Glenlivet Caribbean Reserve – O Amor

A Céline Dion tem uma música que diz que o amor pode mover montanhas. Com todo respeito, eu acho que a Céline errou. O amor é muito superestimado. Sem a menor sombra de dúvidas, o álcool supera qualquer forma de afeto como força-motriz da humanidade. Pegue, por exemplo, a história das ilhas caribenhas e do Reino Unido. Em 1655 a Grã-Bretanha capturou Jamaica, e começou um caso de amor (talvez ele mova montanhas) com o rum. A bebida já era produzida naquela ilha, que possuía abundância de cana-de-açúcar. A Marinha Real britânica não hesitou em substituir o aristocrático brandy francês pelo refrescante e tropical rum. Os marinheiros eram diariamente abençoados com doses de destilado, muitas vezes combinadas com limão. Os marinheiros viam no rum não apenas um antídoto contra o escorbuto, mas também uma fonte de alegria em suas vidas a bordo de navios desprovidos de luz, com comida escassa e o constante medo de criaturas marinhas lendárias. O rum tornou-se tão famoso que passou a ser usado como moeda de troca pelos corsários britânicos. Esses, um tanto menos comedidos do que os militares da respeitosa rainha, geralmente consumiam quantidades copiosas de bebida. Não era raro o caso de um […]

Macallan Harmony Intense Arabica

Dois anônimos apaixonados por café sentam-se no balcão de uma cafeteria. O combustível da humanidade é o café – disse o primeiro, olhando para a frente. Eu sei. Não se toma café para acordar, mas se acorda para tomar café, respondeu o outro. Com um sorriso no rosto, concluiu o primeiro: o nível tecnológico da sociedade seria muito inferior àquele que é hoje, não existisse café. Ao que ambos brindaram com suas xícaras, e com as duas mãos, levaram o líquido quente e marrom à boca. A história acima é totalmente fictícia. Mas, certamente, ocorre todo dia com milhares de admiradores de café. No panteão das bebidas, o café está quase par a par com o whisky, em nível de veneração. Prova disso são as centenas de citações e frases espirituosas sobre café. Ainda que, suspeito, a cafeína ajude nessa parte. É possível escrever uma matéria inteira utilizando apenas lugares comuns sobre café. Café é, também, um combustível para a arte. O cantor Henry Rollings disse, certa vez, que o melhor acompanhamento para uma xícara de café é outra xícara de café. Este Cão e a The Macallan, porém, discordam. A melhor combinação é com o novo The Macallan Harmony […]

A história da Glenfiddich – Família

Ter filhos é uma delícia, mas dá trabalho. Ao menos na idade dos cãezinhos, com seus oito e seis anos. Me disseram, entretanto, que depois piora. Dizem que os problemas vão crescendo junto com a pessoa. O que me parece apenas parcialmente coerente, porque, parei de crescer lá pelos quinze, mas meus problemas seguiram espichando, como se tomassem quantidades imprudentes de GH, até meus atuais trinta e oito. Mas, enfim. Tento ensiná-los, na medida do possível, sobre responsabilidade. Atribuo tarefas simples – limpar o quarto, arrumar um canto bagunçado da sala. Até às vezes me dou ao luxo de pedir alguma coisa por capricho. Ei, filhota, traz uma água com gás pro papai. Incumbências simples, cujo foco é mais didático do que, efetivamente, prático. Em outras palavras, sendo mais direto, não vou chegar pro meu filho de seis anos e falar “bicho, constrói aí uma casa no lote da vovó e depois mete dois alambiques lá“. Mas, foi justamente isso que William Grant fez, com seus nove filhos. William era gerente da Mortlach, outra famosa destilaria de Speyside, em meados de mil e oitocentos. Em 1886, decidiu abandonar sua posição, e começar sua própria destilaria. Economizou bastante dinheiro, e teve […]

A História da Glenlivet – Dos Abacaxis

Este é o primeiro de uma série de posts eventuais sobre histórias de marcas de whisky. Quando outras matérias surgirem, você poderá acessá-las por aqui. Hoje fui ao supermercado e vi um abacaxi. Aliás, um não, vários. Pensei em comprar, mas achei caro. Dez reais. Gosto bastante de abacaxi, mas não tenho nenhum grande fascínio pela fruta. Porém, se eu vivesse na Europa do século dezoito, certamente teria uma opinião bem diferente. É que naquela época o abacaxi era considerado o supra (desculpem-me pela ambiguidade cretina hifenizada)-sumo do luxo. A mera presença da fruta exalava requinte. Muitas vezes, o abacaxi nem era comido – era apenas uma peça de decoração. E quem não podia comprar um, alugava. Mas tinha que tomar cuidado, porque era capaz de algum convidado comer a peça de decoração. O abacaxi se tornou tão desejado na Europa do século dezoito, que virou símbolo de hospitalidade. Tanto é que muitas mansões construídas naquela época exibiam esculturas de abacaxi na entrada, para dar as boas vindas a seus visitantes. O abacaxi figurou também em brasões, cabeceiras de cama e pratos de porcelana. Imaginem, então, o sucesso que um whisky com notas de abacaxi teria feito. Bom, e foi […]

The Macallan Harmony Collection Rich Cacao

Quando eu era criança, fazia uma porção de coisas bobas sem muito motivo. Não coisas grandes, tipo me arrebentar de boca depois de desafiar as leis da física numa bicicleta e tal. Mas, pequenas experiências. Como, por exemplo, sentar em cima da mão durante a aula, para retirá-la depois e perceber uma certa concavidade no derriére. Tentar empurrar todas as cores daquela caneta multicolorida. Ou enfiar um alfinete na pelinha do dedo, só pra ver ele pendurado. Ou, então, a clássica de colocar uma mão na bacia quente e outra na fria, e depois as duas na morna, para notar que a fria ficou mais quente que a quente. Ou algo assim. Para falar a verdade, quando a gente cresce, não deixa de fazer essas coisas. Quer dizer, essas coisas não, mas coisas bem parecidas. Faz parte de nossa natureza fazer experimentações. Algumas, meio inúteis e sem graça. Outras, maravilhosas. E como um entusiasta de whiskies e gastronomia, para mim, pouca coisa supera a harmonização de sabores. E é justamente aí que entra o The Macallan Harmony Collection: Rich Cacao – recente lançamento da The Macallan. O The Macallan Harmony Collection: Rich Cacao foi desenvolvido pela whisky maker Polly Logan, […]

Macallan Sherry Oak 12 – Superabundância

Superabundância de escolha. Não, eu não tenho nenhuma forma mais sucinta – ou menos espalhafatosa – de descrever o fenômeno. E, para falar a verdade, foneticamente, até gosto. A palavra superabundância, com sua retumbante aliteração, cria um eco capaz de exaltar o conceito. Que vou explicar a seguir, depois desta pequena digressão introdutória. A superabundância de escolha acontece quando tomar uma decisão se torna um processo mentalmente esgotante, por conta do enorme número de variáveis e possíveis resultados. O conceito foi primeiro cunhado pelo escritor Alvin Toffler, em um livro de 1970, chamado A Terceira Onda. De acordo com Toffler, não ter alternativa é quase tão ruim quanto ter alternativas demais. Há uma espécie de arco de sastifação. Deve haver escolha, mas não tanta escolha a ponto de trazer insegurança. Tipo quando fui na farmácia comprar absorventes para a Cã, não sabia se era noturno, com ou sem abas, soft, ultra soft ou qualquer coisa assim, e fiquei morrendo de medo de levar bronca chegando em casa. Pode até parecer meio complicado, mas não é. Quando escolhi, por exemplo, ser advogado, ponderei uma infinidade de alternativas antes disso. Algumas pareciam obviamente equivocadas – como, por exemplo, jogador de basquete, visto […]

The Macallan Sherry Oak 18 anos – Oportunidade

Há um aforismo de Seneca que diz que a sorte é onde a oportunidade encontra a preparação. Por ser o pai do estoicismo, e por estar convenientemente separado por dois milênios e poucos de história, posso quase certamente afirmar que Seneca não proferiu a máxima durante uma palestra de coaching. Aliás, coaches que proventura leiam este post, por favor, sejam mais estoicos e resistam à tentação de empregar Seneca em suas apresentações. Mas, enfim, mal comecei e já estou a divagar. De volta, tenho minhas dúvidas sobre a irrefutabilidade do aforismo. E longe de mim falar de meritocracia, especialmente nessa prova. Mas conheço uma pá de gente, cujos nomes não vem ao caso, que está viva e bem só pela mais cândida sorte. Por outro lado, e confirmando Seneca, o Premio Darwin e o padre do balão estão aí (estou um pouco confuso sobre que tempo verbal usar) pra mostrar que às vezes um pouco de capacitação não faz mal a ninguém. De uma forma pouco estoica, devo sucumbir à tentação de “apetrechar” a máxima do filósofo e transmutar um pouco seu sentido. Muitas vezes, reconhecer que teve sorte exige preparação e oportunidade. Foi meu caso, por exemplo, quando provei […]

The Macallan Double Cask 15 anos

Três de Janeiro, onze da manhã. Nenhum compromisso à vista pelos próximos dois dias. Que delícia, fazia um tempão que almejava pela mais cândida agenda – penso. Acho que vou aproveitar para resolver algumas bobeirinhas que não conseguira, por falta de tempo. Tipo cortar o cabelo. Passo os dedos pela nuca, como se para reafirmar a necessidade da toza. Três meses sem cortar, meus mullets reminescem a um cruzamento entre o Billy Ray Cyrus do anos oitenta e uma samambaia. Ligo na barbearia costumeira, mas o telefone só toca. Naturalmente, em dois mil e vinte e dois, recorro ao Instagram. Recesso até o dia sete. Melhor esperar e pensar em alguma outra pendência. Já sei. Revisão do carro – que, aliás, há quatro meses suplica por um tal “serviço A”. Não estivesse acostumado à minha displicência, certamente já teria terminado em uma poça de óleo e chamas. Mas carros são tipo cachorros – quase o reflexo dos donos. E a única certeza que teríamos, pudesse meu carro pensar, é que ambos já tivemos tempos mais gloriosos. WhatsApp para a concessionária “oi”. Mensagem automática. Olá, agradecemos sua mensagem, estamos de férias coletivas até o dia onze, boas festas e um feliz […]

Macallan Edition No 6 – Flyfishing

Esses dias, numa noite de preguiça, decidi rever um filminho despretensioso. Amor Impossível, ou, em seu original, Salmon Fishing in Yemen (“A Pesca de Salmão no Iêmen”). O que é bem interessante, porque, se você mencionar o título original do filme para qualquer pessoa, poucos indagarão sobre o roteiro, direção ou atores. A maior parte das pessoas perguntará algo como “dá pra pescar salmão no Iêmen?“. Bem, vou adiantar para vocês que, na realidade, não dá não. Por infinitos motivos, como a temperatura. E a possibilidade de você ser dilacerado por uma Browning M2 .50 montada numa base giratória em cima de uma picape Toyota pertencente a uma milícia, ao graciosamente tangenciar a mosca de sua vara na correnteza imaginária de algum rio fictício do país. Ah, e pelo fato de não haver salmão no Iêmen no mundo real. E ainda que – pelos motivos elencados acima – a pesca de salmão não seja uma atividade muito prolífera no Iemen, ela é na Escócia. Mais, especificamente, no Rio Spey. O Rio Spey é tão importante para a pesca que há uma técnica toda própria de flyfishing, desenvolvida pelos pescadores escoceses no século dezenove, que é usada até hoje para apanhar […]

Aberlour 14 anos Double Cask Matured

Cremona, janeiro de 2019. Café Chiave de Bacco. No salão, outrora preenchido por ruídos e vozes, ouve-se apenas sussurros. O lugar está cheio, mas todos os clientes falam baixo, como se qualquer barulho pudesse atrair monstros capazes de devorá-los. A barista Florencia Rastelli esbarra em uma xícara, que se espatifa num quase ensurdecedor tilintar. Todos, pávidos, congelam por alguns segundos. Parece cena de uma versão italiana de Birdcage. Mas, é a vida real. É que Cremona é conhecida por ter sido o lar de grandes luthiers dos séculos dezesseis e dezessete – os artesãos especializados em criar os mais incríveis instrumentos de corda. Nomes como Stradivari e Guarnieri del Gesu. Seus violinos, violas e violoncelos são conhecidos como a perfeição em engenharia de som. Mas, mesmo a perfeição é efêmera. E os instrumentos, ainda que preservados, não duram para sempre. Por conta disso, Leonardo Tedeschi, ex DJ, propôs à cidade um projeto igualmente perfeccionista – mas imediatamente aceito. Gravar, em um auditório, em silêncio total, alguns destes instrumentos. Foram empregados mais de trinta microfones tão sensíveis que conseguiam até mesmo captar a porta de um carro sendo fechada no exterior do auditório. Assim, para que o projeto tivesse sucesso, todo […]