Josefel Zanatás – Cãoquetel

Foto: Elvis Fernandes

Hoje vou contar para vocês a história de um homem fictício singular. Um homem cético, desiludido e traumatizado. E também dono de um duvidoso gosto por vestuário e questionável higiene pessoal. Seu nome é Josefel Zanatás – uma alusão ao amargor do fel, combinada com o nome do tinhoso, escrito do avesso.

Josefel usa terno, capa e cartola. Possui unhas compridas e é obstinado a encontrar a mulher perfeita para gerar, em seu ventre, o mais primoroso filho. O que, pra falar a verdade, com o visual que Josefel possui, é uma tarefa fadada ao fracasso. Josefel não é um homem real. Mas é o nome real do pseudônimo – é, eu sei, é complicado assim mesmo – de José Mojica Marins, mais conhecido como Zé do Caixão.

Marins nasceu em 1936, e criou Josefel em 1963, quando já era cineasta pprofissional. Segundo ele, a ideia de criar o coveiro mais famoso do cinema nacional partiu de um sonho esquisito que teve, e que envolvia sua morte. Quando acordou, ainda lembrava da fantasia, e a utilizou para o primeiro filme de Zé do Caixão. O famoso À Meia Noite Levarei sua Alma.  “Eu fui achando um nome: Josefel – ‘fel’ por ser amargo – e achei também o Zanatas legal, porque de trás para frente dava Satanás” – conta ele.

Positivo, ficou legal!

O amargo Zé do Caixão fez grande sucesso na década de setenta, e ganhou fãs não apenas no Brasil, como também no exterior. Um deles é o cineasta Darren Aronofsky. E apesar dos mais de quarenta anos de criação, o personagem não foi olvidado. Prova disso é a homenagem feita a ele por Marco de La Roche, bartender responsável pela nova carta de drinks do Bar Riviera, um dos mais antigos de São Paulo.

Aliás, a nova carta do Riviera tem como tema as décadas de vida do bar. Desde os anos 50, quando funcionava como casa de Chá, até nossa época atual, os drinks fazem referência a momentos históricos e personagens importantes da história do bar, de São Paulo e do Brasil. “Para celebrar os 70 anos do Riviera, o Marco criou uma carta que passa por todas as décadas, desde a existência do bar, com drinks que não só pelo sabor, contextualizam cada período não só do Riviera, mas dá história do Brasil.

Marco, orgulhoso da criação.

Josefel leva o bourbon whiskey Evan Williams, tequila El Jimador Prata, vermute Carpano Classico, Fernet, Cynar, Angostura e solução marinha. Algo que me chamou a atenção foi a divisão da base do drink entre tequila e bourbon. Conforme Marco “na construção primária do coquetel, não pensei em ingredientes, mas expectativa de sabor. E para esse coquetel, tinha expectativa amadeirada e defumada. E o amadeirado veio do bourbon, enquanto o defumado, da tequila, do agave

Na carta, pode-se ler um pequeno texto, que conta a inspiração para o coquetel. “Período mais amargo da história do Riviera, assim como a década: nebulosa e cheia de fel. Um dos seus clientes mais cults da época se chamava José Mojica Marins, o célebre diretor de “O Zé do Caixão”, que carregava na sua certidão de nascimento o nome de Josefel Zanatas, ou também, Joséfel Satanás. A receita leva gotas de solução marinha – ou as lágrimas dos que atravessaram os mares –, brinca com os demônios dentro de nós e só deve ser bebida por aqueles que estão preparados para terem sua alma levada à meia noite.

Assim, queridos e tenebrosos leitores, nesta data, coloquem suas cartolas sobre a mesa, aparem as unhas e preparem-se para um coquetel amargo como apenas a existência pode ser. Com vocês, o terrível – no bom sentido, claro – Josefel Zanatás.

JOSEFEL ZANATAS

INGREDIENTES

  • 25ml Evan Williams Bourbon
  • 25 ml tequila (Marco usou El Jimador Prata)
  • 25ml (Marco usou Carpano Classico)
  • 25ml Fernet
  • 25ml Cynar
  • 3 dashes de angostura
  • 3 gotas de solução marinha (15 ml de sal para 100 ml de água, ao produzir).
  • azeitona
  • Parafernália de sempre para mexer
  • taça coupé
  • gelo

PREPARO

  1. Em um mixing glass, adicione gelo e todos os ingredientes e mexa bem
  2. verta para uma taça coupé previamente gelada
  3. finalize com azeitona espetada no palito.

 

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