Sobre Cães e Profecias – Jura Prophecy

Jura Prophecy menor

Essa semana estava batendo um papo de bar com um amigo. A certa altura da conversa, ele me disse que, apesar de gostar de ter nascido ser humano, se pudesse escolher, preferia ter vindo a este mundo como cachorro de madame. Vendo meu semblante curioso, ele passou então a enumerar os motivos. Cachorro de madame não precisa pagar conta nenhuma. Além disso, ganha carinho o dia inteiro e – quase – todas as necessidades são supridas sem nem precisar pedir. Tudo que ele precisa fazer é existir.

Quando cheguei em casa, continuei pensando sobre isso. Eu nunca quis ser cachorro de madame. Então resolvi fazer uma lista de prós e contras de encarnar em um canídeo desses. Algumas vantagens são óbvias, sendo que a maior delas é que eu poderia andar nu em qualquer lugar, e ninguém acharia estranho ou me prenderia. E convenhamos, este é um forte ponto positivo.

Mas não podemos olvidar de desvantagens claras. Uma delas é que eu, no melhor dos cenários, tomaria banho duas vezes por semana. E se eu tivesse o azar de encarnar em um Lulu da Pomerânia ou um Yorkshire, que são bem peludos, teria que suportar meu cheiro a vida toda calado. E para piorar, meu olfato seria hiper-mega apurado, então eu viveria uma existência inteira enojado com meu próprio odor.

E ainda correria o risco de ficar assim.
E ainda correria o risco de ficar assim.

Mas o pior ponto negativo, de longe, é que eu não escolheria o que comer. Ou pior, comeria sempre o mesmo prato. O que tem pro almoço? Ração. E para o jantar? Ração. Amanhã? Ração também. Eu jamais conseguiria comer sempre a mesma coisa. Ou beber. Uma das únicas exceções a isso, seriam os whiskys da destilaria Jura. Eu facilmente tomaria só Juras pro resto da minha existência malcheirosa.

É que a Jura é uma das destilarias mais polivalentes da Escócia. Todos os whiskys dela são, no mínimo, bons e há um para cada paladar. O Jura Origin é leve e delicado, enquanto o Duriach’s Own, é leve e rico. O Superstition é um pouco defumado e leve, e o Prophecy, bastante defumado e rico. E ainda tem edições limitadas, como o Turas-Mara, que é quase melhor do que andar nu. Mas como é um produto exclusivo de duty-frees estrangeiros, vou me concentrar no meu segundo preferido. O Jura Prophecy.

A destilaria Jura fica localizada na ilha homônima, a oeste da Escócia e ao norte de Islay. A ilha possui somente uma estrada, e a única destilaria é a Jura. Foi nessa ilha que George Orwell escreveu “1984”, um de seus romances mais famosos. A ilha, atualmente, possui apenas pouco mais de duzentos habitantes, sendo que a maioria trabalha na própria destilaria. No entanto, a população de cervos da ilha ultrapassa a marca de cinco mil.

Festa open bar de Jura, em Jura.
Festa open bar de Jura, em Jura.

O Prophecy foi batizado em homenagem a um dos mais famosos mitos daquela ilha – a queda do clã Campbell. De acordo com a lenda, em 1700 o clã expulsou da ilha uma profeta que havia previsto que, em um futuro distante, o último Campbell abandonaria a ilha sem um olho, em uma carroça puxada por um cavalo branco. E em 1938, o último membro daquela família teria realmente fugido da ilha, após perder o olho durante a primeira guerra mundial. E seus pertences teriam sido levados em uma carroça puxada por um cavalo branco solitário.

O Jura Prophecy é uma edição limitada anual. Ou seja, apenas um número determinado de garrafas é produzido por ano (em torno de dez mil). Seu malte é secado utilizando um forno abastecido por turfa, em um processo muito semelhante àquele usado pela maioria das destilarias de Islay. Isso confere ao whisky um aroma claramente defumado.

Parte da maturação do Prophecy ocorre em barris fabricados utilizando carvalho da região de Limousin, na França, considerado um dos melhores e mais caros carvalhos do mundo. Depois, o whisky é transferido para grandes barricas que antes maturaram xerez (Oloroso Sherry Butts), onde sofre uma segunda maturação.  Após o tempo de “amadurecimento” – que não é revelado pela destilaria – ele é engarrafado com graduação alcoólica de 46%.

O Prophecy ganhou medalha de ouro na International Spirits Challenge de 2013, platina pelo Beverage Testing Institute, em 2012 e prata na Internationa Wine and Spirits Awards, também em 2012.

No Brasil, uma garrafa de Jura Prophecy sai, em média, por R$ 420,00 (quatrocentos e vinte). É a mesma faixa de preço dos Laphroaig 10 anos e Quarter Cask, e do Ardbeg 10 anos, todos single malts com aroma defumado. Escolher um deles é questão somente de preferência. Mas se você for um cachorro de madame, certamente esta não é uma preocupação.

JURA PROPHECY

Tipo: Single Malt sem idade definida

Destilaria: Jura

País/Região: Islands – Hebrides

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: Defumado e levemente frutado.

Sabor: O sabor acompanha o aroma, mas é mais doce. É mais defumado do que medicinal. Existe um certo sabor de manteiga no fundo, que permanece juntamente com o gosto residual de fumaça.

Com água: A água torna tudo ainda mais doce. O sabor defumado fica menos evidente, e os demais sabores se sobressaem.

Preço: em torno de R$ 420,00

 

Inu Engarrafado – Yamazaki 12 anos

Yamazaki 12

A combinação entre ambição e excesso de autoconfiança é perigosa. A história está cheia de pessoas com grandes sonhos e ideias que mudariam o mundo. Só que não. Um grande exemplo é o cara que inventou o sutiã masculino. Mas o meu preferido é o Sr. Dean Kamen. Já ouviu falar dele? Pois é.

Sr. Kamen foi o inventor de um produto que, segundo informações que teriam vazado antes de seu lançamento em 2001, revolucionaria a história do transporte de pessoas. Algo que mudaria para sempre a humanidade e a forma com que ela se locomove. Segundo Kamen, os dias do carro estavam contados. Aquela invenção seria para o automóvel, o que o automóvel fora para o cavalo.

Para piorar, em um claro momento de insanidade corporativa coletiva, aqueles que tiveram acesso à invenção estavam maravilhados. Steve Jobs disse que seria maior do que o computador. John Doerr (venture capitalist por trás da Netscape e Amazon), por sua vez, disse que seria ainda mais importante do que a internet.

E em 2002, o grande visionário Dean Kamen finalmente decepcionou o mundo com sua invenção: o Segway, um diciclo elétrico, capaz de transportar uma pessoa em pé, a mais ou menos treze quilômetros por hora. Na cabeça de Kamen, que claramente apoiava o sedentarismo, as pessoas não precisariam mais caminhar. Bastava subirem em seus Segways, e inclinarem-se na direção que queriam ir. Era intuitivo e simples.

George Bush, sendo intuitivo com o Segway (Reuters)
George Bush, sendo intuitivo com o Segway (Reuters)

O plano de Kamen era vender, no mínimo, cinquenta mil Segways por ano. E em 2003 ele havia vendido menos de seis mil. Há várias razões que levaram essa maravilha tecnológica a virar o meio de transporte preferido dos seguranças de shopping center. E só deles. Dentre os motivos estavam seu tamanho, seu peso (mais que trinta e cinco quilos!), sua praticidade discutível e o preço inacreditável de quatro mil e novecentos dólares. Mas a cereja do bolo é que, nos modelos mais antigos, as pessoas caíam quando a bateria estava fraca.

Entretanto, muitas vezes, a combinação entre ambição e a autoconfiança funcionam. A Yamazaki é um exemplo disso. Ela foi a primeira destilaria de whisky do Japão. Seu fundador, Shinjiro Torii, trabalhava com importação e produção de vinhos. Na década de 20, Torii, que era um cara modesto e pouquíssimo ambicioso, resolveu que abriria a primeira destilaria do país.

Para tanto, Torii contratou o Sr. Masataka Taketsuru, engenheiro químico japonês que passara três anos trabalhando em diversas destilarias escocesas, dentre elas Longmorn e Hazelburn. Taketsuru havia recentemente retornado ao Japão, com muito conhecimento e uma esposa – a Sra. Jessie Roberta “Rita” Cowan, uma dama escocesa que conheceu durante seu período no país, e hoje é considerada uma das mulheres mais influentes na história do whisky.

Taketsuru e Rita, com a última moda em trajes de banho dos anos 30 (fonte: Nikka Whisky)
Taketsuru e Rita, com a última moda em trajes de banho dos anos 30 (fonte: Nikka Whisky)

Torii e Taketsuru então começaram a procurar o local ideal para a fundação da destilaria. Enquanto Taketsuru achava que o melhor seria instalá-la na ilha de Hokkaido, que mantinha as condições climáticas mais semelhantes às escocesas, Torii preferia fundá-la no vilarejo de Yamazaki. Lá era o ponto de confluência dos rios Katsura, Uji e Kizu, local conhecido pela pureza da água, necessária para a produção da bebida. E hoje a destilaria chama-se Yamazaki e não Hokkaido, porque afinal, quem pagava as contas era Torii.

A Yamazaki, custeada pela empresa de Torii, Kotobukiya (que mais tarde mudou seu nome para Suntory), iniciou suas operações em 1924, com o Sr. Taketsuru na função de gerente da destilaria. O primeiro whisky – um blended que incluía o destilado próprio, bem como alguns whiskys escoceses – foi lançado em 1932. O Sr. Masataka Taketsuru abandonou seu posto na Yamazaki em 1934, e fundou a segunda mais importante destilaria do Japão, a Nikka, justamente na ilha de Hokkaido.

O Yamazaki 12 anos foi o primeiro single malt japonês, lançado em 1984, e até hoje é um sucesso mundial. Engarrafado a 43% de graduação alcóolica, seu destilado é maturado em barricas de carvalho americano, carvalho japonês – conhecido como Mizunara – e barricas usadas anteriormente para maturar xerez. Inclusive, a ideia de usar o carvalho Mizunara começou com a destilaria Yamazaki, em meados de 1940, quando por conta da Segunda Guerra Mundial, o fornecimento de barricas de xerez era insuficiente.

O Yamazaki 12 anos ganhou uma infinidade de prêmios internacionais. Seu primeiro foi uma medalha de ouro no International Spirits Competition – ISC de 2003, seguida por duplo ouro em 2009, pela San Francisco World Spirits Competition, e ouro novamente pela ISC e pela International Wine and Spirits Competition nos anos seguintes.

O  Yamazaki está na moda. Seu irmão, Yamazaki Sherry Cask, foi escolhido como whisky do ano de 2015 pela Whisky Bible do Jim Murray (o mesmo que elegeu o Glenmorangie Ealanta, da mesma destilaria do Quinta Ruban, como o melhor whisky do mundo em 2014), um senhor que só por milagre continua vivo – ele provou 4.700 whiskiess diferentes para escrever sua bíblia. Por conta disso, uma avalanche tresloucada de gente quase esgotou o estoque de Yamazaki no mundo. No Brasil, como o Sherry Cask não é comercializado, o fenômeno ocorreu justamente com o Yamazaki 12 anos. Assim, se encontrar um ao vivo, não perca a chance de experimentar.

YAMAZAKI 12 ANOS

Tipo: Single Malt 12 anos

Destilaria: Yamazaki

País/Região: Japão

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: Predominantemente de nozes e banana, com um leve toque cítrico.

Sabor: Frutado e doce, com nozes e frutas. Há também um forte sabor de baunilha, que fica ainda mais claro com o gosto residual.

Debutante – Glenfiddich 15 Anos

Quinze anos. Quinze anos, para uma pessoa, raramente é sinal de maturidade e equilíbrio. Com quinze anos, seu conceito de uma noite divertida provavelmente se aproximava de tentar fazer cara de mais velho para entrar em alguma balada ruim, com um RG falsificado, só para encontrar lá dentro outros adolescentes de quinze anos de idade, que também fizeram cara de mais velhos.

Se bem que, nessa nova geração, não sei não – acho que seria algo como fazer yoga e depois tomar um suco de clorofila detox gourmet, tirando uma foto com um pau de selfie. Ou, no caso de um menino, cortar o cabelo de uma forma ridícula, para depois cobri-lo com um fone de ouvido igualmente ridículo e tão grande que até parece que foi arrancado do teto de um helicóptero.

Porque tirar foto na frente do espelho já não era ridículo o suficiente.
Porque tirar foto na frente do espelho já não era ridículo o suficiente.

Mas, ao contrário do que acontece com seres humanos, no mundo do whisky, principalmente se estivermos falando de Glenfiddich, quinze anos é tempo suficiente para criar um produto incrível. Este é o caso do Glenfiddich 15 anos Solera. É um single malt que faz frente a whiskys muito mais maturados e elaborados, e até mesmo preda os irmãos mais velhos, como o 18 e o 21 anos, que já são excelentes.

O Glenfiddich 15 anos utiliza quatro barricas diferentes em seu processo de maturação. Primeiramente, parte do destilado passa quinze anos em barril de carvalho europeu que maturou vinho xerez. Enquanto isso, outra parte descansa, pelo mesmo tempo, em barrica de carvalho americano de ex-bourbon.

Agora a história fica realmente interessante:  o whisky maturado 15 anos em barril de ex-bourbon é transferido e decantado em barrica virgem de carvalho americano onde passa em média mais três meses. Esse curto espaço de tempo é suficiente para conferir ao destilado um certo punch de aromas e sabores, visto frequentemente em bourbons e Tennessee Whiskeys, como o Jack Daniel’s Single Barrel, mas pouquíssimo em single malts.

Só isso já seria o suficiente para tornar o Glenfiddich 15 anos um whisky bem interessante. Mas o processo continua: os destilados provenientes das 3 barricas – xerez, bourbon e carvalho virgem americano – são transferidos para o exclusivo Solera Vat, um tonel que mais parece um enorme ofurô com capacidade para 25 mil litros de single malt. Lá, o destilado recém retirado das barricas é mesclado com whisky que passara pelo mesmo processo de produção, mas descansava na Solera a mais tempo.

Porque tirar foto na frente do espelho já não era ridículo o suficiente.
Ofurô dos deuses

Por fim, após 24 horas, parte do liquido é transferido da Solera Vat para tonéis de casamento (Portuguese Oak Tuns) onde permanecem no mínimo mais 4 meses, para finalização e envase. Segundo a destilaria, a Solera nunca fica completamente vazia, e o processo de mescla ocorre todos os dias. Isso significa que ainda há parte do destilado que foi colocado lá em 1998, data de inauguração do recipiente. Naquele ano, os barris utilizados para preencher a Solera datavam de 1982. Ou seja: seu Glenfiddich 15 anos conterá whisky envelhecido por trinta e três anos!

Quando fui à Escócia em 2013, conheci a enorme Solera como parte do Pioneer’s Tour, promovido pela Glenfiddich. Aliás, o tour da destilaria foi um dos melhores que fiz por lá. Ela permite ao visitante experimentar cada parte do processo de produção do whisky, incluindo o mosto que dá origem ao destilado, antes e depois da fermentação. Não dá para dizer que é uma experiência deliciosa, ou até mesmo cheirosa, por assim dizer, mas é muito interessante. É também possível experimentar o destilado semenvelhecimento, para entender como a madeira influencia na criação dos aromas e sabores do whisky.

Parque de diversões (fonte: Glenfiddich Distillery)
Parque de diversões (fonte: Glenfiddich Distillery)

O Glenfiddich 15 anos recebeu medalha de prata no International Spirits Challenge de 2013, e medalha de ouro na International Wine and Spirits Competition de 2012, dois dos mais importantes concursos do mundo dos destilados.

Aqui no Brasil, um Glenfiddich 15 anos sai, em média, por R$ 300,00 (trezentos reais) – seu preço sugerido é R$ 280,00 (duzentos e oitenta reais). É uma diferença razoável para o Glenfiddich 12, que sai por R$ 180,00 (cento e oitenta reais). Mas a diferença não é apenas três anos – o processo de maturação do Glenfiddich 15 anos é muito mais elaborado, entregando um produto final mais complexo e diferenciado. É um investimento que realmente vale a pena. Aliás, se você é fã de bourbons, o Glenfiddich 15 anos provavelmente será seu single malt preferido por um bom tempo.

GLENFIDDICH 15 ANOS SOLERA

Tipo: Single Malt com idade definida – 15 anos

Destilaria: Glenfiddich

Região: Speyside

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: cítrico, frutado. Baunilha e caramelo.

Sabor: O sabor lembra bastante o de um Bourbon whiskey. É doce e frutado. Podemos notar caramelo (ou açúcar mascavo) e baunilha. O sabor amadeirado do xerez também está lá. Final longo e doce.

Com água: Com água, o sabor fica menos doce e mais amadeirado e cítrico. O final fica também mais amargo e cítrico.

Preço: em torno de R$ 300,00 (trezentos reais)

Glenfiddich15 1
A garrafa antiga

Glenmorangie Quinta Ruban

Glenmorangie Quinta Ruban

Às vezes fico pensando sobre invenções e descobertas improváveis. Uma das que mais me fascina é o sabonete. Em algum lugar da história, um fenício achou que seria uma ideia razoável ferver cinzas de madeira com banha de cabra. Sério – o cara ferveu banha de um caprino e resolveu que aquilo seria um produto apropriado para limpar o chão da casa dele. Ou pior ainda, o próprio corpo. Ele era absolutamente desajustado. E genial.

Tudo bem, o fogo foi uma descoberta incrível. O primeiro hominídeo que resolveu bater duas pedras, ou esfregar um graveto no outro era um cara iluminado. Ou estava terrivelmente entediado, porque não vejo nenhuma boa razão para passar horas batendo uma pedra na outra. Mas convenhamos, o fogo mal se compara à bizarra ideia do sabonete.

Outro aspecto destas descobertas que me intriga, principalmente no ramo “gastronômico”, por assim dizer, é a experimentação. Como saber se determinado alimento era gostoso ou não era? Ou pior, se seria venenoso? Você já alguma vez pensou na quantidade de gente que morreu tentando, sei lá, comer uma mamona ou uma perereca?

Um minuto de castigo para você que pensou besteira
Um minuto de castigo para você que pensou besteira

 A verdade é que essa questão da experimentação é uma das características que mais nos define como espécie. Sempre queremos inovar, arriscar, experimentar e testar. Nós não queremos sempre o mesmo, ainda que o mesmo já seja muito bom. Claro que podemos falhar miseravelmente, mas, as vezes, podemos também criar algo novo e incrível. E foi isso que a destilaria Glenmorangie, localizada no extermo norte da Escócia, fez.

Em meados de 1990, a destilaria resolveu experimentalmente transferir parte de seus whiskys que maturavam em barris de bourbon para barris que antes armazenaram vinho do porto. O resultado foi o Glenmorangie Port Wood Finish, lançando em 1994. O sucesso deste whisky foi tão grande que, em 1996, a Glenmorangie lançou mais dois rótulos: o Madeira Wood Finish e o Sherry Wood Finish, e introduziu no mercado o conceito de “extra maturation” ou “wood finish”, que é um processo tão simples quanto genial. Consiste em transferir um single malt já completamente maturado para um barril que antes envelhecia outro tipo de bebida, como xerez, ou os vinhos madeira, porto e sauterne. O whisky então passa por uma segunda maturação, adquirindo características também daquele segundo barril, e complementando o primeiro.

Continuando com a história, em 1998, Bill Lumsden, um cavalheiro tão desajustado e genial quanto o fenício do sabonete, assume o cargo de Head Distiller da Glenmorangie, bem como de outra destilaria do mesmo grupo, a Ardbeg. Com sua posse, foi dada aos fãs da Glenmorangie a oportunidade de escolher entre a falência financeira e a hepática. A destilaria lançou inúmeros novos rótulos, tais como Malaga Wood Finish, Margaux Wood Finish, 25 anos, Sonnalta PX, Astar, Finealta, Taghta, Artein, Companta, Ealanta (que ganhou o prêmio de melhor whisky do ano em 2014 pela Whisky Bilble de Jim Murray) e o Signet, que na minha opinião é a versão destilada da Scarlett Johansson.

Bill: um cara normal
Bill: um cara normal

Além disso, as expressões clássicas foram revistas, aprimoradas e renomeadas. E o precursor de tudo, o Port Wood Finish, passou a se chamar Quinta Ruban. Dentro do portfólio permanente da Glenmorangie que chega aqui no Brasil, que inclui o Original 10 anos, Nectar D’Or, Lasanta e Quinta Ruban, ele é o mais intenso.

O Glenmorangie Quinta Ruban é um whisky 12 anos, tendo passado dez anos em barris de ex-bourbon, produzidos com carvalho proveniente das montanhas de Ozark, no Missouri, e depois mais dois anos em barris de vinho do porto Ruby, de Portugal. Segundo a destilaria, nenhum barril é utilizado mais do que duas vezes, garantindo um produto consistente e saboroso. O resultado é um single malt complexo e persistente, que não é excessivamente doce, nem muito amargo, com aroma e sabor de menta e chocolate.

O Quinta Ruban ganhou medalha de prata na categoria Scotch Single Malts, pela International Spirits Challenge, um dos mais importantes concursos do ramo, além de dupla medalha de ouro na San Francisco World Spirits Award de 2013, nas categorias de Single Malt Scotch e 12-year Scotch.

No Brasil, uma garrafa de Glenmorangie Quinta Ruban sai, em média, por R$ 300,00 (trezentos reais), pouco mais que R$ 50,00 sobre o preço de seu irmão mais novo, o Glenmorangie Original, com 10 anos de maturação. Se você já conhece o Original, ou se quer experimentar um single malt diferente do clássico highland ou speyside, o Quinta Ruban é uma ótima escolha. Lembre-se, experimentar é fundamental para o ser humano.

GLENMORANGIE QUINTA RUBAN

Tipo: Single Malt 12 anos

Destilaria: Glenmorangie

Região: Highlands

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: Predominantemente de caramelo e menta. Um pouco de pimenta e nozes.

Sabor: Caramelo, menta e especiarias. O final é longo, e fica progressivamente mais doce, com sabor de chocolate e um pouco de baunilha.

Com água: adicionando-se agua, o sabor torna-se um pouco mais amargo, com aroma de nozes. O chocolate fica mais evidente no final, assim como a pimenta.

Preço: em torno de R$ 300,00

O Cãoboy – Jack Daniel’s Single Barrel

Jack Single Barrel

Chuck Norris é uma lenda. Já ouvi que uma vez, Chuck Norris levou uma facada no olho. A faca ficou cega. Dizem, inclusive, que o coração de Chuck Norris não bate, porque ninguém bate em Chuck Norris. E também que uma vez ele foi picado por uma cascavel e, após quatro dias de dor lancinante e agonia, a cobra morreu.

Chuck Norris está para as pessoas assim como Jack Daniel’s está para os whisk(e)ys. Diversos mitos envolvem o famoso destilado. Por exemplo, o significado do número sete no Jack Daniel’s Old No. 7. Dizem que sete era o número da sorte do Sr. Jack Daniel. Outra explicação é que, após algumas tentativas de produzir o whiskey, o que mais lhe agradou foi a amostra de número sete. Existe também a lenda – um tanto misógina – de que o Sr. Jack tinha várias namoradas, e a número sete era sua preferida.

Seja como for, hoje em dia, o Jack Daniel’s Old No. 7 é o rótulo individual de whisk(e)y mais vendido no mundo. A marca possui um séquito de fãs que só pode ser comparado ao da Harley Davidson. Só que você não precisa usar barba e jaqueta de couro. E o whiskey é bem mais barato do que uma chopper.

Dizem que Chuck Norris pilota uma Harley Davidson da Jack Daniel’s.
Dizem que Chuck Norris pilota uma Harley Davidson da Jack Daniel’s.

Atualmente, a Jack Daniel’s possui quatro rótulos diferentes em seu portfólio permanente:  Gentleman Jack, Jack Daniel’s Tennessee Honey, Jack Daniel’s Single Barrel e, claro, o clássico Jack Daniel’s Old No. 7. Além destes, a destilaria costuma lançar edições especiais, como o Unaged Rye, Silver Select, Sinatra’s Select, entre outros. Dentro do portfólio permanente, o mais interessante deles é, por uma boa margem de vantagem, o Jack Daniel’s Single Barrel.

O Jack Daniel’s Single Barrel passa pelo mesmo processo de fabricação dos demais rótulos da marca. Seu mosto é uma mistura de principalmente milho, um pouco de centeio e de cevada maltada, que, depois da fermentação, é destilado em destiladores de cobre. Após este processo, o produto passa por um filtro de carvão vegetal (maple tree) de três metros de profundidade. Isso é conhecido por lá como “charcoal mellowing”. Segundo a Jack Daniel’s, o processo filtra as impurezas e reduz o sabor dos grãos.

Por fim, o destilado é armazenado em barris de carvalho americano. Ao contrário do que ocorre com o whisky escocês, estes barris jamais foram usados para envelhecer qualquer tipo de bebida. Já o tempo de maturação é relativo. Conforme a Jack Daniel’s, cada barril possui seu próprio tempo para maturar o whiskey em seu interior. Assim, não é possível medir maturação em anos, meses ou dias. O que vale é o sabor do produto final.

Eu já ouvi essa história por aqui antes… Foi com o Macallan Ruby, talvez?

É depois da maturação que vem a diferença entre o Single Barrel e os demais Jack Daniel’s. Como você já deve ter presumido ao ler o nome, Single Barrel significa que cada garrafa vem de um único barril. De acordo com a destilaria, isso faz com que garrafas que sejam provenientes de barris diferentes tenham características levemente distintas, herdadas de seu respectivo barril. A Jack Daniel’s reserva apenas os melhores barris para receberem o rótulo de Jack Daniel’s Single Barrrel – em média, apenas um entre cem barris é escolhido. Além disso, o Single Barrel é diluído somente até atingir 46% de graduação alcoólica, 6% a mais do que o Jack Daniel’s tradicional.

O resultado final é quase um roundhouse kick do mundo etílico. Um produto muito mais complexo do que o famoso Old No. 7. Todos os aromas e sabores da versão clássica estão lá, mas o Single Barrel tem um final mais longo, e um leve aroma de caramelo queimado que combina perfeitamente com o sabor de baunilha emprestado pelos barris virgens.

Jack Daniel’s Single Barrel versão humana
Jack Daniel’s Single Barrel versão humana

O preço também é um pouco mais complexo. Uma garrafa do Single Barrel sai, em média, por R$ 250,00 (duzentos e cinquenta reais), quase o dobro de um Jack Daniel’s Old No. 7. Para este cão, que gosta de tomar sua bebida pura, o investimento compensa. Mas se a ideia for misturar – exceto no caso de um Old Fashioned, talvez? – um Jim Beam ou Wild Turkey já funcionam.

JACK DANIEL’S SINGLE BARREL

Tipo: Tennessee Whiskey

Destilaria: Jack Daniel’s

ABV: 47%

Notas de Prova:

Aroma: aroma de caramelo e amêndoas. Levemente apimentado.

Sabor: Mais amargo do que o Jack Daniel’s Old no.7, e mais picante. Sabores de caramelo e baunilha. Leve sabor de madeira queimada. Final longo com bastante baunilha.

Com água: Adicionando um pouco de água, o Single Barrel fica menos picante e ainda menos doce. O sabor da baunilha, no entanto, é ressaltado, e o final fica mais curto.

Preço médio: R$ 250,00

Sobre mulas e momentos efêmeros – Laphroaig Quarter Cask

Cateto Pos 4-1

Existem muitas coisas boas na vida que duram muito pouco, e quando menos percebemos, já acabaram.  O pôr do sol, um beijo, sua música preferida no rádio (exceto se você for fã de Emerson, Lake & Palmer), e o sossego entre comer um acarajé na praia e correr para um toalete. São momentos efêmeros, que logo se extinguem, mas nos trazem boas memórias sempre.

Activia em estado sólido
Activia em estado sólido

Isto se aplica perfeitamente também à minha primeira garrafa de Laphroaig Quarter Cask. Ela durou exatamente nove dias. De quarta-feira à outra sexta. Na época, havia experimentado poucos whiskies da região de Islay, famosa pelos maltes defumados, e não havia encontrado nada ainda que aliasse meu gosto por whiskies mais encorpados ao aroma de fumaça.

Como você já deve ter presumido – ou não – o nome quarter cask vêm dos barris utilizados para maturar o destilado. Após algum tempo nos barris tradicionais de ex-bourbon, o whisky é transferido para o chamado quarter cask, que é uma barrica menor. Isso aumenta a área de contato entre a madeira e o líquido, acelerando o processo de maturação.

Segundo a Laphroaig, a utilização dos quarter casks era frequente no final do século 19, quando o whisky era transportado no lombo de mulas ou cavalos. A bebida era colocada naquelas barricas para que pudesse ser carregado com facilidade pelos belos equinos. Além disso, conforme a própria Laphroaig, alguns historiadores sugerem que o transporte no lombo dos animais permitia que se utilizassem trilhas para gado, fugindo, assim, dos pedágios das estradas.

Tomei meus quarter casks. Rá.
Tomei meus quarter casks. Rá.

O Laphroaig tem sabor predominantemente defumado, proveniente do processo de secagem da cevada maltada. Após a germinação, os grãos de cevada são levados a uma espécie de forno, cujo combustível é turfa (peat). A cevada não entra em contato direto com a turfa que queima, mas com a fumaça quente. Esse processo é bastante utilizado pelas destilarias da região de Islay, onde localiza-se a Laphroaig, ainda que algumas destilarias de outras regiões também o façam.

O Quarter Cask é um whisky sem idade determinada (NAS). Aqui no Brasil custa por volta de R$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta reais). Por um preço semelhante, a Laphroaig oferece também o 10 anos, que tem graduação alcóolica menor – 43% contra 48% do Quarter Cask – aroma muito mais seco, e sabor mais leve. Mas se me permitem uma sugestão, eu não perderia tempo com o 10 anos, podendo escolher entre ele e o Quarter Cask. Aliás, se você prefere whiskys defumados mais “secos”, minha escolha seria o Ardbeg 10 anos.

O Quarter Cask recebeu prêmio de Ouro Líquido pela Jim Murray Whisky Bible de 2014, e medalhas de prata na International Wine & Spirit Competition e na San Francisco World Spirits Competition. Este canídeo concorda. Se você quer um whisky com claro aroma de fumaça, mas que, ao mesmo tempo, continua doce e frutado, o Quarter Cask é sua escolha. E se ainda não experimentou, vá em frente. Os melhores momentos são sempre os mais fugazes.

LAPHROAIG QUARTER CASK

Tipo: Single Malt sem idade definida

Destilaria: Laphroaig

Região: Islay

ABV: 48%

Notas de prova:

Aroma: predominantemente defumado, com aromas medicinais, de manteiga e de azeite.

Sabor: Mais doce do que o aroma, adocicado e frutado, com claro sabor de fumaça. Final também frutado e levemente salgado.

Com água: adicionando-se água o whisky perde parte do sabor doce, tornando-se mais salgado, com claro aroma e sabor defumados.

Preço: em torno de R$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta)

O Cão Sofisticado – Macallan Ruby

Macallan Ruby

Se você vive neste mundo, já deve ter assistido algum filme da franquia 007. E se você gosta de carros, é bem provável que saiba que a marca de automóveis preferida do agente secreto é a Aston Martin. Dos vinte e três filmes, a marca britânica aparece em dez. Onze se contarmos o filme que ainda sairá em 2015. Esse é provavelmente o product placement mais bem sucedido da história.

O carro é uma extensão da personalidade do agente secreto. Nada se compara, em termos de marketing indireto, com a relação entre James Bond e Aston Martin. E nem venha falar do náufrago e do Wilson. Eu não tenho vontade de comprar uma bola de vôlei pra me ferrar numa ilha deserta depois de sobreviver a um acidente aéreo gigante.

Objetivo de vida
Objetivo de vida

Talvez, muito talvez, uma comparação semelhante possa ser feita entre Steve McQueen e o Tag Heuer Monaco. Mas pensando bem, não. A Tag Heuer já era uma marca de relógios de renome internacional antes de Steve McQueen. Já a Aston Martin passou de uma marca de nicho de carros de luxo britânica para um produto mundialmente conhecido e desejado, comparável às Ferraris e Porsches. Grande parte deste sucesso se deve a James Bond.

Além da Aston Martin, o personagem de Ian Fleming ajudou a divulgar outros produtos. Como, por exemplo, os relógios Omega, o coquetel dry martini (batido, não mexido) e, finalmente, o whisky The Macallan. Só no filme Skyfall, a marca aparece ao menos três vezes. Uma garrafa do Sherry Oak pode ser vista na mesa de “M”, em uma cena. Em outra sequência, temos uma garrafa de Macallan 1962 Fine and Rare. Mas a melhor cena é quando ele está em uma bela ilha, ao lado de um oceano cristalino, bebendo Macallan e terrivelmente deprimido. Coitado do 007.

Mesmo antes do nascimento de Bond, a Macallan já era uma das destilarias mais caras e respeitadas da Escócia. Seus whiskys mais raros atingem valores astronômicos em leilões. É dela o recorde mundial do single malt mais caro vendido em um leilão – Um Macallan M, vendido por seiscentos e vinte e oito mil duzentos e cinco dólares. É isso mesmo, por extenso e em itálico, porque se eu escrevesse somente “U$ 628.205,00”, você leria rápido demais.

Ao invés do Macallan, talvez você prefira comprar um deste.
Ao invés do Macallan, talvez você prefira comprar um deste.

Para tomar um Macallan, no entanto, você não precisa de mais de meio milhão de dólares. No Brasil, um Macallan Amber, da série 1824, sai na média por uns R$ 350,00. Já não é uma pechincha.  Agora, se você estiver se sentindo generoso, o Macallan Ruby é para você.

Logo que desembarcou no Brasil, não era difícil ver essa versão por uns R$ 800,00. Mas por algum mistério inflacionário, em menos de um ano o preço subiu mais de 20%. É muitíssimo difícil encontrar uma garrafa hoje em dia por menos de R$ 1.000,00. Em 2025 – última data de atualização desta matéria – o whisky só se encontrava em casas de leilão especializadas, e por mais de 7 mil reais.

O Macallan Ruby não tem idade definida, e foi envelhecido exclusivamente em barris de carvalho europeu first-fill de ex-jerez. É um tipo de barril bem caro – a ponto de tornar o Ruby quase anti-econômico, razão pela qual foi cortado da 1824 Series, mesmo antes da aposentadoria dos demais rótulos da linha: Gold, Amber e Sienna.

A justificativa para o no-age-statement da Macallan é que escolhendo barris por suas características e coloração, e não simplesmente pela idade, seria possível criar um produto que fosse tão bom quanto aquele com idade definida, sem ter de passar tanto tempo dentro de um barril. A justificativa é boa. Porém, alguns anos depois, a marca decidiu substituir a linha por algumas mais – mas não muito – mais compreensíveis: Sherry Oak, Double Cask e Triple Cask.

Atualmente, o Ruby é item de colecionador, e um dos mais queridos The Macallan do passado. Talvez dividindo espaço com algum Aston Martin DB5, num museu do bom gosto britânico.

MACALLAN RUBY:

Tipo: Single Malt sem idade definida

Destilaria: The Macallan

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: Aroma de mel, um pouco cítrico e levemente picante. Pelo aroma, parece ter mais álcool do que realmente tem.

Sabor: mel, café e frutas vermelhas. O final é amargo, com sabor amadeirado, característico da maioria dos whiskys envelhecidos em barris de xerez. O aroma é mais doce do que o sabor.

Com água: adicionando-se agua, o sabor picante fica menos evidente, e sabores secundários, como frutas vermelhas e laranja ficam mais evidentes. É possível sentir um leve gosto de gengibre no final.

Preço: em torno de R$ 1.000,00

Como degustar seu whisky (em 5 passos)

Como você deve saber – ou não – o nome deste humilde blog vem de uma frase atribuída ao compositor, poeta, letrista, cantor e apreciador das boas coisas da vida, Vinícius de Moraes: “o whisky é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado”. Excelente.

Aliás, o mundo do whisky está cheio de frases de grandes nomes, como Bernard Shaw, Humphrey Bogart e Alexander Fleming – o descobridor da penicilina, não o criador de James Bond. Esse é o Ian Fleming. Ainda que é bem provável que este último também tenha dito algo inteligente sobre a bebida. Uma das minhas frases preferidas é de Churchill: “água não foi feita para ser bebida. Para que seja palatável, é necessário adicionar whisky. Em esforço consciente, aprendi a gostar dela” – o que nos leva finalmente ao tema deste texto de estréia: como degustar whisky. O itálico aqui é importante. Beber, você bebe como quiser – pode chuchar gelo, encher até o topo com agua de coco ou Red Bull – afinal, o whisky é seu, e você é livre.

É um país livre. Você pode até beber seu whisky assim.
É um país livre. Você pode até beber seu whisky assim.

A chave aqui é a palavra “degustar”. O verbete “Degustar” é normalmente muito utilizado para tornar algo simples incrivelmente complicado. Ou para cobrar um preço ridículo por uma porção ridiculamente pequena de alguma coisa trivial. No mundo das bebidas, entretanto, “degustar” significa, de forma simplificada, uma série de cuidados que alguém deve ter para que possa retirar o máximo das sensações de aroma e sabor – notas aromáticas – que aquela bebida pode proporcionar.

DEGUSTANDO WHISKY EM 5 PASSOS (MAIS OU MENOS) SIMPLES

Passo 1 de 5 – A escolha do copo.

Escolher o copo certo é importante. De longe, a melhor opção é o copo Glencairn. Ele foi especialmente desenvolvido pela Glencairn Crystal Limited para degustação de whisky, após extensa pesquisa com as mais importantes destilarias escocesas. As bordas estreitas e seu diâmetro ajudam a reunir os aromas do whisky, e seu tamanho (aproximadamente 175ml) é perfeito para uma dose da bebida.

Aliás, em 2018 lançamos uma versão gravada do Cão Engarrafado deste distinto copo, produzido pela própria Glencairn. Ele pode ser comprado clicando aqui.

Se você não quer comprar um glencairn, então sua próxima melhor opção é a taça ISO. Seu formato e tamanho foi padronizado pela International Organization of Standardization, e tem características muito semelhantes ao Glencairn, ainda que seja ligeiramente maior.

Taça ISO e Glancairn
Taça ISO e Glancairn

Não quer comprar nenhum copo? Tudo bem. Seja brasileiro, improvise. Um copo baixo, de preferência com bordas levemente curvas – conhecido como tumbler – ou um copo alto, não são opções terríveis, ainda que não sejam também ótimas. Mas vamos manter a frescura em um nível administrável aqui, ok?

Passo 2 de 5 – Aparência.

Despeje um pouco do whisky no copo. Um pouco é um conceito bastante relativo, mas recomendo que não supere uns 50ml, ou uma dose. Se você estiver usando uma taça ISO ou Glencairn, isso equivale – na maioria dos casos – a encher até atingir o ponto mais largo da taça.

Observe a bebida. Whiskys tendem a ter tonalidades diferentes. Muitos fatores influenciam na cor. Os principais são o tempo de maturação no barril e a espécie de barril em que ele foi maturado. Por exemplo, aqueles que passaram algum tempo em barris que antes envelheciam xerez, tendem a ter uma tonalidade mais avermelhada. Há ressalvas aqui. Muitos whiskies utilizam corante caramelo. Para ler mais sobre isso, clique aqui.

Passo 3 de 5 – Aroma.

Aproxime o copo do nariz. Cuidado: é um destilado. Não precisa dar uma fungada, apenas respire. Consegue sentir os aromas? Tente fazer ligações com aromas conhecidos por você. Aqui não existe certo e errado. O nariz, assim como o whisky, é seu. No começo, tente algo objetivo: floral, frutado, defumado etc. são bons palpites. Se estiver se sentindo sofisticado, mande algo na linha de “aroma de orvalho sobre uma fogueira recém extinta”. Fica bonito, né?

Existem diferentes formas de sentir o aroma do whisky. Algumas pessoas preferem virar o copo e tapar uma narina, e depois alternar, para que cada narina possa trabalhar sozinha. Outros preferem deixar a boca aberta, o que, faz com que os aromas percorram melhor sua cavidade nasal. A brincadeira aqui é encontrar o que funciona melhor para você.

The nose nosing.

Passo 4 de 5 – Sabor.

Hora de dar um gole. Experimente o whisky. Não vá virar como um cowboy no velho oeste, ou como se fosse um shot de tequila. Vá com calma, campeão. Saboreie. Quais gostos consegue distinguir? Por favor, evite sabores polêmicos, como “cera de ouvido”. Depois de algum treino, você provavelmente conseguirá distinguir alguns sabores mais específicos, como nozes, caramelo, chocolate, laranja, etc.

Ainda que existam termos mais precisos e universais para definir aromas e sabores – como, por exemplo, sulfúrico, ácido, cítrico, adocicado, amargo, amadeirado, turfado, picante, entre outros, você pode se sentir livre para folhear sua biblioteca aromática e encontrar a definição que mais lhe aprouver. É a sua língua e o seu nariz. Não se intimide. E vou falar aqui uma coisa óbvia. Normalmente, os sabores acompanham o aroma, ainda que muitas vezes um complemente o outro. Se você sentiu um aroma frutado, é bem provável que o sabor também seja.

Além disso, alguns sabores e aromas costumam ser mais facilmente perceptíveis do que outros. Um dos meus single malts preferidos, o Glenmorangie Signet, por exemplo, tem um sabor violento de chocolate. Já o Benromach 10 anos tem aroma defumado discreto. Exceto se você tiver um paladar bem treinado, somente conseguirá senti-los ao comparar com outro whisky que é pouquíssimo defumado, como, digamos, o Glenfiddich 12 anos. Aliás, aí está um conselho que deve ser usado com bom senso. Uma das melhores formas de identificar sabores diferentes em whiskys é com base em comparação.

Eu não vou beber uma dose. Eu vou beber seis. Isso se chama degustação, e é chique.

Você também notará que alguns são mais encorpados do que outros. Voltando ao exemplo acima, o Glenfiddich 12 anos é mais encorpado que o Signet. E os Macallan são mais encorpados que os dois.

Existem alguns gráficos que tentam classificar os whiskys com base em suas características sensoriais. O mais comum é um gráfico convencional, que os separa entre defumados ou delicado, encorpado ou leve. Outra forma de representação é o gráfico em forma de teia, desenvolvido pela Macallan, que engloba aromas mais específicos.

Passo 5 de 5 – Agua.

Pronto. Voltamos a Churchill. Adicione um pouco de água, e repita o processo todo. A quantidade de água depende de seu gosto, e também da graduação alcoólica do whisky. O ideal é que a quantidade seja suficiente para deixa-lo um pouco mais palatável, tirando parte do álcool do caminho, mas não bastante a ponto de deixar a bebida aguada ou muito diluída.

Passo 6 de 5 (bônus!) –  Compartilhe.

Calma, quando falo “compartilhe”, não é para colocar foto no Instagram e sua tia achar que você é alcoólatra. Reúna seus amigos e compartilhe suas impressões com eles. É possível que ele tenha notado um sabor que passou despercebido para você. Tomar whisky é sempre bom, mas é ainda melhor quando é uma experiência social. Aproveite.