Da Atemporalidade – Johnnie Walker Green Label

Green Label

Trinta de julho de dois mil e três foi um dia triste para os amantes de automóveis. Naquela data, enquanto lágrimas deslizavam de uma forma desnecessariamente dramática sobre as maçãs do rosto de milhares de espectadores, o último Fusca a ser fabricado no mundo também deslizava, ovacionado, para fora da linha de montagem da Volkswagen, em Puebla, no México.

Concebido pelo engenheiro Joseph Ganz e desenvolvido por Ferdinand Porsche, o Fusca foi detalhadamente pensado para ser a materialização da praticidade sobre rodas. Todas as suas partes eram facilmente substituíveis e pouco custosas. O motor – refrigerado a ar, para evitar que o conteúdo do radiador congelasse no inverno – era forte o suficiente para cruzar as Autobahns sem esforço.

Conhecido internacionalmente como Volkswagen Type 1 ou Volkswagen Beetle, o Fusca tornou-se, em 1972, o automóvel mais vendido da história. Vinte e um milhões, quinhentos e vinte e nove mil, quatrocentos e sessenta e quatro foram fabricados. Seu sucesso era absoluto.

Tão absoluto que anos antes de ser descontinuado, já havia um modelo novo em produção, na Alemanha. Era o New Beetle. Mas, ao contrário de seu predecessor, o New Beetle era um objeto de desejo preconcebido. Com desenho retrô, curvas sedutoras e muita tecnologia embarcada, a única coisa que lhe faltava era a simplicidade do modelo anterior. Uma simplicidade atemporal, que lhe trouxe a resiliência necessária para atravessar décadas no coração das pessoas.

Mais "atemporal" do que a Lindsay Lohan, por exemplo.
Mais “atemporal” do que a Lindsay Lohan, por exemplo.

Outro produto que deixou saudades foi o Johnnie Walker Green Label. O Green Label era, talvez, o mais querido whisky da linha permanente da Johnnie Walker. Ele era, provavelmente, o whisky preferido daqueles que buscavam intensidade e, ao mesmo tempo, equilíbrio, nos produtos da marca do andarilho.

Acontece que em 2012, a Diageo – detentora da marca Johnnie Walker – anunciou que retiraria aquele blended malt da maioria dos mercados internacionais, restringindo-o a Taiwan. Havia uma questão de produção.

É que blended  malts levam apenas single malts em sua fórmula. Por isso, dependem da disponibilidade dos single malts que o compõe. E à medida que o estoque daqueles whiskies torna-se escasso, a produção deve ser reduzida de acordo, até que as reservas se recomponham. No caso do Green Label, o problema se agrava, já que aqueles whiskies devem ser maturados por, no mínimo, 15 anos.

No caso do Green Label, porém, houve uma troca. Ato continuo à sua retração quase total, a Diageo lançou o Johnnie Walker Gold Label Reserve. Dessa vez, um blended whisky – não um blended malt – sem idade definida. Mas o clamor popular foi tão grande que a marca voltou atrás. Em 2015 foi lançada uma edição especial, até que, em 2016, o Green Label passou a novamente integrar o portfólio da Johnnie Walker.

Entretanto, ao contrário do Fusca, o Green Label deslizou incólume pelo toque da modernidade. Sua composição permaneceu praticamente a mesma, ainda que, talvez, a proporção tenha mudado um pouco. Ele está um pouco mais leve, e mais adocicado. Quatro single malts maturados por, no mínimo, 15 anos. Talisker (da ilha de Skye), Caol Ila (de Islay), Craggranmore e Linkwood (ambos, de Speyside). E só.

Nova e antiga garrafa
Nova e antiga garrafa

Segundo Jim Beveridge, master blender da Johnnie Walker “O desafio por trás do Green Label é criar um espectro de sabor mais amplo, utilizando apenas single malts maturados por, no mínimo, 15 anos em barricas de carvalho europeu e americano, garantindo que estes sabores realmente se complementem e trabalhem em harmonia, para criar um blend de grande complexidade e riqueza, que conserva, em seu coração, o estilo de sabores ousados da Johnnie Walker, com sua característica fumaça”.

E continua “Criar este blended malt é sobre tornar os aromas mais pronunciados e vibrantes, com uma profundidade de caráter que não seria possível apenas com um single malt”.

Outra boa notícia – e, mais uma vez, ao contrário do que ocorreu com o Fusca – é que o preço do Green Label permaneceu também praticamente inalterado. Exceto por uma natural correção monetária. Atualmente, ele custa em torno de R$ 300,00 (trezentos reais), posicionado entre o Gold Label Reserve e o Platinum Label.  Na opinião deste Cão, um posicionamento perfeito, criando mais um degrau e diminuindo um pouco o enorme vão que existia no custo entre o rótulo dourado e o prateado (leia mais sobre isso aqui).

O Johnnie Walker Green Label prescinde recomendações. Assim como o Fusca, sua fama realmente o precede. Mas, ao contrário do automóvel alemão, sua atemporalidade continua lá. Sem muitas mudanças ou grandes toques de modernidade. Simplesmente um excelente whisky.

JOHNNIE WALKER GREEN LABEL

Tipo: Blended Malt Whisky com idade definida (15 anos)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: levemente cítrico e frutado, com fumaça.

Sabor: frutado, levemente cítrico, com nozes e madeira. Elegantemente defumado.

Com água: A água reduz o sabor e aroma frutado e ressalta o final defumado.

28 thoughts on “Da Atemporalidade – Johnnie Walker Green Label

  1. Ops!!! “…E à medida que o estoque daqueles whiskies torna-se escasso, a produção deve ser reduzida de acordo, até que as reservas se recomponham. No caso do Green Label, o problema se agrava, já que aqueles whiskies devem ser maturados por, no mínimo, 15 anos.”
    Peraí, como conseguiram “recompor” o estoque em 3, 4 anos se os whiskies devem ser maturados por no mínimo 15 anos?
    Teriam tido ajuda do mago Merlin ou de seu sucessor?
    PS. é por isso que eu bebo. hic hic

    1. HAHAHAHAHAH! Não, não, calma… o estoque estava lá, mas era jovem demais. Precisava de mais uns aninhos até chegar à idade de debutante!

    2. Caro Antonio:

      Ótima colocação a sua !!!
      Claro é que não se trata daquele mesmo whisky que tivemos o prazer de saborear no passado.
      Provavelmente eles envazaram o Gold Reserve, na embalagem do Green Label
      Provei o novo Green e verifiquei que nada tem a ver com aquele whisky produzido anteriormente.
      Claro é que essa informação deles não procede.
      Abs.

  2. Como vai, Maurício?

    Excelente notícia! Me parece um valor razoável por um Whisky dessa qualidade.

    Nunca tive curiosidade de provar o Gold (me passa a impressão de ser doce demais) e o Platinum está meio fora da minha possibilidade, então este retorno vai realmente preencher a lacuna.

    Abraço!

    1. Hahah! Poxa, é aquele papo “escreva bebado, edite sóbrio”. Deveria me ater aos ensinamentos de Hemingway.

      Corrigido. Obrigado 🙂

  3. No que se refere a Whisky não sou entendedor absoluto mas confesso ser um amante NATO da arte, e por essa marca me declaro totalmente seduzido.

  4. Onde encontro o Green com a nova apresentação?
    Tenho um único remanescente do rótulos antigo e intocado!

    1. Oi Rolf!! Vimos para vender no Rei dos Whiskies, em São Paulo, no http://www.lojadewhisky.com.br e no Varanda (em SP também). Mas deve ter em muito mais lugares. A distribuição da Diageo é gigantesca. O que pode ter acontecido é que o lote acabou, e outro ainda não foi importado!

  5. Parabéns por mais um belo post.
    O que não entendo é a grande alteração de rótulos da linha Green Label.
    Existe a antiga garrafa com a inscrição “The art of pure malt” na parte inferior, existe a atual garrafa com o fundo mais espesso e sem nenhuma inscrição no rótulo inferior e atualmente ainda existe a garrafa no modelo antigo com a inscrição “The art of Malt” no rótulo inferior.
    Será que muda apenas o rótulo?
    Notei a diferença pois pedi para um amigo comprar 6 unidades em um freeshop.
    Somente a título de curiosidade paguei $47,70 em cada com a cotação de 3,26

    1. Vish, Daniel, esta diferença no rótulo é uma resposta que tem a ver com um caso muito conhecido entre os nerds do mundo do whisky, chamado caso Cardhu. Vou contar bem por cima:

      Cardhu é um single malt de speyside, bem conhecido e com excelente saída. É um malte leve e democrático. Em 2003 a Diageo, detentora do Cardhu (e também do Green Label) percebeu que os estoques de Cardhu 12 que tinham (os barris) estavam diminuindo, e a demanda crescendo. Aí resolveram dar uma de brasileiros espertos: misturaram Cardhu com outros maltes de outras destilarias que não vendiam tanto, para aumentar o volume. Aí, trocaram apenas a cor do rótulo e substituíram “single malt” por “pure malt” nos dizeres da embalagem. A Scotch Whisky Association (o órgao autorregulatório que rege a indústria do whisky na Escócia) considerou que aquilo era uma manobra desleal, que visava confundir o consumidor – apresentando um produto diferente com roupagem e linguagem semelhantes. Aí proibiram o uso da expressão “pure malt”. Agora, deve-se usar apenas “blended malt” para whiskies compostos apenas de single malts. E, por conta disso, todo mundo teve que mudar as embalagens, e o Green Label, que antes usava estes dizeres, adaptou para “art of malt” sem o “pure”, que se tornou proibido.

      Dito isso, a Diageo jura que a composição entre o Green atual e o green antigo não mudou. Porém, este Cão acha que a proporção mudou sim, já que o sabor é bem diferente. O antigo é mais puxado para nozes e madeira. O atual é mais “crisp”, com toque mais cítrico. Mesmo assim, são maltes bem parecidos. Mandou bem em comprar, é um whisky muito bom!

      1. Obrigado.
        Conheço o Cardhu, “A destilaria das mulheres”.
        Quando chegar vou comparar com uma garrafa “antiga” de Green que tenho aqui.
        Falando de Diageo, o Swing está merendo um Post a tempo.

      2. Cheguei aqui pela curiosidade, pois a primeira vez que provei esse whisky…eu detestei, sério, soltei um sonoro “argh” e passei o copo. Veja bem, é a minha bebida preferida, mas não sou entendedora do assunto. Li o post e continuei não entendendo o por que de não ter gostado, até que cheguei aos comentários, este especificamente ao qual respondo agora. Uns três meses atrás na casa de um primo, resolvi provar o Green novamente e me surpreendi (positivamente) com o sabor, não sou boa em descrever sabor, aromas e tal, mas dificilmente esqueço qualquer um destes, e é exatamente como vc falou aqui, o que eu conhecia antes era “amadeirado” demais pro meu gosto, e o de agora é diferente (confesso que pensei ser falsificado hahaha), e então entendi. Grata pela modificação, mesmo que não confessada 🙂
        E gostei demais do blog, vou acompanhar!!

        1. Fernanda, que legal que gostou do blog! Por favor, acompanhe e comente mais 🙂

          Sobre o Green – para falar a verdade, achei o novo mais interessante. Tem mais drinkability. Talvez o antigo utilizasse barricas melhores e fosse feito com mais esmero, mas assumo que o novo me encantou mais. Se você gostou dele, provavelmente gostará também do Platinum (que agora se chama apenas “18”). Se tiver a oportunidade de provar, depois conte o que achou!

  6. Oh meu amigo, me ajuda! Em junho terei de ir em um aniversario infantil (nada contra as crianças) e depois vai virar churrasco e cerveja (não aprecio muito cerveja). O problema é que esse evento será na casa dos meus sogros, a 900 km de casa, numa cidadizinha com um pouco mais de 10.000 habitantes (falo isso para imaginar que será difícil encontrar um whisky bom, por um preço justo, num sábado apos as 18h00).
    Para me salvar, consegui um habeas corpus da esposa, e uma garrafa de whisky será minha nobre bagagem! kkkk
    Mas estou na duvida, estava pesquisando preço e onde comprar e me deparei com o Green Label. Tenho vontade de experimentar, mas tenho receio de não gostar, e minha noite terminar com todos bêbados de cerveja, e eu a ver navios! Então lembrei de você e vim ler sobre o Green.
    Eu não tenho experiencias com single malte, e como referencia, gosto muito do Chivas 18 anos, o bom e velho Jonnie 18 anos e Double Black, e aprecio muito o Jack Single Barrel.
    Me ajuda, será que o Green vai ser uma boa pedida e deve valer o risco de experimental alguma coisa nova??
    Valeu, obrigado!

    1. Opa, fala Ivan, tudo bem?

      Cara, pode ir no green sem medo. Mas pelo jeito – tirando o Double Black talvez – você apontou aí um paladar para os whiskies mais puxados para o caramelo, castnahas e mel, proveniente da maturação em ex-bourbon. Procure, então, o Macallan Fine Oak 12 ou Aberfeldy 12. Pode ser que você goste bastante, se quiser se aventurar pelos singles. O Green é um whisky equilibrado, levemente defumado e frutado. Muito bom mesmo.

      Abraços

      Mauricio

  7. Acho que é meu preferido, a primeira vez que tomei uns 3 anos atrás, achei muito estranho, meio salgado, forte, por conta do teor alcoolico de 43%. Agora que comecei a apreciar, ele é mais oleoso que outras linhas Johnnie walker, um pouco de defumado, cheiro de frutas, o gosto é um pouco de defumado, com mel e um sabor frutado.Acho ele mais complexo que um Glenfiddich 12 anos, e menos suave. ta aí meu whisky preferido em custo/benefício.

    1. Rafael, você tem uma percepção muito boa. Ele é justamente isso que você descreveu sensorialmente. E ele é mesmo mais oleoso – é que não há qualquer whisky de grão, apenas maltes.

  8. Caro Maurício,
    Não irei comentar a palhaçada da Diageo. Vamos ao ponto. O Green voltou e os preços estão se ajustando (em PE). Comprei por R$ 250 numa promoção de Dia dos Pais. Encontrei uma finalidade útil para essa bobagem. O Green me parece o mesmo de anos passados e confirma (para mim, claro) que não deve receber uma gota d’água.
    Qual é a bronca? a caixa. Sim, a porra da caixa. O frontal indica que o Talisker confere ‘smokeness and spicinesss’, e o Caol Ila ‘maritme character’. Na contracapa, que o Green tem singles de Lowland.
    O whisky correspondeu, mas a embalagem é do Paraguai.
    Abraços,
    Sócrates

    1. Mestre Sócrates, há um tempo rolou uma polêmica se o Green é composto APENAS dos quatro maltes mencionados, ou se estes quatro são seu coração, mas há mais whiskies na mistura. A discussão foi inconclusiva. Mas minha impressão é que a Diageo, na embalagem, buscou enaltecer o produto enumerando as destilarias mais conhecidas de seu portfólio que compõe o tal blended malt – que alias, eu amo – e deixou umas mais obscuras pra fora. E ainda, das quatro mais famosas, super-destacou essas duas. Acho que estão na moda!

      1. Caro Maurício,
        Se realmente houver participação de single malt de Lowland a contracapa está explicada, mas não justificada.
        É indiscutível que o Talisker confere ‘smokeness and spicinesss’, mas o Caol Ila também. O que não faz o menor sentido é atribuir o ‘maritme character’ ao Caol Ila, pois o Talisker tem impresso no seu rótulo ‘made by the sea’.
        Mudei de opinião quanto à adição de águauma colher de chá para 50 ml facilitou a avaliação do aroma. Acho que o Talisker é preponderante. No paladar, a castanha (amêndoa/noz) ficou mais perceptível.
        Excelente vatted.
        Abraços

        1. Você tem um ponto, meu caro. Eu trocaria – maritime para Talisker, smoky para Caol Ila. Soma-se a isso o fato de que boa parte do maturing stock da Caol Ila não amadurece em Islay, mas é tranferido para a “mainland” escocesa, para maturar. E justamente esses barris – os mais usados para blends – que vão para o Green Label. Então, tem razão: maritime, só se for romântico.

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