Sobre mulas e momentos efêmeros – Laphroaig Quarter Cask

Cateto Pos 4-1

Existem muitas coisas boas na vida que duram muito pouco, e quando menos percebemos, já acabaram.  O pôr do sol, um beijo, sua música preferida no rádio (exceto se você for fã de Emerson, Lake & Palmer), e o sossego entre comer um acarajé na praia e correr para um toalete. São momentos efêmeros, que logo se extinguem, mas nos trazem boas memórias sempre.

Activia em estado sólido
Activia em estado sólido

Isto se aplica perfeitamente também à minha primeira garrafa de Laphroaig Quarter Cask. Ela durou exatamente nove dias. De quarta-feira à outra sexta. Na época, havia experimentado poucos whiskies da região de Islay, famosa pelos maltes defumados, e não havia encontrado nada ainda que aliasse meu gosto por whiskies mais encorpados ao aroma de fumaça.

Como você já deve ter presumido – ou não – o nome quarter cask vêm dos barris utilizados para maturar o destilado. Após algum tempo nos barris tradicionais de ex-bourbon, o whisky é transferido para o chamado quarter cask, que é uma barrica menor. Isso aumenta a área de contato entre a madeira e o líquido, acelerando o processo de maturação.

Segundo a Laphroaig, a utilização dos quarter casks era frequente no final do século 19, quando o whisky era transportado no lombo de mulas ou cavalos. A bebida era colocada naquelas barricas para que pudesse ser carregado com facilidade pelos belos equinos. Além disso, conforme a própria Laphroaig, alguns historiadores sugerem que o transporte no lombo dos animais permitia que se utilizassem trilhas para gado, fugindo, assim, dos pedágios das estradas.

Tomei meus quarter casks. Rá.
Tomei meus quarter casks. Rá.

O Laphroaig tem sabor predominantemente defumado, proveniente do processo de secagem da cevada maltada. Após a germinação, os grãos de cevada são levados a uma espécie de forno, cujo combustível é turfa (peat). A cevada não entra em contato direto com a turfa que queima, mas com a fumaça quente. Esse processo é bastante utilizado pelas destilarias da região de Islay, onde localiza-se a Laphroaig, ainda que algumas destilarias de outras regiões também o façam.

O Quarter Cask é um whisky sem idade determinada (NAS). Aqui no Brasil custa por volta de R$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta reais). Por um preço semelhante, a Laphroaig oferece também o 10 anos, que tem graduação alcóolica menor – 43% contra 48% do Quarter Cask – aroma muito mais seco, e sabor mais leve. Mas se me permitem uma sugestão, eu não perderia tempo com o 10 anos, podendo escolher entre ele e o Quarter Cask. Aliás, se você prefere whiskys defumados mais “secos”, minha escolha seria o Ardbeg 10 anos.

O Quarter Cask recebeu prêmio de Ouro Líquido pela Jim Murray Whisky Bible de 2014, e medalhas de prata na International Wine & Spirit Competition e na San Francisco World Spirits Competition. Este canídeo concorda. Se você quer um whisky com claro aroma de fumaça, mas que, ao mesmo tempo, continua doce e frutado, o Quarter Cask é sua escolha. E se ainda não experimentou, vá em frente. Os melhores momentos são sempre os mais fugazes.

LAPHROAIG QUARTER CASK

Tipo: Single Malt sem idade definida

Destilaria: Laphroaig

Região: Islay

ABV: 48%

Notas de prova:

Aroma: predominantemente defumado, com aromas medicinais, de manteiga e de azeite.

Sabor: Mais doce do que o aroma, adocicado e frutado, com claro sabor de fumaça. Final também frutado e levemente salgado.

Com água: adicionando-se água o whisky perde parte do sabor doce, tornando-se mais salgado, com claro aroma e sabor defumados.

Preço: em torno de R$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta)

9 thoughts on “Sobre mulas e momentos efêmeros – Laphroaig Quarter Cask

  1. Recentemente descobri essas duas maravilhas: este site e o Laphroaig Q Cask! Este último é, sem duvida, o mais complexo e diferente que já experimentei. A estranheza inicial, no entanto, deu lugar ao lugar favorito na minha prateleira.

    Parabéns – e obrigado – pelo site! Incrível a quantidade de informações, riqueza de detalhes e elegância na escrita!

    Abs

  2. Grato pelo excelente texto.
    Uma dúvida: quem, assim como eu, está nos single malts frutados e florais e quer experimentar algo defumado, deve ir logo pro Laphroaig ou passar por algo mais leve, como o Talisker?

    1. Beto, questão de estratégia. Eu sou partidário de “pegar no tranco”. Iria no Laph antes, e depois voltaria para os menos defumados. Seu paladar estará já ambientado com o aroma da turfa, e conseguirá pegar melhor quando ela for mais discreta.

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