Macallan Triple Cask 18 – Memórias

O painel de recuperação de documentos contém alguns arquivos não salvos. Você deseja ver estes arquivos da próxima vez que iniciar o Word?“. Sem nem um átimo de reflexão, clico em “sim”. Sempre clico em “sim”. Não faço a menor ideia de quais documentos não foram salvos. Minha lista de documentos em recuperação no Word são, de certa forma, como a vida. Tudo aquilo que não terminei ou errei se acumula. Vitórias e conclusões simplesmente desaparecem ou se perdem.

Na verdade, é um pouco pior. Ver os arquivos perdidos da próxima vez que iniciar o Word é mais como guardar memórias que jamais serão resgatadas. Pequenas e grandes frações de coisas, acumuladas e nunca revisitadas. Nunca revisitadas por estarem em dois extremos: ou são muito triviais, ou demasiado especiais. Dentro do primeiro grupo está o canhoto da passagem aérea daquela viagem que você fez há dez anos, o crachá daquela feira incrível e o mapa daquele museu. Coisinhas miúdas que você jura que um dia sentará com tudo no colo para ser tomado por uma alegre nostalgia.

Ah, quantas memórias!

Na segunda categoria está tudo aquilo que você conhece, gosta demais, e não consegue imaginar a impossibilidade de ver ou provar novamente, ainda que você nunca realmente faça isso também. Meu armário da sala, com uma centena e meia de DVDs de meus filmes favoritos – sendo que nem tenho mais um aparelho para reproduzi-los – faz parte desse time. E garrafas de whisky. Algumas poucas garrafas, de whiskies que já provei, mas que merecem uma ampola fechada, para ser aberta naquele momento especial. Dentre elas, o Macallan Triple Cask 18 anos.

Antes de prosseguir, deixe-me esclarecer isto. Provei o whisky em mais de uma situação. Uma vez, quando visitei a The Macallan – quando ele ainda era Fine Oak – e me encantei com os alambiques curiosamente baixos. Duas outras vezes em degustações da marca, que ressaltaram o extremo cuidado com as barricas utilizadas em sua maturação. E uma quarta, no meu querido Caledonia – onde simplesmente pude provar o whisky sem interferências. E apesar de conhecer a dose relativamente bem, jamais tive a coragem de abrir minha própria garrafa. Uma, que comprei num momento de impulsivo arrebatamento.

Mas, com o tempo, comecei a reconsiderar essas coisas. Sei bem que nunca realmente examinarei aquela gaveta cheia de pedacinhos de papéis que remetem as mais aleatórias memórias, e que seria bom mesmo jogar tudo fora. Simplesmente porque, bem, o que vale são justamente as memórias e não os papéis. E hoje sei também que não adianta guardar nada para um momento especial, porque no momento especial a gente não pensa em torná-lo ainda mais especial. E assim, da forma tão impulsiva quanto comprei, decidi finalmente abrir aquela garrafa.

Desci a primeira dose com atenção a maturação do Macallan Triple Cask 18 anos. Ela acontece em três tipos de barricas. Carvalho americano que antes conteve bourbon whiskey; carvalho europeu que antes conteve vinho jerez e carvalho americano, também de ex-jerez. Na época de seu lançamento, a linha Triple Cask – outrora batizada “Fine Oak – gerou um certo desconforto nos entusiastas da The Macallan. Para eles, os whiskies da destilaria deveriam primar pela maturação em jerez, somente. No entanto, com o tempo – que aliás apara as arestas pontudas das memórias ruins – a linha se consolidou.

A The Macallan utiliza, no rótulo de sua nova linha, a expressão “seasoned” (temperado) para definir os barris de ex-jerez. O termo, usado para trazer mais clareza, na verdade, gerou outro desconforto. Consumidores indagaram se havia alguma distinção entre barris que maturaram jerez daqueles que foram temperados. A expressão, entretanto, faz pouca diferença, exceto talvez pelo tempo que o vinho permaneceu nas barricas. Ocorre que antes de 1981 (ou seja, há quarenta anos!) a Espanha proibiu a exportação de barricas cheias de jerez. A prática era bem comum na década de setenta – os barris atravessavam o Canal da Mancha cheios. Na Escócia, eram esvaziados e o vinho jerez vendido. Depois, as destilarias preenchiam ditas barricas com whisky.

Armazém da The Macallan

Por conta da proibição do governo espanhol, no entanto, a oferta de barricas de jerez diminuiu enormemente. Mas, não a demanda por scotch whiskies maturados em tais barris. As destilarias escocesas, então, encontraram um caminho intermediário. Passaram a encomendar barricas que antes continham vinho jerez vazias – muitas vezes produzidos sob demanda da destilaria. Ao chegar à Escócia, as barricas eram desmontadas, tratadas, remontadas e preenchidas com whisky. E foi justamente isso que a The Macallan fez, desde o começo. Mas, apenas agora, decidiu utilizar a expressão seasoned – temperadas – para esclarecer a metodologia.

Dei mais um golinho. A maturação torna o Macallan Triple Cask 18 um whisky relativamente equilibrado. Defini-lo como delicado, porém, seria banalizá-lo. Tudo está em equilíbrio em sua composição e nenhuma nota se sobressai. Porém, a intensidade tão particular dos The Macallan permanece em evidência. É impossível dizer que aquela é uma dose de um whisky inofensivo. Seria o mesmo que dizer que um carro de Fórmula 1 dirigido vagarosamente, é um automóvel tranquilo e amável. Dito isso, se comparado ao Macallan Triple Cask 15 anos, o irmão mais velho é menos apimentado e vibrante. E, lado a lado com o caçula 12 anos, é mais sisudo, mais sofisticado e bem menos adocicado.

Decidir pesquisar um pouco sobre a destilaria. Localizada em Craigellachie, a The Macallan passou recentemente por uma enorme reforma. O prédio principal foi desenhado pelo escritório de arquitetura Rogers Stirk Harbour + Partners, o mesmo daquele estádio em Londres que parece um ouriço. Mas, dessa vez, eles acertaram. O espaço conta com os alambiques da destilaria, um centro de visitantes e – vejam só – um espaço com todo tipo de memória ligada à destilaria. Além disso, o time também foi reformado. Atualmente, o papel de master whisky maker da The Macallan é desempenhado por Kirsteen Campbell – a primeira mulher nesta função, na história de 195 anos da destilaria. Ela assumiu a cadeira em 2019, com a saída de Nick Savage.

Campbell, com a destilaria ao fundo.

Dei meu último gole e notei a textura do The Macallan 18 anos. Lembrei-me que apenas dezesseis por cento do destilado – produzido no meio do processo de destilação no alambique – vira single malt. Isso se dá justamente por conta da operação dos alambiques. Como a ideia é produzir um new-make oleoso e congenérico, a destilaria faz um corte bastante restritivo de cabeça e cauda, para evitar que quaisquer sabores indesejados passem para o whisky. Um cuidado que, aparentemente, gerou frutos.

Prova feita, abri novamente o Word e comecei a narrar minhas impressões sobre o whisky. Pronto. Agora só falta uma introdução. Aperto o X vermelho, do lado esquerdo superior da tela. “O painel de recuperação de documentos contém alguns arquivos não salvos. Você deseja ver estes arquivos da próxima vez que iniciar o Word?” Opa, não, peraí. Cancelar. Tive uma ideia de como começar esta matéria. Pronto, salvar, fechar. “Você deseja….“. Não, obrigado, já tenho tudo que preciso por aqui mesmo. Boa noite.

MACALLAN TRIPLE CASK 18 ANOS

Tipo: Single Malt
Destilaria: The Macallan
País/Região: Escócia – Speyside
ABV: 43%
Idade: 18 anos

Notas de prova:

Aroma: caramelo, laranja, compota de frutas.

Sabor: baunilha, chocolate, tabaco. Toffee. Final longo e apimentado, com vinho fortificado e um certo (e curioso) gengibre.

2 thoughts on “Macallan Triple Cask 18 – Memórias

  1. Estou encantado pela sua narrativa e pela forma como quase consigo me imaginar degustando.
    Obrigado por produzir conteudo tão leve de ser ler, sem perder a profundidade de uma analise, e ainda ressalto as curiosidades, tais quais o projeto arquitetônico do local.
    Abraços!

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