poderia, em sã consciência, colocar tantas frutas assim num panetone?

O pior é que eu realmente, realmente gosto da massa do panetone. Há aquele sabor adocicado, leve, que às vezes remonta a especiarias e às vezes a baunilha. É quase um whisky em formato sólido. Felizmente, alguma mente fértil e com bom gosto idealizou algo que resolveria este problema. O Chocolate. Assim, nascia a versão aprimorada – ou melhor, corrigida – do panetone. O Chocotone.

Putz.
Putz.

O Chocotone é a salvação para todos aqueles que – assim como eu – gostam muito da massa, mas levam em torno de quarenta minutos para comer uma fatia de panetone. Porque antes, é necessário realizar uma verdadeira biópsia em cada pedaço, enchendo a lateral do prato com aqueles fragmentos asquerosos multicoloridos.

O Chocotone é, na verdade, como o Glenmorangie Lasanta. O novo Glenmorangie Lasanta. Se você não sabia nem que havia um novo e um antigo, eu explico.

É que a versão anterior, após passar dez anos em barricas de caravalho americano que antes continham Jack Daniel’s e Heaven Hill, era finalizada apenas em barricas de carvalho europeu que antes continham Jerez oloroso. A atual, com o rótulo dividido, entretanto, é finalizada em barricas de dois tipos de vinho Jerez. Oloroso e Pedro Ximénez. A mudança no processo de finalização do Lasanta trouxe a complexidade que a versão antiga carecia, e transformou o single malt em um excelente companheiro para charutos.

As mudanças pelo jeito surtiram efeito e foram muito bem recebidas. Nas palavras (porcamente traduzidas) de Dave Broom, um dos maiores especialistas em whisky do mundo “a comparação entre o antigo e o novo Glenmorangie (Lasanta) – há melhor integração, torando-o claramente maior. Não é mais apenas Jerez despejado sobre Glenmorangie”. Além disso, o whisky foi eleito como o melhor single malts das highlands na World Whisky Awards de 2017.

Veja bem, a versão antiga já era bem boa. Mas para mim, ela sempre pareceu menos atrativa se comparada ao Nectar D’Or e o maravilhoso Quinta Ruban, expressões equivalentes da Glenmorangie, finalizadas em barricas que continham vinho de sobremesa sauternes e vinho do porto, respectivamente. No caso destes últimos dois, a finalização trazia um claro ganho de complexidade. No caso do Lasanta, entretanto, havia uma troca – do dulçor pelo seco – e faltava algo.

 

Lasanta: antigo e novo.
Lasanta: novo (esquerda) antigo (direita)

Em 2014, então, a Glenmorangie – sob o comando de Bill Lumsden, seu genialmente desajustado head distiller e whisky creator – resolveu alterar a receita de seu Lasanta. A adição das barricas de Jerez Pedro Ximénez trouxeram o que faltava para aquele whisky. Além disso, a graduação alcoólica foi reduzida em três pontos percentuais, para 43%. Agora, há um certo dulçor, um sabor de – veja lá – panetone, que não havia na versão anterior.

Além disso, o whisky tornou-se mais palatável e não tão seco. É incrível como a simples redução do grau alcoólico e a mudança no tipo de vinho jerez que antes envelhecia nas barricas utilizadas pela Glenmorangie impactaram no sabor final do Lasanta, torando-o mais rico. É quase como tirar as frutas cristalizadas e colocar chocolate. Na verdade, é até melhor do que tirar as frutas cristalizadas e colocar chocolate. Porque é whisky, e não panetone.

Como já exaustivamente explicado neste blog, a destilaria Glenmorangie é conhecida por possuir os alambiques mais altos de toda a Escócia. A altura dos alambiques, aliada a seu formato, fazem com que apenas os vapores mais leves do processo de destilação cheguem ao seu topo, o que produz um whisky leve e elegante. Além disso, nenhuma barrica é utilizada mais do que duas vezes.

Se você é fã dos whiskies finalizados em barricas de ex-jerez, se já apreciava o antigo Lasanta ou se está em busca de um whisky para harmonizar com seu charuto preferido, não pode deixar de experimentar a versão reformulada deste single malt. Ele não deve mais nada a seus irmãos, tampouco a outros grandes whiskies com maturação semelhante. Será como experimentar um grande chocotone líquido. E dessa vez, garanto que não será preciso arrancar nenhuma uva passa.

GLENMORANGIE LASANTA

Tipo: Single Malt Whisky com idade definida – 12 anos

Destilaria: Glenmorangie

Região: Highlands

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: frutado, com  especiarias e açúcar mascavo.

Sabor: frutas em calda, jerez, baunilha, açúcar mascavo. Finalização longa, com frutas e baunilha.

Com água: A água deixa o whisky menos adocicado e evidencia as especiarias e jerez.

Preço médio: R$ 350,00 (trezentos reais)

5 thoughts on “Da Arqueologia e Evolução – Glenmorangie Lasanta

  1. O Glenmorangie é um whisky que encontro com uma certa facilidade aqui na minha Aldeia.
    Me interessei bastante por ele, já que estou buscando um Single Malt.
    Eu gosto dos whiskies finalizados em barricas de ex-jerez e este parece ser suave (pelos alambiques altos) e bem equilibrado.
    Parece que não tem como errar, certo? haha

    Abraço!

  2. Gosto muito dos seus comentários. Para mim o Glenmorangie Lasanta é sem dúvida, um grande single malt. Como não fumo charutos, gosto muito de acompanhá-lo com chocolate amargo! Tim Tim!!!

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