O Cão Geek – Corante Caramelo no Whisky

Semana passada fui ao dentista. Coisa de rotina. Higienização, selante, flúor. E ainda que não houvesse nada de extraordinário a ser feito na minha visita, fiz uma constatação até otimista. Que os dias que você vai ao dentista te fazem valorizar mais todos os outros que você não vai. E nem é por conta da consulta. Nao tenho medo do motorzinho, nem daquele sugador e nem daquele negócio que parece uma mini-picareta e faz um barulho agudo irritante enquanto espeta sua gengiva. E nem por causa da profissional também, porque minha dentista é um amor de pessoa. O problema é o after.

Quando terminei a consulta, veio a recomendação. Nada de café, chocolate e de coisas com corante até amanhã. Não pode coca-cola, nem ketchup ou gelatina. E nem pensar naquela balinha do pessoal do Uber, a não ser que você queira um dente com um visual meio verde radioativo. Tranquilo, porque essas coisas não fazem muito parte da minha rotina mesmo. E whisky? Whisky tem corante, é? A maioria tem sim. Bom, então melhor não. Meu mundo caiu. Nunca tive trauma de dentista até hoje, mas acabei de criar um. Ainda bem que eu não bebia whisky quando era criança, porque senão detestaria o dentista pro resto da vida.

Mas é a mais pura verdade. A maioria dos whiskies que bebemos possuem corante. O chamado corante caramelo, ou cor de caramelo. Ele é um corante alimentício, produzido pelo aquecimento de carboidratos ou açúcares na presença de ácidos, bases ou sais. Em palavras mais simples, é a queima de algum açúcar, como frutose ou glucose, para que adquiram uma coloração escura. Há mais de uma espécie, mas o mais comum é conhecido nos Estados Unidos como Class 1, e, na Europa, E150. O E150 é também dividido em classes, que vão de A para D, de acordo com cor e processo produtivo. O mais utilizado na indústria do whisky é o E150A.

De acordo com a regulamentação da Scotch Whisky Association, para que um whisky possa ser rotulado como scotch whisky, somente água e corante caramelo poderão ser adicionados ao destilado. Ainda, conforme a regulamentação, apenas “plain caramel” (E150A) pode ser usado no Reino Unido. Na Europa, por outro lado, é permitido que se use outras classes de E150.

Tonalidades

Nos Estados Unidos a história é mais complicada. De acordo com o Alcohol and Tobacco Tax and Trade Bureau, certos whiskeys podem utilizar até 2,5% de corante caramelo em sua composição. Esse percentual pode ser maior, porém, se o uso for de costume para certa bebida (algo como a tradição de adicionar quantidades copiosas de corante caramelo ao whiskey). Mas nada é tão simples. De acordo com o Code of Federal Regulations – a lei que estabelece as regras relativas aos whiskeys americanos – bourbons (sejam eles straight ou não) não podem utilizar qualquer corante. O que significa que a cor daquele seu belíssimo bourbon é cem por cento natural, proveniente da maturação nos barris. Talvez devesse ter ressalvado isso à minha dentista.

Quase mesma regra se aplica às demais classes de whiskey americano. Porém, para estes, o uso de corante caramelo somente é proibido se utilizarem a expressão “straight” no rótulo. Assim, Rye, Corn e Wheat whiskeys podem utilizar corante Class 1 em sua composição. Só que, se o fizerem, não podem ser rotulados como Straight Whiskey. O que, para falar a verdade, não me parece algo tão grave. Convenhamos, consumidor nenhum percorrerá o espinhoso caminho do conhecimento em relação a tantas regras, exceto se for um whisky geek. Que imagino que você, leitor, seja, já que chegou ao sexto parágrafo deste texto.

Whisky!!!

Certas legislações exigem que se declare o uso do E150. O exemplo mais conhecido é a Alemanha. Todos os whiskies comercializados no país que levam corante caramelo devem trazer em seus rótulos – ainda que na parte de trás – os dizeres “mit farbstoff” (“com caramelo”). Como certos produtores possuem rótulos voltados para o mercado global de exportação, raras vezes, mesmo no Brasil, pode-se encontrar um whisky que leve a expressão em sua embalagem.

A POLÊMICA

Muitos afirmam que o uso de corante caramelo no whisky afeta seu sabor. Outros juram por seus destilados que não. Há excelentes argumentos para os dois lados. De acordo com uma matéria vinculada no Vinepair recentemente, um painel de dez funcionários do website Master of Malt (especializado em whisky) tentou identificar o sabor do corante em diversos whiskies, mediante uma série de testes sensoriais, e não conseguiu. Há, por outro lado, o argumento de que o corante caramelo em si, possui um sabor bastante característico. E que, ainda que tímida, há alteração no sabor da bebida por conta disso.

Talvez você esteja se perguntando o motivo de se usar corante caramelo no mundo do whisky. Afinal, seria mais fácil simplesmente abandonar a prática e evitar polêmicas. Mas o mudo, meu caro, não é tão simples. Há tons de cinza. Ou melhor, tons de barris. É que a maturação de um whisky não é uma ciência exata. No caso de single malts, certas barricas transferirão ao destilado mais cor do que outras. Na vasta maioria dos single malts, essas barricas são misturadas, dando origem a lotes. O problema é que, como cada barrica possui uma tonalidade diferente, a coloração da mistura delas poderá ser diferente de lote para lote. Então, para assegurar que aquele single malt tenha sempre aquela mesma cor que você conhece, utiliza-se corante caramelo. Para padronização. Muitos maltes renomados adotam essa prática, como Dalmore, Glenlivet, Glenfiddich e Lagavulin.

Mit Farbstoff

No mundo dos blends, a razão é a mesma. Mas o motivo é ainda mais justificável. O que se busca em um blended whisky é consistência. É por isso que as receitas de blended whiskies não costumam ser claramente divulgadas. Porque o produtor pode simplesmente substituir um single malt por outro com características sensoriais parecidas na mistura, de acordo com a disponibilidade do estoque. Pode-se, inclusive, mudar a proporção para que o sabor do blend permaneça inalterado. Só que manter o mesmo padrão de sabor talvez possa levar a uma alteração de cor. E a forma de evitar que lotes diferentes de blends tenham cores diferentes é pela utilização do E150.

Este Cão não tem uma opinião formada sobre o corante caramelo. Porém, acredita que – como muita coisa – preocupar-se com isso é desnecessário. É claro que o corante caramelo pode ser usado para disfarçar a má qualidade de uma barrica, ou para fazer com que um whisky absurdamente jovem se passe por algo bem mais maturado. Ainda mais nos dias de hoje, com o aumento do consumo e do lançamento de whiskies jovens.

Mas acima de tudo isso, há algo que não é afetado pelo corante caramelo, e que deveria superar qualquer discussão sobre o assunto. A satisfação. Se certo whisky é agradável para seu paladar – seja ele jovem, maturado, simples ou complexo – isso deveria ser irrelevante. Quer dizer, a não ser que você tenha ido no dentista. Aí, melhor ficar com água mesmo.

 

15 thoughts on “O Cão Geek – Corante Caramelo no Whisky

  1. Como vai, mestre?
    Sei que o abandono do uso de corantes é uma utopia, mas acredito que pelo menos eles poderiam dar uma maneirada na quantidade.
    De qualquer forma, o mais importante é não haver a alteração do sabor e como o senhor disse: se o whisky é agradável, é isso o que realmente importa, não é mesmo?

    Abraço!

    1. Exato, mestre! Seria justo, mas acho que não é só uma questão da industria. Tem a ver com a educação do consumidor também. Deveria ser normal encontrar whiskies mais claros e mais escuros com o mesmo rótulo, de lotes diferentes. Mas causa estranheza, infelizmente. É um impasse de dificil solução: mudar o consumidor ou o produto?

  2. Não sei se o que mais dói lendo este texto: relembrar traumas com dentistas ou saber que analisar o whisky pela cor não diz nada. Obrigado Cão por mais um excelente post.

  3. Prezado Cão….
    É um prazer ler suas explicações divertidas e com tamanha propriedade.
    Continue assim, pois competência, bom humor e informações de fácil entendimento são muito agradáveis de se ler e assimilar.
    Obs.: Por culpa sua cometi a loucura de comprar um litro de Macallan Ruby…estou completamente dependente dessa droga lícita, maravilhosa e surpreendente.
    Parabéns…continue assim é manda umas dicas de Scotchs e Bourbons não muito complexos e desconhecidos do grande público, para que possamos caca-los e experimenta-los (que tenha no mercado nacional).
    Parabéns e sucesso!!

    1. Opa, muitissimo obrigado, Alberto!

      Macallan Ruby é uma preciosidade. Uma pena ter sido descontinuado pela destilaria.

      Pois é, estamos aqui caçando também novidades e whiskies desconhecidos. Nosso mercado é um pouco limitado, mas seguiremos tentando! rss

      Abraços!!

  4. Excelente post, um dos melhores do blog.

    Não sou um consumidor assíduo de whisky, apesar de ser minha bebida favorita, mas sou leitor assíduo do blog.

    Não dá para entender, hehe!

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