Lamas Smoked Single Malt – Combinações

Vou começar o post de hoje com uma auto-paráfrase. Não por falta de criatividade, mas, porque creio que se aplica perfeitamente à harmonização de hoje ” Goiabada e queijo, hot dog e mostarda, limão e cachaça. Batata palha e estrogonofe, vermute e campari, linguiça e feijão. TPM e chocolate, Microsoft Windows e Ctrl + Alt + Del. Chuva e Netflix, hambúrguer e batata frita e bacon com absolutamente tudo. Há coisas que foram criadas para combinarem, involuntariamente, com outras. Coisas cujo resultado é maior do que a soma das partes. 

Charutos e whiskies são assim. É raro que uma combinação entre charuto e whisky saia terrivelmente errado. Porém, isso não significa que qualquer uma funcionará. Algumas ficam desequilibradas – como um charuto delicado com um whisky enfumaçado e potente. Outras, ficam simplesmente sem graça. Mas quando eu acerto, ah, aí é absolutamente incrível. Os dois se complementam, e extraem do outro sabores e aromas que eu jamais sequer imaginaria que existissem lá.

E foi pensando justamente nesta combinação – esta soma que não tem nada de matemática – que o professor Cesar Adames, em parceria com a destilaria Lamas, de Minas Gerais, lançaram o Smoked Single Malt Whisky – um whisky criado especialmente para ser combinado com charutos. O nome, diremos assim, sintético, já dá uma boa ideia do que é o líquido. Um single malt defumado, cuja base é o Lamas Nimbus, limitado a 400 garrafas. Mas, com uma graduação alcoolica bem mais generosa, de 51%. E finalizado em barris de carvalho que antes contiveram a stout Durak, também da Lamas.

A Lamas

A defumação do Lamas Smoked Single Malt Whisky é bem sui-generis. É a mesma do Lamas Nimbus e do nosso querido Caledonia II. Não há turfa envolvida no processo. A cevada maltada é umedecida novamente na Lamas, e passa por uma segunda secagem, mas utilizando madeira de reflorestamento. Isso traz uma nota enfumaçada mais aromática, que remonta a incenso e especiarias. Não há a tradicional nota medicinal dos single malts turfados, mas, há um aroma de madeira em brasa bastante característico.

A maturação aconteceu de forma escalonada. Primeiro, maturou em barris de carvalho americano. Depois, foi transferido para barris – também de carvalho americano – mas que contiveram a imperial stout da Lamas, a Durak. Há, inclusive, a versão contrária da brincadeira. Uma Durak envelhecida em barris de single malt da destilaria. Essa segunda maturação trouxe notas amargas, de café e chocolate ao whisky. Uma adição muito bem vinda, especialmente considerando a combinação com charutos mais potentes.

Por fim, a graduação alcoólica é de 51%, o que torna o Lamas Smoked Single Malt Whisky o whisky mais alcoólico produzido no Brasil oficialmente. Aqui, há um ponto muito interessante. O whisky é vendido somente em um kit, que acompanha uma garrafa de água VOSS – reconhecida por sua pureza e neutralidade. A ideia é que o consumidor, ao harmonizar, e dependendo do charuto que escolher, possa reduzir o ABV do whisky, até atingir o ponto de equilíbrio perfeito.

Mas, mais do que um whisky criado para combinar com puros, o Lamas Smoked Single Malt Whisky é também uma homenagem à cultura charuteira. O rótulo faz alusão às caixas de charutos cubanos, e o selo de edição limitada presta homenagem àqueles usados nas tiragens mais exclusivas dos habanos. A embalagem está apinhada de pequenas referências bem-humoradas, como a imagem do charuto na rolha. A graduação alcoólica, aliás, é uma delas: “é que se alguém perguntar, vou dizer que foi uma boa ideia” declarou Adames.

Adames, estudando whiskies no Whisky Show de Londres

A garrafa (de generoso um litro ) do Lamas Smoked Single Malt Whisky está à venda exclusivamente em dois pontos. Na loja oficial da Lamas Destilaria e no Caledonia Whisky & Co., em São Paulo. Em ambos, o preço é de R$ 250,00 (duzentos e cinquenta reais). Outros pontos especializados em charutos receberão também o whisky em dose, como a Caruso Lounge e a Tabacaria Lenat – habitat natural do Lamas Smoked Single Malt Whisky.

Se você gosta de whiskies maturados em barris de cerveja, e se é um apaixonado por charutos, o Lamas Smoked Single Malt Whisky é uma peça indispensável em sua coleção. Ele é a máxima homenagem brasileira à cultura charuteira. Há coisas que foram criadas para combinarem, involuntariamente, com outras. Mas, quando elas são criadas voluntariamente, ah, aí é melhor ainda.

LAMAS SMOKED SINGLE MALT WHISKY

Tipo: Single Malt

Destilaria: Lamas

País: Brasil

ABV: 51%

Notas de prova:

Aroma: baunilha, caramelo, cedro, incenso.

Sabor: herbal e enfumaçado, com notas de cravo, canela, pimenta do reino, chocolate e café. Final longo, apimentado, com incenso e madeira.

Disponibilidade: a venda com a destilaria e no Caledonia

*a degustação do whisky tema desta prova foi fornecida por terceiros envolvidos em sua produção. Este Cão, porém, manteve total liberdade editorial sobre o conteúdo do post.

9 thoughts on “Lamas Smoked Single Malt – Combinações

  1. Que bacana, não fumo charuto mas sim cachimbo, embora não costume fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Faz tempo que tenho vontade de provar os Lamas, em especial o Nimbus. Parabéns pelo site, é excelente fonte de informação, uma enciclopédia!

  2. Consegui comprar um e ele é maravilhoso. Vejo mau posso esperar para degustar com um Diogenes puentes patrícia ou um Dona flor mata fina (espero que eu consiga acertar na harmonização).

  3. Boa noite amigo Cão, acabei de receber esta tarde e já estou provando. A primeira impressão não é das melhores… Continua a dominância total do liptus, já ao abrir a garrafa… Sinceramente, tanto no olfato como no paladar, é o mesmo Nimbus, só que com mais teor alcoólico, um pouco mais de fumaça e só !! Sim, e só !! Tal o Nimbus, é whisky para tomar uma dose e uma dose somente de cada vez, sem repetir, porque ele se torna rapidamente enjoativo com esta predominância tão forte e incômoda do liptus. A influência da Stout é totalmente inexpressiva a nível do olfato e muito leve no paladar. Como no Nimbus, falta equilíbrio e complexidade. Outro incômodo, como aparece igualmente no Nimbus,é que é muito, muito jovem. Além da falta de equilíbrio e de complexidade falta também idade. A água, indispensável, já não se degusta bebida alguma com tal teor de álcool, não acrescenta grande coisa; claro que diminui a potência e o liptus, mas também não revela outros sabores. …. uma pena. Acredito que mais anos de barril e uma finalização mais poderosa e aromática devam permitir alcançar um alto nível de qualidade. Obrigado pelo seu texto sempre tão bem escrito. Abraço Mestre !

    1. Caro Patrick, achei o comentário! Havia me passado em branco.

      Eu entendo a estranheza. Na verdade, o processo de secagem da cevada que eles utilizam – com madeira – traz uma intensidade aromática bem alta. Quando usamos o Nimbus como base para nosso Lamas Caledonia, preferimos ir para um barril bem potente, justamente para tentar equilibrar a fumaça. Aumentamos também o ABV – whiskies jovens tendem a ser melhores com ABV mais alto.

      Mas, ainda assim, gosto do Nimbus e do Smoked. São whiskies corajosos, com personalidade e que trazem uma experiência diferente. Alguns anos no barril talvez possam ajudar sim, vamos dar tempo ao tempo.

  4. Esqueci de mencionar que ao tomar a segunda dose do Lamas Smoked, comecei a fumar um charuto Lonsdale, Flor de Rafael Gonzalez Marques, cor Colorado (sabor mais intenso) de safra bem antiga. Realmente a harmonização ficou ótima. O que era excesso de liptus no paladar ao beber a primeira dose do whisky antes de fumar, ajudou a tornar a fumaça do charuto mais leve e refrescante no paladar. Muito interessante esta sensação e experiência muito inovadora. Lição para mim, este Smoked tem que ser tomado com água e charuto !

  5. Boa noite Mestre Cão, agradeço a divulgação do meu comentário de 06/07/2021 às 22:49 que descrvei a degustação conjunta e harmônica do Lamas Smoked com um “puro”, um charuto cubano potente. Porém, a minha análise anterior relatando o meu primeiro encontro com o Lamas Smoked não foi publicada; ou talvez ainda não ou talvez jamais… Não sabia que poderia existir uma “censura” nos comentários… possivelmente que as minhas primeiras observações, reconheço não muito elogiosas, estejam ainda sendo “analisadas por moderadores”, como costuma se dizer. O fato é que, sendo homem velho com mais de 70 anos – dispensem-me o condescendente apelido de idoso – me permito dizer o que penso e o que sinto sem ter que me preocupar, nem com esta “hipocrisia-mor” do politicamente correto e muito menos com a a mediocridade do “pensamento único”. Não entendo nada de whisky, nem pretendo entender algo tão subjetivo, emocionalmente instável e sensorialmente irracional. Mas bebo whisky, single malts, blended malts, vatted whiskys e quaisquer outras combinações há mais de 55 anos. Sei perfeitamente que as palavras deste primeiro comentário meu não publicado não devem ter agradado; aliás não foram escritas para tal propósito, mas simplesmente para chamar atenção para um produto que acho excepcional porém mal processado, mal acabado e mal finalizado. Destilado este que merece uma turbinagem melhor, um upgrade nobre e uma finalização poderosa, visando um equilíbrio e uma harmonia, por hora descompensado pela dominância do liptus . Espero amigo Cão, que o velho gafanhoto que sou possa ter ajudado de maneira construtiva para o aprimoramento de um produto brasileiro que merece reconhecimento no universo do Whisky, desde de que continue a se aprimorar, com delicadeza e perseverança. Grande abraço e obrigado pelo seu tempo !

    1. Caro Patrick, de forma alguma. Na verdade, por aqui aprovo quase tudo. Como disse, exceto se for algo completamente fora da casinha. Entretanto, há um problema de atenção e tempo! Procurei seu comentário, vou procurar até encontrar, rs. Seus comentários e observações são ótimas – a ideia é que justamente este espaço seja um foro de discussões. È a variedade que dá tempero a vida.

  6. Prezado Mestre Cão, é com serena humildade que entendo o despacho dado a minha observação a respeito das primeiras doses do Lamas Smoked; não tanto por lamentar a ausência de sua divulgação – afinal, cabe a mim respeitar e aceitar o processo de “moderador” nas opiniões expressas em seu blog – mas por omitir o encontro inicial deste gafanhoto com tal whisky original e criativo, porém, indisciplinado e selvagem. Posteriormente, somente a magistral e entorpecente fumaça de um “puro” de Havana, de grande raça e tradição para conseguir dominar e inserir este destilado no contexto “etílico-civilizatório” ao qual ele pertence. De repente do nada, perdido em volutas de fumaça e goles inebriantes, me vem à memória antiga leitura de Rudyard Kipling extirpando o menino Mogli de sua selva e devolvendo-o aos seus. Torço que em edições futuras sejam incorporadas complexidade e harmonia, capazes de transformar tal moleque extravagante e capacitado em um admirável e elegante gentleman, singularmente marcado pela potência e a singularidade de sua raça. Obrigado uma vez mais Amigo Cão pela sua paciência.

    1. Caro Patrick, como vai? Na verdade, não sei se eu só nao esqueci de aprovar seu comentário – exceto se for alguém tentando vender cialis ou fazendo propaganda de coisas descabidas, tendo a aprovar tudo que tem por aqui. Mas, assumo, nao encontrei seu comentário!

      Voce provou o Lamas Smoked? Eu achei um ótimo whisky

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