Drinque do Cão II – Penicillin

 

Lembram-se quando falei sobre o sentido da palavra “serendipidade”? Quando a mencionei pela primeira vez, utilizei um exemplo que deixou muita gente excitada. O Viagra. O Viagra foi, fácil, uma das maiores serendipidades da história.

Além dele, outra serendipidade incontestável foi a penicilina. Ela foi descoberta por acaso, pelo cientista escocês Alexander Fleming, em 1928. A penicilina foi provavelmente a segunda maior contribuição da Escócia para o mundo. Depois do whisky, óbvio.

É que antes da penicilina, se você cortasse a perna e ela, porventura, infeccionasse, havia uma chance razoável de ter que amputá-la. E se você desse esse azar antes de 1846, sua perna teria que ser lentamente e cuidadosamente arrancada sem o uso de qualquer anestesia, enquanto você urrava de dor. Porque, bom, porque não existia anestesia, também.

 

E aí você teria que lutar assim.
E aí você teria que lutar assim.

E tudo bem que tomar antibiótico é chato, porque você fica com dor de estomago, e não pode beber. Mas sei lá, eu acho que eu prefiro passar uns dias sem beber nada do que perder um membro do corpo. E, se você pensar, foi mais ou menos essa a escolha que a penicilina te trouxe.

A penicilina, assim, foi uma revolução para a humanidade.

Para mim, uma revolução muito parecida aconteceu em 2010. Antes disso, eu achava um absoluto pecado utilizar um single malt em um coquetel. Até ter descoberto o Penicillin (o coquetel, não o antibiótico), pelas mãos do mestre Spencer Amereno Junior – hoje no Frank Bar. E que descoberta. O Penicillin é provavelmente o drink preferido deste Cão que vos escreve. Há dias que gostaria de um Boulevardier, outros que talvez sinta vontade de um Manhattan. Mas um coquetel que jamais recusarei em qualquer dia é este. O Penicillin.

O Penicillin foi criado em 2005 e profeticamente batizado por um bartender chamado Sam Ross. É um coquetel surpreendentemente complexo e, ainda que não possua as qualidades curativas do remédio, chega bem perto daquela receita de mel e limão para dor de garganta da sua avó. Principalmente se vovó curtir um bom whisky.

Como se não bastasse ser uma das mais incríveis criações da coquetelaria, a história do Penicillin também envolve uma das marcas de whisky favoritas deste canídeo. A iconoclasta Compass Box Whisky Co. Ainda mais razão para reverenciar esta criação.

Segundo Ross “Tínhamos recebido alguns dos primeiros lotes dos whiskies da Compass Box em Nova Iorque – O Asyla, Peat Monster, e outros dois (…) E eu estava apenas testando, e fiz uma recriação do Gold Rush, um dos nossos maiores sucessos (usando Asyla). Nosso suco de gengibre é adoçado, e funciona como uma calda. Então dividi o dulçor entre os dois, o gengibre e o mel. E deu certo. Aí peguei o peat monster – talvez pudesse brincar um pouco com whisky defumado. Fiz um float. O aroma enfumaçado se manteve lá.

Nenhum coquetel teve ascensão tão rápida quanto o Penicillin. Em pouco mais de dez anos, o coquetel tornou-se tão famoso que mesmo em São Paulo, mais de uma dezena de bares o serve. É um clássico moderno. E não é para menos.

Então, caros leitores,  aí vai a segunda aula de mixologia do Cão. Ensinarei a vocês um dos melhores coquetéis da história. Um remédio para todos os males. Uma verdadeira panaceia. O incrível Penicillin:

PENICILLIN

INGREDIENTES:

¾ dose de suco de limão siciliano

¾ dose de calda de gengibre e mel (veja a parte de preparo)

2 doses de blended whisky ou single malt sem aroma defumado (considerando o perfil de sabor do Asyla, normalmente, uso Johnnie Walker Black Label ou J&B. Se você estiver se sentindo meio sofisticado, pode fazer com Johnnie Walker Gold Label Reserve, mas vai ficar mais doce…)

¼ dose de single malt defumado (este Cão utilizou Ardbeg 10, já que não temos Peat Monster por aqui. O ideal é que seja um single malt defumado e mais seco ou cítrico, como o Ardbeg ou o Laphroaig 10 anos). Se achar que está pouco defumado, seja corajoso e faça com ½ dose.

Gelo.

Penicillin
Ingredientes

 

PREPARO:

A calda de gengibre e mel:

Aqui você tem duas opções. As duas envolvem água, mel e gengibre. Uma delas envolve um processador de alimentos – boa oportunidade para voltar a usar aquele eletrodoméstico inútil na sua casa:

Opção 1 – descascar e picar gengibre em cubinhos. Colocar em uma panela, o gengibre picado, agua e mel, numa proporção de um para um (ou seja, para cada ml de agua, a mesma quantidade de mel). Deixar reduzir um pouco, para o gengibre deixar sabor na mistura. Não é para ficar nem perto de viscoso. Tem que ser meio aguado mesmo. Depois, peneirar, para tirar o gengibre.

Opção 2 – pegar o gengibre inteiro, colocar no processador de alimentos para que vire uma espécie de pasta. Você tem que agora separar o suco da pasta. Quando fiz esta técnica, usei uma gaze, mas uma peneira fininha funcionará até melhor. Separar 1 dose do suco resultante.

Em um outro recipiente, adicionar o mel e a agua, na proporção de 1 para 1. Misturar um pouco, e depois adicionar a dose de suco de gengibre.

O Penicillin:

Em uma coqueteleira ou shaker, colocar três pedras de gelo e misturar o suco de limão siciliano, a calda de gengibre e mel, o whisky sem defumação e o defumado. Bater por quatro segundos, até formar uma espuma.

Coar e servir em copo baixo, com duas pequenas pedras de gelo, ou uma grande.

 

O Cão Clássico – Glenlivet 12 anos

Glenlivet 12Meu trabalho traz a oportunidade de conhecer uma boa dose de loucos. O mundo corporativo está cheio deles, de todas as espécies e graus de loucura. Um dos mais interessantes foi o Sr. Roberto, sócio de um escritório em que trabalhei. O Sr. Roberto era extremamente articulado, relativamente elegante e muito educado. Trabalhava bem e era muito eficiente. Enfim, o Sr. Roberto parecia um cara absolutamente normal. Até você ir almoçar com ele.

Na hora da refeição, o Sr. Roberto tinha todo tipo de mania. Uma das mais estranhas era de, durante reuniões mais longas, comer esfihas de ricota, cortadas por nossa copeira em oito pedaços milimetricamente idênticos, como uma pizza. O Sr. Roberto passava reuniões inteiras com um minipedaço de esfiha na mão, e, eventualmente, o comia, pegando outro logo em seguida.

Outro cara que tinha manias alimentares tão estranhas quanto as do Sr. Roberto, foi Napoleão Bonaparte. Reza a lenda que Napoleão não comia nada antes das batalhas. Por conta disso, voltava delas com uma fome monstruosa. Seu prato preferido – criado por seu chef pessoal após a batalha de Marengo – era Frango à Marengo. Napoleão gostava tanto daquele prato que sempre o pedia após a luta, e, quando seu chef tentou substituir alguns ingredientes que estavam rareando, Napoleão preferiu ficar com fome.

A prova de que frango também engorda.
A prova de que frango também engorda.

Além de um homem de gosto culinário peculiar e grande conquistador, Napoleão contribuiu imensamente para a indústria do whisky, ainda que de forma indireta. Por conta da guerra contra ele, logo após a cessação da proibição de venda de destilados, a Inglaterra passou a cobrar impostos pesadíssimos das destilarias legalizadas, que se localizavam nas lowlands escocesas. Como resultado, muitas faliram, abrindo espaço para as destilarias ilegais das highlands, mais especificamente, da região de Speyside. E a Glenlivet era uma delas.

A Glenlivet foi fundada originalmente em 1824 por George Smith, em sua própria fazenda. Mais tarde, em 1858, George, e seu filho, John Gordon, reconstruíram a destilaria em outro lugar, em Minmore, onde ela se localiza até hoje. Ela foi a primeira das destilarias ilegais de Speyside que se destacou, mais tarde legalizando-se. O produto da Glenlivet era tão bom que as outras destilarias, ainda ilegais, passaram a utilizar em seus rótulos a frase “ *- Glenlivet”, em referência à região em que se localizavam.

 

“tipo Bugatti”
“Bugatti”

Atualmente, a Glenlivet pertence ao grupo Pernod Ricard, os mesmos da Chivas Regal. Mas aqui há uma curiosidade. O Glenlivet vende tão bem como um single malt até hoje que a Pernod raramente o utiliza na composição de seus blended whiskies, como os Chivas Regal e Royal Salute.

Considerando todos os rótulos da destilaria, o Glenlivet é o single malt mais vendido nos Estados Unidos, e o seguindo mais vendido no mundo, apenas atrás do Glenfiddich. Inclusive, mais da metade de toda a produção da Glenlivet que é engarrafada como single malt, é comercializada na terra do hamburger e da liberdade. As expressões da destilaria estão presentes em mais de cem países do mundo.

Em 2010 a Glenlivet passou por uma expansão, de forma a aumentar a sua produção de seis para dez milhões de litros por ano. A reforma custou em torno de dez milhões de libras, e contou com um novo mash tun, oito novos washbacks e meia dúzia de alambiques de cobre. Tudo isso para tentar ultrapassar a Glenfiddich como single malt mais vendido no planeta. Atualmente, em meio a este frenesi de conquista napoleônica, a expressão mais vendida de seu portfólio é o Glenlivet doze anos.

Maturado por no mínimo doze anos em barricas de carvalho americano que antes contiveram bourbon whiskey,  o Glenlivet 12 anos é o clássico single malt de Speyside. Possui aroma frutado e gosto adocicado, com baunilha e mel no sabor residual. É um whisky leve e agradável, que não demanda qualquer esforço para ser bebido.

Os alambiques da Glenlivet são altos, e seu formato de lanterna incentiva o refluxo do destilado. Apenas os vapores mais leves conseguem atingir o topo. Isso produz um destilado relativamente pouco oleoso. Bem menos do que de outras destilarias de Speyside, como Macallan, Aberlour e Glenfarclas.

Durante sua vida, o Glenlivet 12 anos recebeu uma infinidade de prêmios internacionais. Os mais recentes foram uma medalha de ouro na International Spirits Challenge de 2014, na categoria de single malts abaixo de 12 anos, bem como ouro pela Scotch Whisky Masters, além de uma medalha de prata pela International Wine and Spirits Competition, também em 2014.

Se você for um iniciante no mundo dos single malts, e me perguntar um whisky para começar, minha recomendação provavelmente será um Glenlivet ou Glenfiddich. São whiskies que agradam a quase todos os gostos, e realmente se destacam dos blended whiskies disponíveis em nosso mercado. O Glenlivet 12 anos é quase como Napoleão. Um conquistador por natureza.

 GLENLIVET 12 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 12 anos

Destilaria: Glenlivet

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: cítrico, abacaxi, com leve aroma de baunilha e especiarias.

Sabor: sabor cítrico, levemente apimentado, com final longo e amargo.

Com água: o sabor fica mais adocicado, e o aroma de baunilha se sobressai. Final fica mais curto e menos amargo.

Preço: R$ 250,00 (duzentos e cinquenta reais)

 

World (Whisky) Martini Day

World Martini day

Dia 19 de junho foi o World Martini Day. E ainda que Martini não seja whisky, é um coquetel bem respeitável. Prova disso são seus admiradores. Apenas para citar alguns, temos James Bond, Winston Churchill, Homer Simpson, Frank Sinatra e o comediante americano George Burns. Este último tem uma frase excelente, que, em uma tradução livre, seria algo como “eu nunca pratico corrida. Me faz derrubar meu Martini”.

Adoro pretextos comemorativos
Adoro pretextos comemorativos

O dia, além de ser um tributo a um dos coquetéis mais famosos da história – e muito possivelmente o mais famoso do mundo do cinema – é uma oportunidade para que bares e bartenders, sejam eles profissionais ou amadores, apresentem suas criações e releituras do tão famoso drink. Talita Simões, consultora e bartender do restaurante Side, em São Paulo, por exemplo, criou um Unusual Martini, com vodka, vermutes e até bitters de chocolate.

E como um bom fã de James Bond, Winston Churchill e, principalmente, Homer, este Cão não poderia deixar de fazer sua contribuição. Então, meus caros, sentem-se e peguem seus caderninhos, porque aí vai a primeira lição de mixologia à la Chien embouteillé. Usando whisky, óbvio:

SMOKED MARTINI

INGREDIENTES:

3 doses de Vodka (este Cão usou Belvedere)

½ dose de Whisky defumado (de preferência um defumado seco, como Ardbeg 10 anos)

Laranja – opcional

PREPARO

Encher um mixing glass (pode ser qualquer copo grande e baixo, se você não tiver um mixing glass – vamos manter a frescura em um nível administrável aqui) com gelo. Colocar as três doses de vodka e meia dose de whisky defumado. Mexer, com cuidado, com uma colher bailarina (ou uma colher pequena) por alguns segundos.

Com a ajuda de um coador ou strainer, derramar o conteúdo (menos o gelo) em um copo de Martini, de bordas largas.

Se preferir adicionar um aroma cítrico discreto, descasque a laranja, e coloque uma pequena tira da casca dentro do copo.

Pronto. Agora você já pode se juntar a grandes nomes da história e da ficção com uma das melhores – e mais simples – receitas de Martini da história. E nem precisa sofrer do arrependimento que acometeu Humphrey Bogart, quando disse “Eu nunca deveria ter abandonado o whisky pelo Martini”!

Doce Emoção – Balvenie Doublewood 12 anos

Balvenie Doublewood

Você sabe o que é Epinefrina? Epinefrina é um composto químico, proveniente da modificação um aminoácido aromático, a tirosina. As glândulas suprarrenais do corpo humano produzem epinefrina em momentos de tensão. Quando secretada, a epinefrina tem como resultado o aumento da tensão arterial, contração muscular e estímulo do músculo cardíaco. Mas você já sabe disso, porque outro nome, bem mais popular para a epinefrina, é adrenalina.

A epinefrina pode ser usada para combater parada cardíaca ou disritmias do coração. Mas como aprendemos com o cinema hollywoodiano e com Jason Statham, ela é mais frequentemente encontrada em descongestionantes nasais. Se ministrada em exagero, pode produzir uma lista infinita de resultados desagradáveis, sem dizer, muitas vezes, mortais. Entre eles estão palpitação, taquicardia, arritmia cardíaca, ansiedade, ataques de pânico, dor de cabeça, tremor, hipertensão e edema pulmonar.

Enfim, você fica todo tremendo, com um medo inexplicável, seu coração quase explodindo e seu pulmão entra em colapso. Não sei você. Mas acho que eu prefiro ficar com o nariz entupido.

Ou ela pode te ajudar a assassinar brutalmente duzentos mafiosos antes de seu coração parar por conta de um veneno mortal
Ou ela pode te ajudar a assassinar brutalmente duzentos mafiosos antes de seu coração parar por conta de um veneno mortal

O interessante sobre a epinefrina é que ela foi produzida pela primeira vez em laboratório em 1904. Só que ninguém sabe ao certo por quem. Dois cientistas – Friedrich Stolz, alemão, e Henry Drysdale Dakin, um inglês – sintetizaram compostos semelhantes, quase ao mesmo tempo, de forma independente, em seus países de origem. E até hoje existe uma polêmica internacional sobre quem foi o cara que, bom, sem querer diminuir ninguém, basicamente inventou o spray de nariz.

Existe uma polêmica semelhante no mundo do whisky, ainda que, de certa forma, mais simples de ser resolvida. Sobre quem foi a primeira destilaria a conceber a óbvia ideia de finalizar um whisky já completamente maturado em uma barrica de outra bebida. A disputa fica entre a Glenmorangie – como já contei quando revi o Quinta Rubán – e a Balvenie, com seu Balvenie Classic.

O Balvenie Classic foi lançado em 1982 e – até onde se sabe – foi o primeiro whisky a passar pelo óbvio processo de extra finish. A ideia partiu do mestre de maltes da Balvenie, David Stewart. Mas o  problema com o Balvenie Classic é que ele foi uma edição limitadíssima. Pouquíssimas garrafas da versão dezoito anos foram produzidas.

A primeira expressão com finalização extra pela Balvenie em grande escala, entretanto, ocorreu apenas em 1993, e foi o Balvenie Doublewood, uma versão mais jovem do Balvenie Classic, maturada por doze anos nos mesmos tipos de barrica de seu predecessor. Seu lançamento ocorreu quase ao mesmo tempo em que o Port Wood Finish da Glenmorangie, cuja finalização ocorre em ex-barricas de vinho do Porto. E até hoje as destilarias amigavelmente concorrem pelo mérito dessa ideia óbvia.

O Balvenie Doublewood 12 anos é maturado, primeiramente, em barricas de carvalho americano, que antes continham bourbon. Poucos meses antes de concluir sua maturação, o whisky é transferido para barricas de carvalho europeu de primeiro uso – ou seja, utilizadas pela primeira vez para maturar whisky – que antes maturaram vinho jerez. Em comparação aos whiskies com finalização da Glenmorangie, este é um período bem curto. Nectar D’Or, Lasanta e Quinta Ruban passam dois, dos doze anos de maturação, nas suas respectivas barricas especiais.

De acordo com a Balvenie, a maturação em barricas de bourbon traz suavidade e equilíbrio, enquanto que as barricas de jerez são responsáveis por acrescentar complexidade e caráter. Talvez eu precise de um pouco de epinefrina no nariz, mas a impressão deste Cão é que o curto período de ex-jerez pode até contribuir para o equilíbrio do whisky, e talvez um pouco para o aroma, mas não é suficiente para deixar uma marca impossível de não ser notada, como é o caso no Glenmorangie Lasanta e Glenfarclas 15 anos.

A Balvenie foi fundada pela família Grant – os mesmos proprietários da Glenfiddich – em 1892, para auxiliar sua prima na produção de whiskies para blended. Ambas destilarias continuam sob o comando da tradicional família até os dias de hoje. Aliás, a neta de William Grant, chamada Janet Roberts, foi a mulher mais longeva da história da Escócia, tendo vivido cento e dez anos, entre 1901 e 2012. Na ocasião de sua morte, a Glenfiddich lançou um whisky chamado Janet Sheed Roberts Reserve, em uma edição limitada a apenas onze garrafas (uma para cada década de sua vida). O whisky fora maturado por cinquenta e cinco anos, ou seja, metade da idade de Janet!

Pechincha
Pechincha

Voltando à Balvenie. Ao contrário da grande maioria das destilarias escocesas, a Balvenie ainda cultiva parte de sua própria cevada – em torno de 15% – possui seu próprio “malting floor” (espaço no qual a cevada é distribuída, para que comece a germinar), mantém seus próprios tanoeiros e um mestre de alambiques.

O Doublewood 12 anos recebeu medalha de ouro na International Spirits Challenge de 2014, na categoria de Single Malts com idade igual ou inferior a 12 anos. Além disso, ganhou medalhas de prata na International Wine and Spirits Competition, também em 2014, e pela Scotch Whisky Masters, em 2013.

No Brasil, uma garrafa do Balvenie Doublewood 12 anos sai, em média, R$ 270,00 (duzentos e setenta reais). E isso, na verdade, é o genial dele. Dentro desta faixa de preço, não é nada fácil encontrar um whisky que seja tão equilibrado, ainda que nem tão complexo, e que agrade a tantos paladares diferentes. Se você não é fã do Jason Statham, ou não gosta de emoções fortes ao beber mas, ao mesmo tempo, aprecia um bom single malt, o Balvenie Doublewood é seu whisky.

BALVENIE DOUBLEWOOD 12 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 12 anos

Destilaria: Balvenie

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Aroma de frutas cristalizadas, mel e um pouco de baunilha

Sabor: compota de frutas, mel, açúcar queimado, ameixas. Final médio, levemente picante.

Com água: com água o sabor fica mais doce, floral, e o final mais apimentado. A baunilha se sobressai.

Preço: R$ 270,00 (duzentos e setenta reais)

O Cão Estrela – Johnnie Walker Red Label

Redlabel

Este é o ultimo post da série de whiskies abaixo de cem reais. E o último não podia ser outro senão o whisky escocês mais consumido no Brasil. O Johnnie Walker Red Label.

O Red Label é o whisky escocês mais consumido no mundo, da marca de whiskies escoceses mais consumida no mundo. Ele está, literalmente, em toda parte. Desde o restaurante internacional renomado até o boteco da esquina. Do decanter de cristal Baccarat na mesa de seu chefe até a mão do bêbado que fica na porta da sua casa. O Red Label é o Romero Britto do mundo dos whiskies, com a diferença que, quando vejo um Red Label, não tenho vontade de vomitar um arco-íris.

Aliás, falando no Romero Britto, ontem eu vi uma mulher totalmente vestida de Romero Brittos. Eu estava no trânsito, e ela passou há uns vinte metros de distância, na faixa de pedestres. Poucas coisas que vi na minha vida eram tão coloridas quanto aquela moça. Centenas de estampas de padrões e cores diferentes sobrepostas, dividindo seu corpo. Praticamente o cruzamento entre um pavão e um diagrama de anatomia humana.

E ainda que existam mulheres mais bem vestidas (muitas, aliás), artistas melhores (muitos, aliás), e whiskies melhores (muitos, aliás), há uma verdade indiscutível e irrefutável por trás das obras de Britto e do Red Label. Eles são um sucesso absoluto. E por uma razão: ambos foram criados para agradar. E só.

Mas tudo tem limite
Mas tudo tem limite

A razão do sucesso do Red Label também é, de certa forma, semelhante àquela de Britto. Não há complexidade. E isso é o genial deles. O Red Label é um whisky sem muito sabor, áspero e com pouco aroma. Mas por conta disso, por não ter qualquer profundidade, é que – ambos – agradam a quase todo mundo. E para te falar a verdade, por mais irritante que isso seja, nenhum deles está preocupado tentando ser complexo, profundo ou denso.

O Red Label é um blended whisky sem idade definida, resultado do casamento de mais de trinta e cinco single malts e grain whiskies. Seus principais maltes partem das destilarias controladas pela Diageo, dentre elas, Talisker, Cardhu, Caol Ila e Oban. Ainda que não exista indicação da idade dos whiskies em sua composição, é presumível que variem entre três (o mínimo exigido por lei na Escócia) e sete anos.

A história do Red Label é mais antiga que da própria marca Johnnie Walker. Ainda que seu fundador tenha sido um homem chamado John Walker, nascido em 25 de julho de 1805, a empresa passou a chamar-se Johnnie Walker apenas na primeira década do século XX, quando já estava sob controle de seus netos, Geroge e Alexander Walker.

Mas mesmo antes da renomeação, o Red Label já existia. Ele era conhecido como Special Old Highland Red Label 9yo. Um nome ótimo para se pedir uma dose quando já se está embriagado. Naquela época, ele já era comercializado na mundialmente conhecida garrafa de base quadrada, símbolo da Johnnie Walker. Foi apenas em 1909 que os whiskies foram rebatizados, e o Johnnie Walker Red Label recebeu o nome que tem até hoje.

Sete anos mais tarde nasceu Ray Conniff, o Red Label do... “jazz”.
Sete anos mais tarde nasceu Ray Conniff, o Red Label do… “jazz”.

Puro, o Red Label possui sabor doce, mais ou menos áspero, e muito levemente defumado. Mas isso não importa muito. Essa não é sua vocação. Vamos deixar uma coisa clara aqui: O Red Label não é um whisky para ser degustado puro. Seu objetivo é ser misturado em coquetéis, ou tomado com bastante gelo – a forma preferida do brasileiro beber whisky. E, para isso, ele funciona perfeitamente.

O Red Label custa em torno de R$ 90,00 (noventa reais). Mas você já sabe disso. Compará-lo a outros whiskies dentro de sua faixa de preço depende muito da forma com que será consumido. O Red Label é um whisky de combate. Não espere a profundidade de um single malt, ou mesmo de seu irmão mais velho, o Black Label. Afinal, muito provavelmente nenhum whisky em sua faixa de preço a teria. Mas para tomar com gelo, energético ou água de coco; para preparar um whisky sour ou um penicillin; ou mesmo para servir em uma festa, ele é uma ótima opção, considerando seu custo-benefício.

A verdade é que não é por acaso que o Red Label é o rótulo mais consumido da marca mais consumida de whiskies escoceses do mundo. Ele é praticamente um coringa no mundo dos whiskies. O Red label se adapta a praticamente qualquer situação, e cumpre sua função com excelência. Tipo um pôster do Romero Britto. Porque, às vezes, a gente só quer mesmo cobrir uma parede.

JOHNNIE WALKER RED LABEL

Tipo: Blended Whisky sem idade definida

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Aroma de grãos, doce e com alcool bastante presente.

Sabor: doce e levemente frutado com final um pouco defumado e bem picante

Com água: Com água o sabor fica menos doce e mais defumado

Preço: R$ 90,00 (noventa reais)

Vira Lata Engarrafado – White Horse

White Horse

Antes de dar continuidade ao projeto de três whiskies abaixo de cem reais, permita-me uma digressão: preço é uma coisa engraçada. Quando algo é caro, necessariamente a tratamos com mais respeito, e procuramos – as vezes, inutilmente – qualidades ocultas naquilo. Carros são bons exemplos disso. Mas os melhores são, provavelmente, restaurantes.

Restaurantes são bons exemplos porque há uma conjunção louca de fatores que poderiam justificar um preço simplesmente extorsivo. Além disso, avaliar um restaurante é um processo quase exclusivamente subjetivo. Não há parâmetros matemáticos. No caso de carros, por exemplo, podemos dizer que um vai de zero a cem em dois segundos a menos que outro. E que há mais espaço interno. É como dizem: contra fatos não há argumentos. Mas é difícil medir objetivamente se o bacalhau de um restaurante é duas e setenta e cinco vezes melhor que de outro.

Uma vez fui com a Cã a um restaurante autoproclamado conceitual. Meu prato, que custava quase o preço de todas as minhas peças de roupa combinadas, era descrito como crisps de batata sobre suculentos escalopes em uma cama de verdes. Entretanto, ele se mostrou, na verdade, como um contrafilé maltratado, com batata palha e algo que lembrava, remotamente, espinafre.

Não me leve a mal. Gosto de restaurantes inventivos. E acho que teria achado até engraçada aquela situação, se não tivesse vendido meu senso de humor naquele dia para pagar a conta. O cara que escreveu aquele menu poderia descrever qualquer coisa bem. Imagine-o descrevendo um lixão: idílica e montanhosa vista das reminiscências abandonadas por uma sociedade em progresso.

Bangalô-Food-Truck para venda de empanadas brasileiras com veículo utilitário vintage
Bangalô-Food-Truck para venda de empanadas brasileiras com veículo utilitário vintage

Com whiskies, essa distorção é ainda maior. É absolutamente impossível avaliar se certo whisky é melhor que outro de uma forma cem por cento objetiva. E o que acontece é que, em geral, whiskies mais caros tendem a ser mais bem avaliados, enquanto que os baratos sofrem preconceito. E, na opinião deste Cão, um dos blended whiskies que mais sofre com isso é o White Horse.

Ele foi um dos primeiros whiskies escoceses a entrar no mercado nacional. Era um dos preferidos do distinto cavalheiro que inspirou o nome deste blog, Vinícius de Moraes, que o definia como um “cachorro engarrafado”. Com o tempo, entretanto, este whisky foi adquirindo fama ruim, até se tornar um verdadeiro vira-latas engarrafado.

O White Horse é um blended whisky sem idade definida, desenvolvido em meados do século dezenove por James Logan Mackie e seu sobrinho, Peter Jeffrey Mackie, proprietários da destilaria Lagavulin – uma das preferidas deste Cão que vos escreve- localizada em Islay, e famosa por seu whisky com aroma defumado e medicinal. Hoje, tanto a marca White Horse, quanto a destilaria Lagavulin pertencem à Diageo, que é também responsável pelos mundialmente famosos blends Johnnie Walker.

O White Horse é composto por grain whiskies e single malts, numa proporção de aproximadamente quarenta por cento. O seu malte base é o próprio Lagavulin. Além dele, há em sua composição maltes de Talisker, Craigellachie, Glen Elgin e Linkwood. O resultado é um whisky que preserva o aroma de fumaça do Lagavulin, mas bastante suavizado, com sabor doce e fácil de ser bebido.

Que?!
Que?!

 

Entre os prêmios internacionais recebidos por este humilde whisky, está o título de Blended Whisky do Ano, pela Whisky Bible de Jim Murray de 2007. Além dele, o White Horse recebeu medalha de ouro na International Wine and Spirits Competition de 2014 e medalha de prata pela Scotch Whisky Masters, em 2013. Nada mau para um vasilhame que custa menos do que um tanque de etanol.

No Brasil, uma garrafa do White Horse custa, em média, R$ 70,00 (setenta reais). E, por incrível que pareça, é realmente difícil encontrar algum whisky melhor nessa faixa de preço.

Ainda que ele esteja longe de ser o melhor blended whisky que este Cão já tomou, o White Horse é bastante consistente, considerando seu custo. É um blend despretensioso, que não quer provar nada. Aliás, ele sempre me gerou uma certa simpatia. Talvez seja por conta do uso do Lagavulin, ou talvez porque Vinícius de Moraes o apreciava. Como disse, um Vira-Lata Engarrafado, que está lá, e só precisa de um pouco de atenção para te surpreender.

WHITE HORSE

Tipo: Blended Whisky sem idade definida

Marca: White Horse

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: aroma de açúcar e malte, levemente frutado.

Sabor: sabor doce, frutado e levemente cítrico, com final defumado e persistente. O final é bem mais longo do que da maioria dos whiskies em sua faixa de preço.

Com água: a água ressalta o sabor doce, de açúcar, e reduz o final defumado.

Preço: R$ 70,00 (setenta reais)

Inu Engarrafado – Suntory Kakubin Yellow Label

Kakubin

Existem meses do ano que são mais difíceis que outros. Para mim, o pior, de longe, é junho. Há uma conjunção de eventos em junho que – em detrimento de minha saúde financeira – ocorrem todo ano. Em junho é o aniversário da minha melhor parte, a querida “Cã” Engarrafada. E do pai dela. E da mãe dela. E do meu pai. E como se tudo isso não bastasse, é também o mês do dia dos namorados. E apesar de ser casado já há alguns anos, não arrisco olvidar da data.

Por conta disso, junho é um mês em que o orçamento alcoólico deste Cão fica seriamente prejudicado. Mas isso não é motivo para pânico. Desespero não leva a lugar nenhum. O ser humano – e o canino – deve crescer na presença da adversidade. Adaptar-se. É como dizem por aí, se a vida te dá limões, faça um “whisky sour”.

Então se prepare. Minha insolvência será sua salvação. Este é o primeiro de uma série de três posts de utilidade pública. Falarei sobre três whiskies abaixo de R$ 100,00 (cem reais) que valem a pena.

O primeiro deles não é um whisky óbvio. E está na borderline de nosso limite financeiro. Ele possui uma das garrafas mais feias que eu já tive o desprazer de ver. Mas, apesar de tudo isso, ainda entrega muito por bem pouco. É o Suntory Kakubin Yellow Label, o blended whisky mais consumido no Japão.

Eu ia colocar mais uma foto do Kakubin, mas como a garrafa é muito feia, aí vai uma foto da Amber Heard em um Dodge Charger.
Eu ia colocar mais uma foto do Kakubin, mas como a garrafa é muito feia, aí vai uma foto da Amber Heard em um Dodge Charger.

O Kakubin foi criado em 1937 por Shinjiro Torii, fundador da Suntory e um dos empreendedores mais destemidos de toda história etílica oriental (mais sobre esse japonês maluco aqui). Foi um dos primeiros whiskies produzidos no Japão, e certamente é um dos mais longevos. Todos os single malts que entram em sua composição são de propriedade da Suntory, sendo que grande parte deles é maturada em barricas de carvalho japonês (mizunara).

Kakubin significa, em japonês, “garrafa quadrada”, em óbvia alusão a seu frasco que, além de ser retangular (e não quadrado), imita o casco de uma tartaruga, símbolo de sorte em seu país de origem. Ou seja, além de ter uma garrafa horrorosa, o whisky é batizado em homenagem a ela. Por algo que ela não é. É como se o próximo carro da Alfa Romeo fosse batizado de “um triciclo bonitinho, mas bem ordinário”, em italiano.

Em 2009 a Suntory realizou uma campanha publicitária de forma a associar o Kakubin ao drink highball (produzido com whisky, limão, refrigerante e gelo, ou ginger ale), principalmente em vista de uma sensível redução no consumo de whisky no Japão. Segundo a Suntory, o highball é um drink refrescante, que combina com climas mais quentes. Este Cão, que mora no Brasil, não faz a menor ideia do que a Suntory está falando. Mas a campanha deu certo, e as vendas do Kakubin voltaram a crescer desde então. E isso é bom, porque ele é um whisky bem decente.

Blobfish: também mais bonito do que a garrafa do Kakubin
Blobfish: também mais bonito do que a garrafa do Kakubin

Para ser franco, o Kakubin não é o melhor whisky que já tomei. Mas ele é certamente um dos melhores – senão o melhor – em sua faixa de preço. Uma garrafa custa, em média, R$ 95,00 (noventa e cinco reais). Isso é R$ 30,00 (trinta reais) a menos que um Johnnie Walker Black Label, e uns R$ 10,00 (dez reais) a menos que o Jack nº 7. Sério, isso equivale a quase oito ações da Petrobrás! É uma pechincha. E vamos combinar que não é fácil encontrar algo que custe menos do que oito ações da Petrobrás no mundo dos whiskies.

Além do valor, o Kakubin tem outra vantagem, mas que não é um mérito dele. Ele é levado a sério. Poucos whiskies em sua faixa de preço possuem essa prerrogativa. Em geral, blends mais baratos tendem a sofrer com uma aura de preconceito a seu redor, como é o caso do White Horse ou do Dewar’s, por exemplo. Mas o Kakubin não. O Kakubin é hipster. Ele é a comprovação do seu bom gosto e sofisticação até períodos de adversidade. Mesmo quando você estiver usando calça vermelha e echarpe.

Sinceramente, é difícil não ter simpatia por esse whisky. Ele é discutivelmente melhor do que a maioria de seus concorrentes, e não tenta parecer nada além do que realmente é. Um blend barato e bem honesto. Se você é um espírito aventureiro, mas com orçamento apertado, ignore a garrafa feia e vá em frente. O Kakubin é o seu whisky.

SUNTORY KAKUBIN

Tipo: Blended Whisky sem idade definida

Marca: Suntory

País: Japão

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: floral e doce, leve aroma de pera. O alcool fica bastante aparente

Sabor: leve, muito floral e doce, com final médio e picante.

Com água: a água ameniza o sabor de alcool, mas reduz também o sabor doce. O whisky fica mais floral, e bem menos picante.

Preço: Em torno de R$ 95,00 (noventa e cinco reais)

 

Sobre Expectativa – Chivas Regal Extra

Expectativa é tudo na vida. Mantenha suas expectativas altas, e há grandes chances de você se decepcionar. E a decepção pode vir de inúmeras formas, e nos momentos mais inoportunos. Desde a surpresa em encontrar feijão no congelador ao abrir um pote de sorvete, até assistir “De Olhos Bem Fechados” depois de ver “Nascido para Matar”.

Aliás, eu nunca entendi isso. Stanley Kubrick foi um dos cineastas mais brilhantes de todos os tempos. Quase todos os filmes dirigidos por ele tornaram-se clássicos instantâneos. Esse senhor foi responsável, na sequência, por Spartacus, Lolita, Doutor Fantástico, 2001, Laranja Mecânica, Barry Lyndon, O Iluminado e o filme que está entre o top cinco filmes deste Cão, Full Metal Jacket, ou, em português, Nascido para Matar. Um combo de oito filmes geniais, em menos de trinta anos.

Aí, misteriosamente, depois de 1987, Kubrick suspende sua carreira de diretor. O próximo filme sai apenas doze anos mais tarde, em 1999, e é “De Olhos Bem Fechados”.

Veja bem, eu não sei o que Stanley fez durante doze anos da sua vida. Mas eu tenho certeza que não foi pensar em seu próximo filme. Não me leve a mal. “De Olhos Bem Fechados” ainda é um ótimo filme, mas precisa comer muito feijão – de preferência, não congelado – para chegar perto de algo como O Iluminado.

E nem me venha com esse papo de profundidade. Eu entendo que o filme possui inúmeras camadas, e que, por trás do que parece ser uma simples história de ciúmes entre duas pessoas, recheada de lascívia, há, na verdade, o retrato cruel de uma civilização cujo alicerce está fundado no excesso, na eterna insatisfação e na maneira, quase mecânica e estéril de tentar aplacar tal insatisfação. Mas pelo amor de Deus: isso mal se compara à genialidade do sargento Hartmann, ao chamar o soldado Leonard Lawrence de “pilha de cocô”.

Mas a decepção se deve, acima de tudo isso, ao fato de que, depois de doze anos de hiato, o público esperava o melhor filme de Kubrick. E acabou por receber um de seus piores.

Sabias palavras, caro Cão. Sabias palavras.
Sabias palavras, caro Cão. Sabias palavras.

Sabendo disso, quando fui convidado pela Chivas Regal Brasil e pela Single Malt Brasil para participar de um jantar harmonizado com o novo Chivas Extra no excelente José Bar & Restaurante, em São Paulo, tentei, o tanto quanto possível, reduzir minhas expectativas. É que o Extra é o primeiro lançamento da Chivas Regal em um período de mais de sete anos – o último foi o Chivas Regal 25 anos, em 2008. E convenhamos, sete anos é tempo suficiente para gerar uma expectativa enorme.

No entanto, ao contrário de minha experiência com Stanley Kubrick ou com potes de sorvete no freezer, o Chivas Extra me surpreendeu muito positivamente.

Desenvolvido pelo master blender Colin Scott, o Chivas Extra é um blended whisky sem idade definida, composto por single malts e grain whiskies. Sua base é o Strathisla, importante destilaria pertencente ao grupo Chivas, e considerada o lar espiritual da marca. Além dele, o Extra leva uma boa quantidade de single malt (não divulgado) maturado em barricas que antes continham vinho xerez espanhol.  De acordo com Colin, o Extra é “uma inacreditavelmente rica e distinta interpretação do estilo próprio da Chivas”.

Aliás, esta é uma diferença importante entre o Extra e seus irmãos. A maioria dos blended whiskies é composta por single malts maturados em barricas de ex-bourbon e ex-xerez, além de whisky de grão. Entretanto, geralmente, a proporção tende mais para o bourbon do que para o xerez. O caso do Chivas Extra é o oposto. A maior parte de seus maltes é maturada em barricas que antes continham xerez oloroso. O uso deste tipo de barrica confere ao Extra sabores de frutas cristalizadas e ameixa, além de gengibre e chocolate ao leite, incomum nos demais whiskies da linha, e que certamente agradará os paladares que apreciam blends mais encorpados.

Experimente logo, Pilha de Cocô!
Você bebeu a garrafa inteira, Pilha?!

O Chivas Regal Extra chegará às lojas e bares brasileiros a partir de junho deste ano. Seu preço proposto é de R$ 150,00 (cento e cinquenta reais), portanto, R$ 30,00 a mais do que o Chivas 12 anos. Na opinião deste Cão, essa é uma diferença que vale a pena. Enquanto que o 12 anos é um whisky leve e floral, com final curto e adocicado, o Chivas Extra é mais encorpado, com final bem mais longo e apimentado que seu irmão.

Assim, fique de olho quando o Chivas Extra chegar às prateleiras em Junho. Poucas vezes você terá experimentado um blended whisky nessa faixa de preço e com essa qualidade. Eu garanto: não será com ele que você encontrará feijão no pote de sorvete.

CHIVAS REGAL EXTRA

Tipo: Blended Whisky sem idade definida

Marca: Chivas Regal

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: aroma floral, de marzipã e frutas secas.

Sabor: de frutas cristalizadas e ameixa, com marzipã, gengibre e chocolate ao leite. Final longo e bastante picante, que evidencia o gengibre e o chocolate.

Com água: Com agua, o sabor picante fica bem menos evidente, e o aroma floral se ressalta.

Preço: R$ 150,00 (cento e cinquenta reais)

Sobre Excessos – Ardbeg Ten

ardbeg ten

Existe uma tênue linha entre a insanidade e a genialidade. Um dos maiores exemplos disso foi Donatien Alphonese François, mais conhecido como o Marquês de Sade. Donatien nasceu no século dezesseis, quando normalmente as pessoas – especialmente os aristocratas – eram muito mais do que uma coisa só. Além de nobre, o Marques de Sade era um político revolucionário, escritor e filósofo. Enfim, um cara versátil. Tipo uma modelo-atriz-cantora-e-apresentadora dos dias de hoje.

Mas Donatien também era um libertino sexual. Um homem com sérios problemas de respeito com o sexo feminino – e muitas vezes, com o masculino também – e com os limites do que seria uma prática sexual saudável. E saudável, aqui, é para ser interpretado num sentido bem amplo. O cara era tão doente, tão doente, que criaram uma palavra para ele: sadismo.

A combinação de suas preferências sexuais com opiniões políticas extremas renderam ao marquês diversos encarceramentos, somando vinte e três anos de prisão. No tempo livre entre revoluções políticas, escândalos sociais e práticas sexuais bizarras, Donatien escrevia. E bem. Uma das citações que mais gosto do marquês é uma provocação a Sêneca: “tudo é bom quando é excessivo”.

Incrível como ele conseguia aprontar, mesmo com esse cabelinho ridículo.
Incrível como ele conseguia aprontar, mesmo com esse cabelinho ridículo.

Mas vamos admitir aqui que nem tudo em excesso é bom. Trabalho, por exemplo. Fome. Sono. Festas familiares. Quanto menos, melhor. Mas para o mundo dos whiskies, a frase funciona perfeitamente. Principalmente quando falamos dos single malts defumados. E ao falar deles, é impossível não citar a Ardbeg

A história da Ardbeg é muito semelhante àquela da maioria das pequenas destilarias escocesas. Curtos períodos de inatividade permeados por bons períodos de produção. Mas em 1997, durante um período de inércia, a história da fábrica se distanciou de suas irmãs. Ela foi comprada pela Glenmorangie PLC, na época, uma subsidiária da  Macdonald & Muir, e vendida em 2004 a Louis Vuitton Moët-Hennessy.

A aquisição trouxe tudo que faltava para que a Ardbeg se destacasse no mundo dos single malts: dinheiro e insanidade, quase em excesso. O capital veio de sua companhia mãe. Já a loucura partiu de seu novo head distiller, Bill Lumsden, o mesmo químico maluco que transformou a Glenmorangie em uma das destilarias mais inovadoras da Escócia.

No caso da Ardbeg, foram lançados whiskies quase sem maturação (como o Very Young), com pouca maturação (Still Very Young), com um pouquinho mais de maturação (Almost There) e completamente maturados (Renaissance, que mais tarde tornou-se o Ardbeg Ten), assim como whiskies insanamente defumados (Supernova) ou quase nada defumados (Blasda). Foram feitas também edições limitadas, como o Alligator, Airigh Nam Beist, Auriverdes e o Galileo. Este último, como celebração de mais uma bizarra conquista de Bill: conseguir que ampolas da Ardbeg fossem levadas à Estação Espacial Internacional, para estudo sobre os efeitos da gravidade zero sobre o destilado.

Eu sei, já usei essa foto do Bill antes. Mas não dá para cansar dela.
Eu sei, já usei essa foto do Bill antes. Mas não dá para cansar dela.

O portfólio permanente da Ardbeg, entretanto, permaneceu apenas com três expressões. O Uigedail, com graduação alcoólica de 54,2% e maturado em barricas de ex-bourbon e ex-jerez; o Corryvreckan – um dos whiskies mais queridos da mais querida “Cã” Engarrafada – com 57% de graduação alcoólica, maturado em barricas virgens de carvalho francês e barricas de carvalho americano de ex Bourbon; e o Ardbeg Ten, com 46% de graduação alcoólica, e maturado exclusivamente em barricas de ex-bourbon.

No Brasil, a única versão disponível é o Ardbeg 10 anos. Ainda que mais leve que as outras expressões, o Ardbeg Ten poderia utilizar o mesmo adjetivo que definiria o Marquês de Sade: ousado. Ele possui aroma extremamente defumado, com sabor frutado, cítrico e de baunilha. O aroma de fumaça se deve à tradicional secagem da cevada maltada utilizando turfa (peat), bem como da água utilizada no processo produtivo, cuja nascente corre por campos de turfa.

Uma curiosidade técnica: os alambiques de segunda destilação possuem algo único na região de Islay: um purificador de cobre, que torna o destilado mais leve, devolvendo ao alambique as partículas mais pesadas, provenientes da segunda destilação. É como se o whisky fosse duas vezes e meia destilado. Esse processo adiciona complexidade ao single malt, lhe proporcionando sabor frutado. Como não encontrei nenhuma imagem boa, aqui vai uma bela obra plástica desenhada por este Cão, ilustrando o mecanismo, para seu regozijo:

 

Estou feliz porque estou cheio de whisky!
Estou feliz porque estou cheio de whisky!

Além disso, nenhum Ardbeg é filtrado a frio. Este é um método utilizado por muitas destilarias para remover resíduos provenientes do processo de destilação, que tornariam a aparência do destilado levemente opaca quando combinados com água ou gelo. De acordo com a Ardbeg, este processo removeria parte das partículas responsáveis pelo sabor defumado, e, portanto, prejudicaria o caráter único de seus whiskies.

O Ardbeg 10 recebeu prêmio de whisky do ano pela Jim Murray Whisky Bible de 2008, uma das mais importantes publicações do ramo. De acordo com o especialista “Se a perfeição no palato existe, ela se chama Ardbeg”. As expressões Uigedail e Supernova receberam o mesmo título nos dois anos seguintes. O Ardbeg 10 também foi premiado em 2014 com duas medalhas de prata, pela World Whisky Awards e International Whine & Spirit Competition.

Se você é uma pessoa corajosa, ou absolutamente fascinada por whiskies defumados, como é o caso deste Cão, o Ardbeg Ten é uma aquisição obrigatória. Mas se não for também, não tem problema. Experimente mesmo assim. É garantia que você se sentirá quase no espaço. Só tome cuidado. Vai ser difícil parar. E como diria Sêneca, nem tudo em excesso é bom.

ARDBEG TEN

Tipo: Single Malt 10 anos

Destilaria: Ardbeg

Região: Islay

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: Predominantemente defumado, com leve aroma cítrico e de baunilha.

Sabor: sabor cítrico e adocicado no começo, que progressivamente vai se tornando mais iodado e defumado. Final apimentado e seco

Com água: o aroma defumado fica mais suave e o sabores frutado e de baunilha se evidenciam. O final fica menos apimentado.

 Preço: R$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta reais)

O Cão Sofisticado – Royal Salute 38 anos Stone of Destiny

É engraçado que, apesar de estarmos aqui na Terra há centenas de milhares de anos, foi somente lá pelos últimos quinhentos que resolvemos descobrir e inventar quase tudo aquilo de importante que existe. Das viagens interoceânicas à estação espacial internacional. Cada século, cada década e cada ano tiveram sua importância única na humanidade. Bom, exceto pela década de oitenta. A década de oitenta foi um erro.

Para você ter uma ideia de como a humanidade evoluiu, destacarei apenas os últimos trinta e oito anos. Trinta e oito anos não parece ser muito. E, na verdade, para uma pessoa, não é. Se você nasceu na década de setenta, não se considere velho. Para um indivíduo saudável e bem cuidado, trinta e oito anos não faz a menor diferença. A Kate Beckinsale está aí para comprovar isso.

Mas trinta e oito anos para a humanidade é bastante tempo. Voltemos a 1977. Se você é fã de flashbacks, prepare-se para deleitar-se.

Há aproximadamente quatro décadas, nascia em Porto Rico uma banda que mudou o conceito de pop latino. Os Menudos. E ao mesmo tempo que a Apple lançava o mais moderno computador compacto do mundo, o Apple II, a indústria automobilística nacional inaugurava o saudoso Ford Corcel II, com o slogan “a nova geração do automóvel”. Enquanto isso, no cinema, o jovem George Lucas exibia o primeiro filme da franquia Star Wars. Mas em 1977 Ayrton Senna já corria. Foi naquele ano que venceu o campeonato sul-americano. O campeonato sul americano… de kart. 

Clássico
Clássico

Então, quando soube que iria experimentar um whisky com trinta e oito anos de maturação mínima, fiquei nervoso. E trinta e oito contados de seu lançamento, em 2005. Eu não era nem um embrião quando os grãos de cevada do whisky mais jovem daquele blend começaram a germinar. Quando nasci, os single malts que o compõe já descansavam por certo tempo em suas respectivas barricas, em respeitadíssimas destilarias escocesas, como Strathisla e Glenlivet. Aquele era o Royal Salute 38 anos Stone of Destiny.

O Stone of Destiny foi lançado pela Royal Salute, marca de whiskys super-premium da Chivas Regal, em 2005. E como quase todo blended whisky, sua composição é um segredo. Entretanto, pode-se especular que seu principal malte seja o Strathisla. Considerando sua idade, imaginava que o sabor da madeira tivesse tomado por completo o whisky. Mas não é bem o caso. O Royal Salute 38 anos é equilibradíssimo, com aroma bastante floral, e sabor de caramelo e frutas secas. O álcool está lá, mas em perfeita harmonia. Não há nada nele fora do lugar.

O marketing por trás deste blend é interessante. Seu nome presta homenagem à Stone of Destiny, também conhecida como Pedra da Coroação, um bloco de arenito, usado por muitos séculos durante as cerimônias de coroação dos monarcas escoceses, e, mais tarde, da Grã-Bretanha. A garrafa de cerâmica – feita a mão pela Révol, na França – possui insígnia folhada a ouro, e presta homenagem àquela pedra. E vá por mim, a garrafa é bem mais bonita do que a Stone of Destiny original.

Decepção
Decepção

O Royal Salute 38 anos é um blended whisky excepcional. É complexo, ainda que muito equilibrado. Da apresentação da garrafa ao sabor residual, beira a perfeição. Além disso, é um whisky que certamente agradará a grande maioria dos consumidores que tiverem a oportunidade de prova-lo. O único problema é seu preço.

A garrafa de 750ml do Stone of Destiny custa, nas lojas brasileiras, em torno de R$ 7.000,00 (sete mil reais – revisto em 2020). É bem caro. Com esse dinheiro é possível comprar oito garrafas do Royal Salute 21 anos, que já não é barato. Ou mais de doze Chivas Regal 18 anos. Ou – se você tiver bastante espaço na sua estante – aproximadamente trinta unidades do Chivas Regal 12 anos. O que significa, numa conta porca, que cada dose do Stone of Destiny corresponde a mais de uma garrafa de Chivas 12!

Apesar de ser fantástico, é difícil avaliar se o Stone of Destiny realmente vale a pena. Seu preço o coloca em um patamar em que a decisão de tê-lo passa a não ser mais racional. Ele faz parte daquele universo de produtos exclusivíssimos, expostos no centro das vitrines. Para um colecionador, simplesmente tê-lo é quase tão bom quanto prová-lo. O Stone of Destiny é pura demonstração de poder pela Royal Salute. Seu objetivo principal não é ser bebido, ainda que esse seja o meio para que ele atinja seu real propósito: mostrar quão perto esta marca pode chegar da perfeição.

ROYAL SALUTE 38 ANOS STONE OF DESTINY

Tipo: Blended Whisky 38 anos

Marca: Royal Salute

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Frutas secas, caramelo, panetone. Leve aroma de couro.

Sabor: Frutado, e ao mesmo tempo amargo, que progressivamente vai se tornando mais doce. Sabores de açúcar queimado, caramelo, frutas secas e cacau. Final longo, picante, e com leve baunilha.

Com água: adicionando-se um pouco de água, o sabor frutado fica ainda mais evidente, inclusive no sabor residual. O amargor diminui, assim como o gosto residual de baunilha.

Preço: 750ml – em torno de R$ 3.500,00 (três mil e quinhentos reais) / 500ml – em torno de US$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta dólares).