Sem Medo – Finalistas do Jameson Bartenders Ball

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O cinema está cheio de improvisação. Algumas das cenas mais antológicas nasceram de atores, que, numa impressionante demonstração de técnica e audácia, fizeram o improvável.

Uma das histórias que mais gosto é a de Laranja Mecânica. A sequência em que Malcolm MacDowell ataca um escritor e sua esposa não estava totalmente planejada. Kubrick teria passado quatro dias filmando e refilmando a mesma cena, mas, como é natural àquele cineasta, ele não estava satisfeito. Exausto e irritado, ele então disse a Malcolm “sinceramente, faça o que você quiser”.

E então o ator refez a cena. Uma cena de espancamento. Sem medo, dançando e cantando. Aliás, cantando a única música que conseguia lembrar. A de “dançando na chuva”. E assim, uma das mais memoráveis cenas de um dos mais memoráveis filmes surgiu.

Porque sem a dancinha já não era estranho o suficiente
Porque sem a dancinha já não era estranho o suficiente

Uma vez, o ator Christopher Walken disse “Improvisar é maravilhoso. Mas o problema é que você não consegue improvisar, a não ser que você saiba exatamente o que está fazendo. Esse é o tipo de coisa paradoxal sobre improvisar”.

E apesar da frase de Walken, aparentemente, não fazer muito sentido, ela, paradoxalmente faz. A improvisação, ou melhor, a boa improvisação, exige conhecimento, experiência e técnica. E, além de tudo isso, exige destemor. Para se improvisar, não se pode ter medo.

Lembrei deste falso paradoxo ao comparecer, na última quarta-feira, a convite de Jameson Irish Whiskey, à final do campeonato Jameson’s Bartenders Ball, no Estúdio Dama, em São Paulo. A competição reuniu dez bartenders finalistas, que deveriam, na hora, improvisar um coquetel.

As regras eram para destemidos. Haviam papéis com o nome de diversos ingredientes. Cada bartender deveria sortear seis deles, divididos nas seguintes categorias: cítricos, frutas, amaros e vermutes, especiarias e botânicos, espumantes e cervejas. Destes seis, deveria, então, selecionar três ingredientes que fariam parte de seu coquetel. Além de Jameson, claro. Para elaborar os ingredientes, teriam apenas quarenta minutos. E pouco mais de sete para preparar o drink na frente dos jurados, junto com sua apresentação.

Os responsáveis por escolher os melhores coquetéis da noite eram o professor Cesar Adames, do Bares, Drinks & Destilados, Carolina Ronconi, do blog Meninas no Boteco, e James Guimarães, mixologista da Jameson Irish Whiskey. Além do experiente bartender Fernando Lisboa, que – veja só – é também consultor de coquetéis deste (nem tão) distinto blog.

Após experimentar os dez drinks, o vencedor foi escolhido. Matheus Cunha, bartender com mais de quinze anos atrás do balcão, hoje, responsável pelos drinks da Casa 92, de São Paulo, com seu coquetel batizado de Sem Medo. O segundo e terceiro lugares ficaram, respectivamente, com Ed Carneiro, do The Lord’s Pub, de Campinas e Fabio Magueta, do Johnnie Wash, de São Paulo.

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Sem Medo. O coquetel vencedor

Matheus sorteou os seguintes ingredientes: água com gás, manjericão, caju, cerveja stout, abacaxi e vermute tinto. Destes, escolheu os últimos três para seu drink. Os dois primeiros ingredientes fizeram parte de sua apresentação.

Segundo ele “Eu me inspirei em Sine Metu, um dos lemas de John Jameson. Como eu não sabia o que ia vir dos ingredientes e qual seria meu desafio, eu vim sem medo. Mesmo não recebendo nada cítrico para equilibrar, consegui criar uma complexidade para o meu cocktail e tive um ótimo resultado. O mais importante foi não esconder o whiskey Jameson e sim potencializar o que ele tem de melhor. Eu quis provar que o medo não existe, que é uma coisa que você cria. Essa é a mensagem que eu quis passar

A apresentação de Matheus foi um show de improvisação. O bartender serviu aos jurados, antes de preparar seu coquetel, agua aromatizada com manjericão, para complementar o drink. Junto, de forma enigmática, deu a cada um cartão, com a palavra “medo” escrita, e pediu que os guardasse. Após provarem sua criação, pediu que passassem o cartão sobre uma vela. A palavra escrita, então, desapareceu. Ao que Matheus, de uma forma quase profética, disse “o medo se apagou. Por não existir

Matheus. Sem medo de cair
Matheus. Sem medo de cair

O coquetel que Matheus criou é amargo e, ao mesmo tempo, levemente cítrico. Há um equilíbrio curioso entre o vermute e a cerveja com abacaxi, que – apesar dos sabores fortes – não esconderam o Jameson Irish Whiskey. É um drink que demonstra técnica e total domínio sobre os elementos sorteados.

Eu poderia aqui simplesmente finalizar o texto, parabenizando o destemido Matheus pela vitória, e desejando-lhe boa viagem para a Irlanda, onde disputará a final internacional do campeonato. Mas, se fizesse isso, não daria a você, querido leitor, qualquer razão para chegar com seus olhos até aqui.

Então, aí vai, em primeira mão, a receita completa de Sem Medo. Para que você, audaz leitor, possa, em sua casa, reproduzir com intrepidez o coquetel do valente Matheus.

SEM MEDO

INGREDIENTES:

  • 50ml de Jameson Irish Whiskey
  • 40ml de vermute tinto
  • 20ml de redução de cerveja preta com abacaxi (este Cão recomenda uma cerveja stout seca. Nem pense em uma malzbier qualquer. Não vai dar certo)
  • 5 gotas de Bitter Jameson (não tenha medo de substituir por Angostura Orange Bitters. Funcionará também)
  • Mixing glass
  • Colher bailarina (ou alguma colher para misturar as coisas)
  • Strainer (ou peneira mesmo).
  • Taça vintage (isso é a taça fotografada acima. Se não tiver, tente uma coupé)

PREPARO:

  1. No mixing glass, adicionar todos os ingredientes. Colocar bastante gelo e, com o auxilio da colher bailarina, mexer com cuidado por bons quatro segundos.
  2. Descer o conteúdo do coquetel na taça vintage.

PARA A REDUÇÃO DE CERVEJA PRETA:

INGREDIENTES:

  • 200ml de Cerveja preta seca
  • 175 gramas de açúcar
  • 5 cubos de abacaxi (quadradinhos de, mais ou menos, dois centímetros de lado)

PREPARO:

  1. Adicione, em uma panela, a cerveja preta e o abacaxi. Deixe reduzir por quase quinze minutos, em fogo baixo.
  2. Ainda com a panela no fogo, adicione o açúcar e vá mexendo até que ele todo tenha se dissolvido na água. Tire do fogo e deixe esfriar.

3 thoughts on “Sem Medo – Finalistas do Jameson Bartenders Ball

  1. A improvisação é uma arte que demanda muita inteligência, técnica e agilidade de raciocínio.
    Unir esta arte a um whiskey do qual gosto muito só poderia gerar uma bom resultado (ou catastrófico, talvez).

    Mas fico feliz que o resultado tenha sido positivo e por vc ter participado do evento haha.

    Abraço!

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