Kentucky Buck – Whiskey de bermudas.

Trinta graus. Trinta graus no meio do inverno, em São Paulo. Céu tão limpo que parece até que passaram aquele filtro do Photoshop que usavam na Playboy na década de noventa, e de vez em quando sumia o umbigo de alguma modelo. Cara, como eu odeio calor. Ainda mais um calor assim inesperado, no meio da mais deliciosa estação do ano, que é o inverno. Inverno é pra ser deliciosamente frio, cinza, nublado e taciturno.

Aliás, já que abri a porta mimizenta, tem outra coisa que me dá raiva no calor. Quando alguém chega e diz que tá um dia tão lindo, só porque faz sol e tá quente. Não tá não, meu jovem, tá um tempo desgraçado de quente, propenso a todo tipo de coisa nojenta, tipo virilha suada, proverbiais pizzas debaixo do braço, meias úmidas e mullets pegajosos pingando. Não há elegância que resista a trinta graus no inverno. Se o príncipe William duque de Cambridge morasse aqui, a indumentária tradicional seria bermuda, chinelos e litrão na mão. É, eu sei que litrão é cringe. Sabe o que mais é cringe? Passar calor.

A única vantagem desse clima incivilizado é a possibilidade de beber coisas refrescantes. O que, pra falar a verdade, nem é bem uma vantagem, porque eu posso beber coisas refrescantes no frio, e passar mais frio, que é uma delícia. Mas, enfim, é um pretexto para testar algo novo. Como, por exemplo, o ridiculamente simples Kentucky Buck. Um coquetel tão fácil, mas tão fácil de fazer que você nem vai ficar suado.

Meu sonho.

Antes, vamos a algumas informações importantes. Buck não é o coquetel em si, mas uma classe de drinks. Uma classe bem permissiva, aliás. São aqueles que consistem em um destilado (qualquer, não precisa ser whisky), ginger beer, talvez algum agente de dulçor e algum cítrico. Que pode ser limão, laranja, toranja, blood orange, chinotto, grapefruit ou seja lá o nome que você dá praquelas laranjas. Aliás, será que alguém da geração Z pode me dizer se é cringe chamar toranja de grapefruit ou o contrário?

O Kentucky Buck, no caso, leva bourbon whiskey, suco de limão siciliano, xarope de açúcar, angostura bitters e ginger beer. A receita original contém morangos. Mas como todos os morangos poderiam ser extintos da face da terra em conjunto com os frangos (leia mais sobre esse meu outro ódio clicando aqui), deixar isso como opcional, e alternativamente recomendar um elegante zest de limão siciliano. Porque o blog é meu, e o drink tem que ficar bom pra mim. Mas, tenha em mente que o coquetel original foi criado com morangos. Nada é perfeito.

Aliás o autor desta mistura refrescante foi o bartender Erick Castro, na época que trabalhava no Bourbon & Branch and Rickhouse, em São Francisco. Mais tarde, em 2013, Erick abriu seu próprio bar, o Polite Divisions. Em pouco tempo, o Kentuck Buck se tornou um drink bem conhecido, especialmente por conta de sua familiaridade de sabores – realmente, é difícil não gostar – leveza e versatilidade. Bem, sem mais enrolações, vamos à receita. Afinal, já estou suado de tanto digitar.

KENTUCKY BUCK

INGREDIENTES

  • 50ml de bourbon whiskey (este cão usou Maker’s Mark)
  • 25ml de suco de limão siciliano
  • 1 dash (isso é uma sacodida, cuidado pra não passar calor) de Angostura Bitters
  • Ginger Beer (usei London Essence. A maioria vai funcionar. Se pegar uma ginger muito doce, reduza o xarope de açúcar)
  • 15ml xarope de açúcar
  • 2 morangos com as folhinhas cortadas (respira fundo, ou não respira e deixa de fora)
  • copo alto
  • parafernália para bater

PREPARO

  1. Adicione o xarope de açúcar, limão e um morango (ou não!) numa coqueteleira. Amasse tudo, como se estivesse fazendo uma caipirinha.
  2. adicione o whisky e bastante gelo, e bata.
  3. desça a mistura em um copo alto, com bastante gelo, e complete com a ginger beer
  4. finalize com mais um morango, ou um zest de limão siciliano e um dash de Angostura Bitters.

5 thoughts on “Kentucky Buck – Whiskey de bermudas.

  1. Eu não sou de whisky, confesso. Somente em drinks. Mas meu marido adora e te segue pelos drinks e suas dicas. Mas esse post me representou, e muito!!! Também ODEIO o calor! Às vezes, eu acho que nasci no país errado. E eu acho injusto! Não basta os 9 meses de calor? Vão invadir nossos míseros 3 meses de paraíso, com temperaturas de menos de 20 graus? Poxa, não vale!!! Sucesso!

    1. Tatiana, você me entende. Essa intrusão é de uma deselegância ímpar. Calor, só no café.

  2. Caro Maurício,
    Um bartender, sem nos conhecer, claro, apresentou a mais perfeita síntese entre sua implicância com franco (que compartilhei no passado, e ainda hoje) e minha implicância com vodka. O cara falou que “vodka é o peito de frango sem pele e desossado da mixologia”. Coisa de gênio.
    Isso tem me economizado horrores de clicks.
    Não tenho problemas com morango. O mais grave que poderia registrar é que pode ser supervalorizado e que, certamente sua erotização é besta. No mais… vai bem…
    Minha relação com açúcar é conflitante…digamos assim. Dessa forma, para manter sua receita, mantendo a calda, adotarei um Bourbon menos caramelado. Hoje, tenho WT 101 e Buffalo Trace.
    Sou apaixonado por Bucks e esse não conhecia. Fico Grato.
    Quando alguma alma demente tentar lhe arruinar o dia celebrando o calor, como se fala no Recife, “fica peixe” (tu que é dos Pampas, significa: “não liga”), e prepara um Adios Mothefucker, aparentemente trabalhoso, mas funciona como dois coquetéis de uma lapada só. É fresco e charmoso. Até quem gosta de calor vai gostar.
    Forte Abraço,
    Sócrates

    1. Caro Sócrates, achei fantástico o comentário.

      Convivo com o morango da mesma forma que convivo com meus vizinhos. As vezes nos vemos, mas, não sem um pequeno constrangimento.

      Não conhecia o Adios Motherfucker. Tenho um certo problema com bebidas azuladas. Mas, achei a história boa, então, para o bem dos futuros leitores destes comentários, aí vai a receita.

      https://www.liquor.com/recipes/adios-motherfucker-2/

  3. Não achei tãooo fácil assim de fazer em meu humilde lar..suei só de pensar em fazer!
    Acho q o ar condicionado do caledonia resolve e me salva.

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