Jim Beam Rye – Resgates

Sábado, dez horas da manhã. Interfone toca. Dois pacotes na portaria. Dou um discreto salto de antecipação enquanto, quase que simultaneamente, chamo o elevador e amarro a máscara sobre os inevitáveis mullets de quarentena. Adoro receber o que comprei pela internet – a distinção de tempo entre pagar e receber faz tudo parecer um presente. Resgato os dois pacotes, abro o primeiro. Sinto meu semblante de antecipação derreter lentamente para um de decepção. Um quebra-cabeças, comprado pela Cã. Hábito antigo, de criança, que voltou que graças ao tédio proporcionado pela reclusão social. Entendo. É um passatempo perfeito para dois mil e vinte – barato, intelectualmente desafiador e cem por cento compatível com o distanciamento social. Não é à toa que a tradição de montar quebra-cabeças está voltando. Mas acho um saco. Me volto para o segundo pacote, ainda com resquícios de decepção do primeiro. Mas, aqui, a história muda. Meus olhos brilham quando vejo o pescoço verde de uma garrafa que há muito antecipei. O Jim Beam Rye – que acaba de chegar ao Brasil oficialmente. Ignoro o horário – ainda é antes do almoço – e já vou logo abrindo a garrafa. Adoro whiskey de centeio. Aliás, falando sobre […]

Whiskey Brownies – Simplicidade

“A simplicidade é a chave para o brilhantismo”. Da primeira vez que ouvi a frase atribuída a Bruce Lee, estranhei. Não pelo teor da citação, que carrega em si uma simplicidade que facilmente poderia ser transformada em vinte laudas de um ensaio sobre a complexidade de tudo que é – ou que parece -descomplicado. Mas por conta de seu autor. Sempre pensei em Bruce Lee como o ícone das artes marciais, o invencível protagonista do Dragão Chinês e da Fúria do Dragão. O cara que praticamente lançou o Kung-Fu no mundo, muito mais do que qualquer panda. Mas o que poucos sabem – inclusive eu, antes de pesquisar o tema para esta matéria – é que Lee tinha também um cérebro de aço (e não apenas os punhos). Ele se formou na Universidade de Washington em filosofia, e criou toda uma doutrina – Jet Kune Do. Daí, surgiram frases espetaculares, como essa da simplicidade. Ou a célebre “a água pode fluir ou pode bater. Seja água, meu amigo” perfeita como punchline de qualquer livro de autoajuda. Lembrei da tal frase ao tentar definir, em uma conversa com um par de amigos, sobre uma receita que aprendi há muito tempo nem […]

Entrevista com Colin Scott – Custodian Master Blender da Chivas Regal

Poucas pessoas no mundo prescindem apresentações. São aquelas cuja contribuição, cujas criações, têm vida independente de seu criador. Produtos que adquiriram tamanha notoriedade que falam por si. No mundo do whisky, uma destas – poucas – pessoas é Colin Scott. Colin é uma lenda viva na indústria do whisky. Trabalhou para a Chivas Regal por quarenta e sete anos. Deu suas mãos – ou melhor, nariz – surgiram criações incríveis. Mesmo que você não seja um entusiasta do mundo do whisky, você conhece Colin Scott. É dele a assinatura que estampa o pescoço de um dos blended scotch whiskies mais admirados do mundo. O Chivas Regal 18 anos. E a rubrica não é um simples artifício decorativo. Foi Scott que criou o lendário blend em 1996. E depois de quarenta e sete anos de excepcionais préstimos para a indústria do Scotch Whisky, Colin finalmente está se aposentando. Mas não sem antes uma entrevista exclusiva – gentilmente organizada pela Pernod-Ricard Prestige no Brasil – com este Cão Engarrafado. Por uma hora, tínhamos o famoso master blender apenas para nós! Vamos ao papo. É uma honra ter você aqui. Você é um herói para muitos entusiastas do whisky como eu. E acho […]

Suntory Yamazaki 12 anos II – 2020

Essa é a segunda prova do Yamazaki 12 anos neste blog. A primeira foi escrita em 2015 (leia a original aqui). Porém, devido à volta deste desejado rótulo às nossas terras, resolvemos revisitá-lo e fazer uma prova completamente nova. Se você tem um iPhone, abra seu teclado e procure o emoji de onda. Observe com atenção e deixe-me explicar porque esta imagem lhe parece tão familiar. O desenho é baseado em uma obra de arte clássica japonesa do período Edo. A Grande Onda de Kanagawa, uma xilogravura do artista Katsushika Hokusai – parte de sua icônica série de trinta e seis vistas do monte Fuji. Ela é provavelmente a obra de arte mais reproduzida do mundo. Está em muros, sapatos, camisetas, carteiras e até mesmo emojis. Ao longo dos séculos, a obra de Hokusai influenciou grupos e movimentos inteiros da arte. Como a Ar Nouveau, o Simbolismo, os Nabis e os pós-impressionistas. Suas xilogravuras trouxeram a noção de que a pintura é algo bidimensional. A ilusão de profundidade – quando há – é dada somente pela cor. Uma técnica tão importante que foi usada tanto por artistas tradicionalistas, como os primitivos italianos, quanto por ícones da arte moderna, como David […]

Suntory Hibiki Japanese Harmony – Devoção

“Continuarei tentando subir até atingir o topo, ainda que ninguém saiba onde o topo é”. A frase é do nonagenário Jiro Ono, protagonista de um documentário que recentemente assisti na Amazon: Jiro Dreams of Sushi. Jiro é o proprietário e chef de um restaurante que serve apenas sushi, chamado Sukiyasbashi Jiro. O espaço, de apenas dez lugares, manteve de 2007 a 2019 uma avaliação de três estrelas pelo Guia Michelin – a premiação máxima. Em 2019 o Sukiyasbashi Jiro perdeu suas estrelas. Mas não por demérito. Mas porque ficou tão famoso que deixou de abrir reservas para o público em geral. O documentário, lançado em 2012, mostra o cristalino devotamento do chef por sua ocupação. Jiro obceca sobre o posicionamento das esteiras em seu balcão e aponta onde cada cliente deve sentar. Jiro massageia cada polvo por no mínimo quarenta e cinco minutos, para tornar as peças mais suculentas. Jiro sabe a exata história de cada peça consumida em seu estabelecimento, e observa com diligência seus comensais – um piscar de olhos mais prolongado talvez seja sinal de que algo mudou. Jiro nasceu para fazer sushi. Seu sucesso é quase uma extensão natural de si. É algo que, de certa […]

Quatro presentes de whisky para o seu pai

Ser pai é uma experiência de surpresa e autoconhecimento. De surpresa porque de todos os infinitos cenários que imaginei para mim aos trinta e tantos, nenhum deles contemplava estar acordado às seis e meia da manhã assistindo Bita e os Animais enquanto uma criança lambe a metade gostosa de uma bolacha recheada. E de autoconhecimento porque a criança reminisce bastante a mim. Nem tanto fisicamente – neste ponto, por sorte, os genes de minha esposa foram absolutamente impiedosos. Mas quanto à personalidade mesmo. Tenho dois filhos, e me vejo neles o tempo todo. Aliás, eu nunca havia me dado conta de quão irritante e obstinado eu era, até gerar uma mini-versão feminina de mim, e discutir com ela todos os dias. A paternidade é uma espécie de trabalho sem jornada máxima e cuja remuneração é a realização de seu chefe. O que parece ser injusto, mas é estranhamente recompensador. Ser pai é essencialmente abnegação, mas é delicioso. Ah, e tem o dia dos pais. Não importa se você acha que o dia dos pais é uma construção social, do capitalismo, para incentivar o consumismo desnecessário. Nós, pais, merecemos. E se você concorda comigo, mas não consegue decidir o que dar […]

Caledonian 33 anos The Boutique-y Whisky Co. – Drops

Se você gosta de whiskies incomuns, talvez se interesse por esta pequena – porém notável – garrafa. O Caledonian 33 anos The Boutique-y Whisky Company. Há uma série de motivos que o torna um certo unicórnio no mundo do whisky escocês. O primeiro é a sua classificação. Ele é um single grain scotch whisky. O que, per si, já corresponde a uma fração quase irrisória dos whiskies escoceses. Single grains são produzidos em uma única destilaria, utilizando quaisquer grãos – e uma pequena fração de cevada maltada – e destilados, geralmente, em Coffey Stills (uma espécie de destilador contínuo). Ainda que a produção seja grande, a maioria dos grain whiskies são produzidos para integrar blends. É muito raro que haja um engarrafamento que leve exclusivamente um deles. Outro – e o principal – motivo é que sua destilaria não existe mais. A Caledonian fora, por um bom tempo, a maior destilaria de toda Escócia. Porém, por conta de uma série de fusões e aquisições, bem como uma superoferta de whiskies de grão no mercado, a destilaria fechou suas portas em 1988. Seu interior foi reformado e transformado em um conjunto habitacional. Sua chaminé, no entanto – uma das mais altas […]

Suntory Haku Vodka – sobre sopas, iguarias e o vazio

Há um par de anos, fui com meu pai em um restaurante chinês sofisticado e pedi um prato improvável. Sopa de barbatana de tubarão. Fomos lá só pra isso, na mais inocente curiosidade. É que sopa de barbatana de tubarão é um prato típico chinês, geralmente servido somente em ocasiões muito especiais. Casamentos, por exemplo. Ele sugriu na dinastia Song, e é visto até hoje por boa parte da população da China como um símbolo de prestígio. Pudera. O quilo de barbatana pode custar bem mais de quatrocentos reais. Mas o mais curioso, porém, não é o preço estelar da iguaria. Mas algo que, antes da experiência, não sabíamos: barbatana de tubarão não tem gosto nenhum. A textura é curiosa, meio gelatinosa e escorregadia. Mas o sabor é totalmente neutro. São os outros ingredientes do prato – caldo de frango, frutos do mar e temperos – que trazem sabor a ele. E veja bem. Não é que estávamos sem paladar ou algo assim. Porque há jurisprudência sobre isso. O chef internacional Gordon Ramsay uma vez fez uma citação sobre a tal barbatana “É realmente bizarro. Porque não tem gosto nenhum. É como se fosse macarrão de vidro. A sopa é […]

Macallan Reflexion – Do espólio

Esses dias estava arrumando meu guarda-roupas, e me deparei com uma camisa que adorava. Não havia nada de muito especial nela, exceto pelo valor sentimental. A comprara na primeira vez que fui a Escócia, numa lojinha de artigos locais em Inverness. Nas costas, havia a ilustração das sombras de centenas de garrafas de whisky dos mais distintos formatos. Era possível, inclusive, com algum embasamento, identificar de quais marcas eram aquelas pequenas silhuetas. Gostava tanto da tal peça que a guardava apenas para eventos especiais. Resolvi experimentá-la. O resultado foi desastroso. Se tivesse um pouco menos de senso crítico, poderia, de certa forma, dizer que ela teria ficado entre o à-la-Bruce-Willis e o mira-me-cuerpo. Mas, exibindo uma pancetta displicentemente cultivada nos últimos dez anos, percebi, com decepção, que não poderia mais usá-la. Havia guardado a peça de roupa para ocasiões tão especiais, que ela deixou de me servir. Sinto que há uma relação semelhante com whisky: a de guardar garrafas para momentos extraordinários. Faço isso, acho que quase todos fazemos. Mas não sem algum arrependimento. Como certa vez disse um grande amigo “suas garrafas fechadas serão bebidas com água de coco em uma pool party por seus filhos. Beba“. Então, num […]

Bruichladdich Octomore 8.2 Masterclass – Drops

Algumas memórias são mais perenes que outras. Para whiskies também. Há rótulos que nem lembro de ter bebido – o que, na verdade, é ótimo e não é. Porque, por um lado, é uma desculpa pra beber de novo. Por outro, se eu não lembro, então é porque não era nada demais. Então é só uma desculpa pra beber de novo algo medíocre. Mas enfim, há outros tão arraigados em nossa memória que se tornam quase marcos etílicos. Um deles, para mim, é o Octomore – conhecido como o whisky mais defumado do mundo. Experimentei o Octomore (a edição 3.1) quando fui para a Escócia há uns bons anos. Vou contar como foi. Como um apaixonado por whiskies defumados, quando estive por lá, procurei o Octomore por toda parte, mas sem sucesso. Comentei isso com um rapaz de uma loja de roupas – não me pergunte por que entrei no assunto de whiskies com um vendedor de uma loja de vestuário masculino, talvez por ser a Escócia – que se compadeceu com meu ébrio sofrimento e recomendou um bar que possuía uma garrafa – o The Abbotsford. Corri tanto que quase me teleportei para lá. Apontei para o Octomore na […]