Bruichladdich Octomore 8.2 Masterclass – Drops

Algumas memórias são mais perenes que outras. Para whiskies também. Há rótulos que nem lembro de ter bebido – o que, na verdade, é ótimo e não é. Porque, por um lado, é uma desculpa pra beber de novo. Por outro, se eu não lembro, então é porque não era nada demais. Então é só uma desculpa pra beber de novo algo medíocre.

Mas enfim, há outros tão arraigados em nossa memória que se tornam quase marcos etílicos. Um deles, para mim, é o Octomore – conhecido como o whisky mais defumado do mundo. Experimentei o Octomore (a edição 3.1) quando fui para a Escócia há uns bons anos. Vou contar como foi.

Como um apaixonado por whiskies defumados, quando estive por lá, procurei o Octomore por toda parte, mas sem sucesso. Comentei isso com um rapaz de uma loja de roupas – não me pergunte por que entrei no assunto de whiskies com um vendedor de uma loja de vestuário masculino, talvez por ser a Escócia – que se compadeceu com meu ébrio sofrimento e recomendou um bar que possuía uma garrafa – o The Abbotsford. Corri tanto que quase me teleportei para lá.

Apontei para o Octomore na prateleira. O bartender, então, num misto de descrença e masoquismo, me serviu uma dose, enquanto atentamente observava minha reação. Notei que meu vizinho de balcão – um senhor que devia ter visto a construção do palácio de Holyrood – também ficara interessado por meu pedido aparentemente insólito, e coçava a barba em expectativa. Sorri – nada poderia ser mais forte do que um Aberlour A’Bunadh, por exemplo. Eu estava resoluto. Tomei um gole.

A tênue linha entre a coragem e a burrice.

A medida que o defumado descia pela minha língua em direção ao esôfago, senti que ruborizava. Meus olhos encheram de lágrimas, mas não de alegria. Meu deus do céu, aquele whisky era absurdamente enfumaçado e alcoólico. Era uma delícia, mas, prová-lo pela primeira vez fez meu corpo discordar de meu paladar. Me segurei para não franzir a testa. Apertei os lábios e, passando a língua pelo céu da boca, acenei com a cabeça. O senhor, ao meu lado, levantou seu copo num misto de surpresa e orgulho. Fiquei contente – aquilo foi praticamente um rito de passagem para mim.

E ainda que aquela experiência tenha sido um tanto desconcertante, acabei amando o Octomore. Tanto que se tornou um de meus rótulos preferidos. Quando voltei para a Escócia, bons cinco anos depois, tive a oportunidade de visitar a destilaria. E lá encontrei uma garrafa de algo que me fez novamente suar. Mas de expectativa. O Octomore 8.2 Masterclass, insanamente defumado, e maturado em barris de vinho. Tive que levar uma.

Logo que cheguei em casa, resolvi experimentá-lo. E novamente, meus olhos marearam. Mas, dessa vez, não pela força do whisky. Mas porque ele era fantástico. O turfado era latente. Tão enfumaçado que a dose que descansava no copo podia ser sentida há metros de distância. Mas, no paladar, além da fumaça, iodo, esparadrapo e couro, havia um adocicado floral delicioso, que amarrava todo aquele material em chamas. Era ainda melhor do que a lembrança que tinha do outro Octomore. Resolvi pesquisar sobre ele.

O Octomore 8.2 Masterclass possui 167 PPM de fenóis (a medida que indica o quão defumado é o whisky). Em comparação, um Ardbeg possui em torno de 50. E sua maturação é bem mais complexa do que imaginava, ainda que breve – 8 anos. Primeiro, partes de seu new-make são maturados em três diferentes barris de vinho. Mouverde (um vinho tinto bastante terroso), Sauternes (adocicado e floral) e um certo vinho doce austríaco. Depois, as três partes são reunidas, e passam mais dois anos em barris de Amarone – um vinho tinto italiano bastante intenso, de Corvina Rondinella.

É uma uva, não um peixe.

Os Octomore são edições limitadas anuais da destilaria Bruichladdich, localizada em Islay, na Escócia. São sempre whiskies extremamente turfados – utilizando, inclusive, métodos inovadores para atingir tais marcas – que desafiam convenções do mundo do whisky. De acordo com a destilaria “Uma série esotérica de lançamentos numerados, experimentais, na maioria muito limitados, enfraqueceu fatalmente a suposição de que a qualidade do uísque escocês single malt é simplesmente uma função de sua idade.

Se você gosta de desafios, é apaixonado por whiskies defumados – mas apaixonado mesmo – ou aprecia single malts extremos, o Octomore 8.2. é para você. Pra falar a verdade, ele é para você mesmo que você não goste de nada disso. Se puder, prove o Octomore 8.2. Uma coisa é certa – este criará uma memória difícil de ser olvidada.

BRUICHLADDICH OCTOMORE 8.2 MASTERCLASS

Tipo – Single Malt com idade definida (8 anos)

ABV – 58,4%

Região: Islay

País: Escócia

NOTAS DE PROVA

Aroma: fumaça, couro, esparadrapo. Há um certo alcaçuz de fundo, com frutas vermelhas. Mas a turfa é a nota predominante.

Sabor: Turfa, com couro, carvão, pimenta do reino, couro, bacon e esparadrapo. O frutado fica mais evidente do meio para o final. Floral, mas sem ser enjoativo, framboesa.

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