O Cão Didático – Copos e taças para whisky

O uso de ferramentas. Por muito tempo, acreditava-se que essa era nossa principal diferença com os animais. Nós, seres racionais, teríamos o poder de moldar elementos ao nosso redor para servir de utensílio para certo fim. Atualmente, sabemos que alguns outros bichos fazem isso. Primatas utilizam gravetos de bengala e vara.

Essa história é bem ilustrada no filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço, de Kubrick. Na primeira cena do filme, um macacão – na verdade, um hominídeo pré-histórico – tem a brilhante ideia de utilizar um osso como porrete. Uma ferramenta rudimentar, que, ao longo do tempo, foi se tornando cada vez mais especializada e específica. Atualmente, há milhares de instrumentos que podemos usar para arrebentar coisas. Tacos de beisebol, martelos, espadas, machados. Enfim, qualquer coisa com uma haste e, de preferência, com algo bem dolorido ou afiado na outra ponta.

Milênios de evolução

A evolução do ferramental humano é incrível. A cozinha é outro exemplo claro disso. Há cinquenta anos, jamais poderíamos sonhar com a especificidade de utensílios que temos hoje. Há cortadores para tudo – maçãs, abacaxis e até manteiga. E se sua ideia não for cortar, mais sim conservar, você sabia que existe um recipiente desenhado especialmente para guardar bananas? E que ele só serve para isso. Se você tentar colocar um pepino lá dentro, por exemplo, não vai dar certo. Para isso, existe um guardador específico para pepinos.

Tamanha especialização se refletiu também no mundo da bebida alcoólica. Há taças ou copos para todo tipo de líquido. No mundo do vinho, por exemplo, há tipos diferentes de taça para uvas diferentes. Isso sim, é bem específico. No entanto, até pouquíssimo tempo, não havia qualquer copo ou taça desenhado exclusivamente para o consumo de whisky. A bebida era servida dentro de qualquer coisa – de copos baixos e largos a taças altas e bojudas. Recipientes que, muitas vezes, atrapalhavam bastante a tarefa de perceber os aromas do destilado.

A degustação analítica de whiskies era feita, muito frequentemente, nas taças ISO. Seu formato e tamanho foi padronizado pela International Organization of Standardization em 1977 como taças especializadas para degustação de vinho.

Padrões da ISO

As taças ISO são uma excelente escolha para padronização de degustações. Em provas com mais de um tipo de bebida – rum, brandy, whisky – elas são perfeitas. E até mesmo para degustação de um único tipo, frequentemente são utilizadas. São taças que geralmente possuem bom preço e entregam um ótimo resultado. Porém, são como um tupperware. Ótimo para guardar tanto bananas quanto pepinos, mas não absolutamente voltadas para cada tarefa específica. ISOs são fáceis de serem encontradas, inclusive online, como aqui.

Assim, até  2001 não havia qualquer copo para whisky, e para whisky apenas. No entanto, naquele ano, a Glencairn Crystal resolveu este problema. Ela identificou o copo ideal para a bebida, desenvolvido por Raymond Davidson há mais de vinte e cinco anos daquela data. O desenvolvimento contou com a participação de alguns dos mais respeitados master blenders do mundo do whisky, de forma a tornar seu desenho inicial perfeito.

O Glencairn Whisky Glass permite apreciar todos os sabores e aromas do whisky. Ele não ressalta qualquer característica específica, mas potencializa o conjunto de elementos que formam a bebida. Eles são excelentes para qualquer single malt, blended whisky, irish whisky ou mesmo bourbon. Suas bordas estreitas concentram os aromas, e permitem perceber todas as nuances do whisky. Atualmente, o Glencairn é o copo oficial para degustações de whisky, e é utilizado nos mais respeitados bares e destilarias ao redor do mundo. Por aqui, ele foi recentemente importado pela Single Malt Brasil, e pode ser encontrado aqui.

Instruções de uso do Glencairn.

Recentemente um outro copo foi lançado no mercado. O Norlan Glass. Ele surgiu de um projeto no Kickstarter em 2015 que obteve enorme sucesso. O Norlan possui parede dupla de vidro com isolamento de ar entre a parte externa e a interna, semelhante àquele de uma garrafa térmica. Ao contrário do Glencairn, as bordas do copo se voltam discretamente para fora. Seu interior possui quatro pequenas reentrâncias, que servem para aerar o whisky. O copo é um belíssimo trabalho de engenharia, não há como negar.

O desenho todo do Norlan – segundo a empresa baseado em bio-mímica, seja lá o que for isso – é focado em potencializar o aroma do whisky e tirar o álcool do caminho. Nas palavras da Norlan “a segunda maior característica é o formato das paredes internas, que se fecham a medida que sobem, mas depois divergem novamente, para não bater no nariz. A altura e diâmetro da menor abertura foca no aroma, enquanto, simultaneamente, difundem o etanol para longe do rosto, fantasticamente melhorando o sabor do whisky“.

O marketing ao redor do Norlan é tão intenso que às vezes parece exagerado. O site chega ao ponto de dizer que os demais copos e taças de whisky são antissociais, porque obrigam o apreciador a desviar o olhar para experimentar a bebida – problema que seria resolvido pelo Norlan e suas bordas abertas. Este Cão, não consegue imaginar algo mais desesperador do que não ter nenhum pretexto para desviar o olhar das outras pessoas. E que, portanto, este é um problema que não precisa ser resolvido.

Nem sempre é uma boa fazer contato visual.

Apesar de ser um copo belíssimo, este Cão não ficou apaixonado pelo Norlan. Ele realmente tem sucesso no que se propõe – volatilizar o whisky e reduzir a agressividade do álcool no aroma. Porém, também acaba mascarando algumas características da bebida. E pior, ao analisar whiskies menos alcoólicos ou delicados, compará-los com os mais robustos e alcoólicos torna-se mais difícil. Os Norlan não são importados para nosso país.

Além destes, outros copos e taças foram desenvolvidos nas últimas décadas. Há, por exemplo, o copo NEAT. Um nome bem cretino, que significa em inglês “puro” e, ao mesmo tempo, é a sigla para Naturally Engineered Aroma Technology (Tecnologia de Aromas Naturalmente Desenvolvida), outra coisa que não faço idéia do que seja. Há um belo copo para single malts produzida pela famosa Riedel, e uma caríssimo e exclusiva taça de cristal lapidado da The Macallan, feita pela Lalique.

Atualmente, é vastíssima a variedade de copos e taças criados para a melhor bebida do mundo. Escolher entre um e outro dependerá, essencialmente, de sua preferência. Este Cão tem como favorito absoluto o Glencairn, seguido pela ISO. Porém, seja qual for sua escolha, lembre-se sempre da mais essencial regra de toda degustação caseira de whiskies: aproveite. Seja sozinho ou ao lado dos amigos – com ou sem contato visual – o importante é agarrar o momento e divertir-se.

 

4 thoughts on “O Cão Didático – Copos e taças para whisky

  1. Comprei o Glencairn e adoro ele. O melhor para degustação.
    Mas também gosto muito do “copo de whisky”, aquele largo e baixo, bom pra se tomar um bourbon ou um blend 12 anos com gelo.

    1. Justíssimo. Tenho um assim também – as bordas são um pouquinho voltadas pra dentro, mas não faz muita diferença.

  2. Como vai, mestre?
    Já comentei com vc sobre isso: o primeiro copo que escolhi para degustar whisky foi uma tragédia. Eu não imaginava, mas faz total diferença. E olha que ainda não adquiri meu Glencairn.

    Grande abraço!

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