Glenmorangie Quinta Ruban

Glenmorangie Quinta Ruban

Às vezes fico pensando sobre invenções e descobertas improváveis. Uma das que mais me fascina é o sabonete. Em algum lugar da história, um fenício achou que seria uma ideia razoável ferver cinzas de madeira com banha de cabra. Sério – o cara ferveu banha de um caprino e resolveu que aquilo seria um produto apropriado para limpar o chão da casa dele. Ou pior ainda, o próprio corpo. Ele era absolutamente desajustado. E genial.

Tudo bem, o fogo foi uma descoberta incrível. O primeiro hominídeo que resolveu bater duas pedras, ou esfregar um graveto no outro era um cara iluminado. Ou estava terrivelmente entediado, porque não vejo nenhuma boa razão para passar horas batendo uma pedra na outra. Mas convenhamos, o fogo mal se compara à bizarra ideia do sabonete.

Outro aspecto destas descobertas que me intriga, principalmente no ramo “gastronômico”, por assim dizer, é a experimentação. Como saber se determinado alimento era gostoso ou não era? Ou pior, se seria venenoso? Você já alguma vez pensou na quantidade de gente que morreu tentando, sei lá, comer uma mamona ou uma perereca?

Um minuto de castigo para você que pensou besteira
Um minuto de castigo para você que pensou besteira

 A verdade é que essa questão da experimentação é uma das características que mais nos define como espécie. Sempre queremos inovar, arriscar, experimentar e testar. Nós não queremos sempre o mesmo, ainda que o mesmo já seja muito bom. Claro que podemos falhar miseravelmente, mas, as vezes, podemos também criar algo novo e incrível. E foi isso que a destilaria Glenmorangie, localizada no extermo norte da Escócia, fez.

Em meados de 1990, a destilaria resolveu experimentalmente transferir parte de seus whiskys que maturavam em barris de bourbon para barris que antes armazenaram vinho do porto. O resultado foi o Glenmorangie Port Wood Finish, lançando em 1994. O sucesso deste whisky foi tão grande que, em 1996, a Glenmorangie lançou mais dois rótulos: o Madeira Wood Finish e o Sherry Wood Finish, e introduziu no mercado o conceito de “extra maturation” ou “wood finish”, que é um processo tão simples quanto genial. Consiste em transferir um single malt já completamente maturado para um barril que antes envelhecia outro tipo de bebida, como xerez, ou os vinhos madeira, porto e sauterne. O whisky então passa por uma segunda maturação, adquirindo características também daquele segundo barril, e complementando o primeiro.

Continuando com a história, em 1998, Bill Lumsden, um cavalheiro tão desajustado e genial quanto o fenício do sabonete, assume o cargo de Head Distiller da Glenmorangie, bem como de outra destilaria do mesmo grupo, a Ardbeg. Com sua posse, foi dada aos fãs da Glenmorangie a oportunidade de escolher entre a falência financeira e a hepática. A destilaria lançou inúmeros novos rótulos, tais como Malaga Wood Finish, Margaux Wood Finish, 25 anos, Sonnalta PX, Astar, Finealta, Taghta, Artein, Companta, Ealanta (que ganhou o prêmio de melhor whisky do ano em 2014 pela Whisky Bilble de Jim Murray) e o Signet, que na minha opinião é a versão destilada da Scarlett Johansson.

Bill: um cara normal
Bill: um cara normal

Além disso, as expressões clássicas foram revistas, aprimoradas e renomeadas. E o precursor de tudo, o Port Wood Finish, passou a se chamar Quinta Ruban. Dentro do portfólio permanente da Glenmorangie que chega aqui no Brasil, que inclui o Original 10 anos, Nectar D’Or, Lasanta e Quinta Ruban, ele é o mais intenso.

O Glenmorangie Quinta Ruban é um whisky 12 anos, tendo passado dez anos em barris de ex-bourbon, produzidos com carvalho proveniente das montanhas de Ozark, no Missouri, e depois mais dois anos em barris de vinho do porto Ruby, de Portugal. Segundo a destilaria, nenhum barril é utilizado mais do que duas vezes, garantindo um produto consistente e saboroso. O resultado é um single malt complexo e persistente, que não é excessivamente doce, nem muito amargo, com aroma e sabor de menta e chocolate.

O Quinta Ruban ganhou medalha de prata na categoria Scotch Single Malts, pela International Spirits Challenge, um dos mais importantes concursos do ramo, além de dupla medalha de ouro na San Francisco World Spirits Award de 2013, nas categorias de Single Malt Scotch e 12-year Scotch.

No Brasil, uma garrafa de Glenmorangie Quinta Ruban sai, em média, por R$ 300,00 (trezentos reais), pouco mais que R$ 50,00 sobre o preço de seu irmão mais novo, o Glenmorangie Original, com 10 anos de maturação. Se você já conhece o Original, ou se quer experimentar um single malt diferente do clássico highland ou speyside, o Quinta Ruban é uma ótima escolha. Lembre-se, experimentar é fundamental para o ser humano.

GLENMORANGIE QUINTA RUBAN

Tipo: Single Malt 12 anos

Destilaria: Glenmorangie

Região: Highlands

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: Predominantemente de caramelo e menta. Um pouco de pimenta e nozes.

Sabor: Caramelo, menta e especiarias. O final é longo, e fica progressivamente mais doce, com sabor de chocolate e um pouco de baunilha.

Com água: adicionando-se agua, o sabor torna-se um pouco mais amargo, com aroma de nozes. O chocolate fica mais evidente no final, assim como a pimenta.

Preço: em torno de R$ 300,00

17 thoughts on “Glenmorangie Quinta Ruban

  1. Achei interessante as historia antes de chegarmos no seu parecer sobre o Glenmorangie Quinta Ruban, bom… gostei do que disse a respeito dele, pois gostei da caixa da garrafa e tem um cor interessante, tirando o fato que so tenho whiskys 40% vol e esse tem 46%. Entao valeu a dica.

    1. Sérgio – se você achar que ele está forte demais, coloque um pouco de água. Mas vá por mim, pelo fato do sabor ser bem mais “encorpado” do que a maioria dos blended whiskies com 40% de ABV, você nem sentirá a diferença. Normalmente single malts são engarrafados com graduações alcoolicas mais altas mesmo, e você pode estar perdendo o melhor do show!

  2. Mauricio, boa noite! Só uma dúvida, o Quinta Ruban agora é um NAS? Porque no site da Single Malt BR, por exemplo, não vem mais escrita a datação de 12 anos no rótulo como antes!!! O whisky mudou? Abraço!

    1. Leonardo, até onde sei, o Quinta Ruban é 12 anos (dez anos em bourbon, dois anos em ex-porto). Notei que existe uma embalagem que realmente não informa a idade do whisky. Mas essa não é mais a embalagem atual. A nova é cor de cobre/marrom, e tem o age statement no adesivo de baixo.

      Não sei se essa garrafa nova já chegou ao Brasil. Eu, pelo menos, nunca vi por aqui.

  3. é um dos meus prediletos, e graças a sua crônica pude entender melhor e apreciar com mais cuidado, tudo muito bom e especial, abraços

  4. MORDIDO…. e desapontado ( primeira ( e última) viagem…

    Por favor, aos 67(…), nunca fui bebedor de whiskies. Geralmente aprecio à noite, um Porto ( Tawny Graham 12), Sherries ( Amontillado sêco e Pedro Ximenes doce) e Alsacianos ou alemães – Riesling). Quis conhecer este Ruban 12, pelos comentários. Comprei em casa tradicional dos Jardins ( R$ 421,00). Caixa é preta, diferente daquela da foto acima. Importado por Moët Henessy do Brasil , Garibaldi, RS. Garrafa 750 ml, 46%, parece autentica ( embaixo em alto relevo e “denteada” lê-se The Glenmorangie Distillerie !” – à esquerda dois números… ( lote ?) Mas preferi trazer dois comentários aparentemente reais ( em inglês) apanhados pela Web que expressam exatamente o que senti..
    Odor fortíssimo… de álcool e na boca mais álcool… e nada de “Porto”… dor de cabeça lado esquerdo imediata… com uma pitada de água melhorou quase nada… Isso então é um “single malt”. Bem… entendo que whisky não é para todos os gostos. Mas ler que esta bebida teria sido “premiada”… Seria possível que este “lote” estivesse com algum problema? (…)
    ………………
    “Massively disappointing. All I got on the nose was alcohol I couldn’t smell any port and I know what port smells and tastes like. Taste was very bitter and acidic. I couldn’t taste anything other than alcohol.
    it smells cheap and tastes horrible and gives you headaches right away . won’t ever buy it again.

    Parabéns pelo seu ótimo blog/site.

    1. Puxa, Fernando que pena. Sabe que para mim, da linha dos Glenmorangie com extra maturation de linha (Lasanta, Quinta e Nectar D’Or) o Quinta é o meu preferido. Mas concordo contigo: é um animal completamente diferente do vinho do porto. Na verdade, quase todos os whiskies maturados dessa forma. A base muda, o vinho é mais adocicado e – na maioria das vezes – licoroso. Então compreendo seu desapontamento. Tenho um amigo que teve a mesma impressão ao experimentar o talikser Port Ruighe, também maturado em porto.

      Existe uma variação real entre barricas de lotes diferentes. Eles são blendados, mas, no final do dia, o que conta é quais as barricas que a destilaria têm disponíveis para aquele determinado lote. A média pode ser mais alta ou mais baixa. Mas exceto por isso, acho difícil que o whisky tenha sido produzido com algum problema. Nosso ministério da agricultura faz testes bem rígidos para aprovar a potabilidade da bebida.

      O que imagino que possa ter acontecido é mau armazenamento por conta do lojista ou da logística. O whisky pode ter ficado em um armazém muito quente, ou passado muito tempo no sol. Isso altera o sabor bastante. Não sei se pode dar dor de cabeça – boa ideia para uma pesquisa.

  5. Eh… um whisky, mais do que bebido, precisa ser entendido. O interessante da Glemorangie, quando avaliados seus Original 10 anos e suas 3 finalizações da sequência (Lasanta, Nectar e Quinta), é a viagem que se faz num interessante mundo de aromas e sabores. O Quinta, dos três, parece ser o mais necessitado de tempo para ser entendido. No início, minha preferência era pelo Lasanta. Com o tempo, o Quinta tomou o seu lugar. O que mais me agrada nele é justamente o carinho doce que ele vai deixando no nosso paladar após a pancada inicial. Para mim, um whisky maravilhoso e que, como todo single malt, precisa ser entendido, mais do que simplesmente bebido.

    1. Tarcísio, perfeitas colocações. O Quinta é meu preferido do trio também. Mas nem sempre foi. No começo, era o Nectar D’Or. Mas ele foi ganhando espaço enquanto o Nectar parecia cada vez mais monotemático. É engraçado como o gosto vai evoluiundo e “maturando” com o consumo.

  6. Você entende e bebe muito bem… Escreve com inteligência, criatividade e leveza melhor ainda. Certamente inspirado por um deus de malte. Mal cheguei e pretendo voltar outras vezes. Parabéns pelo inestimável blog.

    1. Caramba, que baita elogio, Romero. Muito obrigado! E sim, os deuses do malte ajudam bastante. Especialmente quando bebo enquanto escrevo 😀

  7. Entendo muito mais de vinhos que de whiskies. Mas pelo pouco que entendo, considero o Quinta Ruban o melhor custo beneficio dentro do limite de 60 dolares que limito minhas compras. Delicioso.

    1. Viu que ele mudou de idade, Fabio? No UK, já está sendo comercializada uma garrafa com 14 anos!! Vamos esperar!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *