Code Nine Single Malt – Produtividade

Shakespeare escreveu King Lear durante a quarentena da peste bubônica. Já Isaac Newton desenvolveu o alicerce de sua teoria da gravidade. E Giovanni Boccaccio escreveu uma de suas mais famosas obras. O Decameron: uma coletânea de mais de cem contos contados por um grupo de sete pessoas que se refugiavam da Morte Negra em Florença. O livro, mais tarde, tornou-se também uma das mais clássicas obras do cinema, dirigido por Pasolini.

Eu, por outro lado, ganhei um quilo e meio e fiz uma porção de descobertas. Todas elas, baseadas na mais pura e entediante contemplação. Como, por exemplo, que o rei de copas é o único dos quatro naipes que tem bigode. Que morcegos ficam de ponta cabeça mas fazem xixi com o rabo pra baixo. E também que crianças fazem em torno de duzentas e noventa perguntas por dia – exceto pelas minhas, que devem fazer umas quatro mil. Quatro mil cada uma.

E ainda fecha o olhinho de alívio.

E tem também a tensão do bar fechado. Só de pensar no Caledonia de portas cerradas, me dá uma angústia e falta de ar mesmo sem COVID-19. Para aliviar um pouco a tensão, estabeleci uma meta. De experimentar – no sentido amplo de experiência – uma coisa nova por dia, no mínimo. Pode ser um filme, um prato, uma bebida. Pode até ser um shampoo, ainda que eu não me veja como alguém interessado em testes cosméticos. Já fiz sushi caseiro, provei uma itubaína com marca de supermercado e provavelmente assisti umas cem horas de filme. E, nessa toada, experimentei um whisky bem inusual que há algum tempo pretendia provar. O Code Nine – um single malt brasileiro produzido em Blumenau.

Seu criador é Bruno Mafra, que também produz o licor de canela Witch On Fire, já revisto em nosso Instagram. De acordo com Bruno, “A história do code da Witch on Fire se misturam. Porque o Code Nine surgiu justamente pela busca da melhor formula possível do witch. Foram dois anos, em que a gente testou rye, bourbon, single malt. E o último fornecedor que tivemos acesso, com um blend específico de barris, nos impressionou muito. As notas eram bem diferenciadas e tinha qualidade. O custo era maior que esperávamos mas compensava. O Code Nine a gente bebe faz tempo, aliás. A gente recebia amigos em casa que conheciam whisky e elogiavam bastante o produto

Somos uma marca cigana, focada em entregar produto de qualidade com melhor custo benefício possível. Acreditamos que conseguimos um custo-benefício bom até mesmo para a produção de drinks“. De acordo com Bruno, este é um ponto importante: os bartenders possuem um trabalho de educação, de apresentação e valorização do produto para o público, que de outra forma não seria atingido. Produzir um drink com Code Nine leva o amante de coquetelaria a conhecer e experimentar o produto.

Witch on Fire, licor de canela produzido com a base do Code 9

A destilação ocorre numa destilaria que loca sua capacidade ociosa para a empresa de Bruno – a Xanadu. É uma destilaria de cachaça artesanal, localizada em Blumenau, Santa Catarina. No mundo cervejeiro, isso é bem comum. Cervejarias bastante conceituadas utilizam o espaço de outras para produzir suas cervejas – o trabalho é elaborar a receita e supervisionar a produção. São as chamadas “ciganas”.

A maturação do Code Nine passa por barricas de carvalho americano de ex-bourbon e barris de carvalho europeu e americano de reuso. Esses barris – americanos e europeus de reuso – passam por uma raspagem e nova torra. A Xanadu também realiza o corte (a diluição do whisky para atingir a graduação etílica de engarrafamento). Segundo Bruno, nos primeiros lotes, não foi usado corante caramelo, ainda que o rótulo indique o produto – a ideia é que a embalagem esteja em conformidade com qualquer alteração por conta de padronização.

Sensorialmente, o Code Nine é um whisky adocicado, com uma curiosa nota de chocolate, que me remete a outro whisky bem pouco ortodoxo – o australiano Starward. Ainda que seja um whisky jovem, com o new-make spirit aparente, a maturação é bem resolvida, e o álcool não incomoda nem um pouco. Há notas de ameixas e uvas passas, açúcar mascavo e baunilha. O final é adocicado e pouco apimentado.

Se você procura um whisky que foge do comum, mas que entrega um ótimo custo-benefício, o Code Nine talvez seja uma boa pedida. Você não precisa ser Newton, Boccaccio ou Shakespeare para transformar sua quarentena em um período de ótimas descobertas – ainda que etílicas.

CODE NINE SINGLE MALT

Tipo: Single Malt

Destilaria: Xanadu/Code9

País: Brasil

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: açúcar mascavo, chocolate, mel, uvas passas.

Sabor: Bastante adocicado, com sabor que remonta chocolate. Uvas e ameixas passas. Final longo, levemente alcoolico e apimentado, mas também achocolatado.

8 thoughts on “Code Nine Single Malt – Produtividade

  1. Cão, qual seria a idade desse whisky? Bate de frente com singles malts de fora? Temos muitas marcas de whisky no Brasil? Desculpe a quantidade de perguntas haha

    1. Lucas, a idade nao é divulgada!

      Ele é bem diferente de um single escocês classico, sensorialmente falando. Então, dificil fazer a comparação. Mas é um whisky super agradável e vale a pena provar.

  2. Caro cão eu aqui lendo esse texto “review” e recebo uma notificação de que o meu pedido já está em Brasília, acredito q até Segunda 13/04 já devo esta experimentando esse single malt brasilenho, espero ter a mesma experincia q vc teve. Abrç

  3. Encomendei um Code 9 e já recebi, muito interessante, o chocolate é bem presente e também amêndoas, ótima surpresa de Blumenau.

  4. Whisky bem interessante apesar do álcool me incomodar um pouco (em apenas 43%). O chocolate é muito provavelmente proveniente de envelhecimento de algum doa whiskies do Blend em barril de vinho fortificado (inclusive acho que
    o dulçor dele remonta vinho do porto, inclusive o chocolate).

    Fiquei curioso com a comparação ao starward. Qual dele exatamente te trouxe essa ideia?

    No mais, parabéns pelo ótimo texto.

    1. Guilherme, otima analise!

      O starward mais clássico, primeiro a ser lançado. Acho que se chama Nova?

  5. Legal a dica de diversificação ; ) Comprei uma garrafa por curiosidade justamente por ter descoberto o produto aqui no seu blog (ainda não chegou). Pesquisando mais, descobri outra destilaria nacional – Union – que inclusive produz 2 rótulos turfados! Aguardo avaliação do Cão para ver se me arrisco um pouco mais nessa quarentena. Saúde!

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