Suntory Haku Vodka – sobre sopas, iguarias e o vazio

Há um par de anos, fui com meu pai em um restaurante chinês sofisticado e pedi um prato improvável. Sopa de barbatana de tubarão. Fomos lá só pra isso, na mais inocente curiosidade. É que sopa de barbatana de tubarão é um prato típico chinês, geralmente servido somente em ocasiões muito especiais. Casamentos, por exemplo. Ele sugriu na dinastia Song, e é visto até hoje por boa parte da população da China como um símbolo de prestígio. Pudera. O quilo de barbatana pode custar bem mais de quatrocentos reais.

Mas o mais curioso, porém, não é o preço estelar da iguaria. Mas algo que, antes da experiência, não sabíamos: barbatana de tubarão não tem gosto nenhum. A textura é curiosa, meio gelatinosa e escorregadia. Mas o sabor é totalmente neutro. São os outros ingredientes do prato – caldo de frango, frutos do mar e temperos – que trazem sabor a ele.

Visualmente não é lá essas coisas, também.

E veja bem. Não é que estávamos sem paladar ou algo assim. Porque há jurisprudência sobre isso. O chef internacional Gordon Ramsay uma vez fez uma citação sobre a tal barbatana “É realmente bizarro. Porque não tem gosto nenhum. É como se fosse macarrão de vidro. A sopa é deliciosa. Mas podia ter qualquer coisa lá – frango, pato, milho“. Tenho que concordar, ainda que um pouco desapontado sobre o sabor do prato. Num mundo em que tudo é efêmero e nos ocupamos com experiências vazias, comer caldo de barbatana de tubarão consegue ser duplamente insignificante.

Um destilado que, por muito tempo, manteve uma fama semelhante, é a vodka. Dave Wondrich uma vez disse que a ”A vodka é o peito de frango desossado e sem pele da coquetelaria – tudo tem a ver com o tempero“. Porém, há vodkas que desafiam esse conceito. Algumas possuem sabores bem particulares, ainda que delicados. É o caso, por exemplo, da Haku Vodka, que acaba de desembarcar no Brasil oficialmente pela Beam-Suntory.

A base da Haku Vodka é arroz, que é fermentado e destilado em alambiques, criando uma espécie de low-wine do grão. Depois, este produto é redestilado, tanto em alambiques quanto em colunas de destilação. Por fim, o destilado é reunido e filtrado em carvão de bambu, removendo os congeneres mais pesados, e tornando a Haku ainda mais delicada. É um processo basante meticuloso.

A produção da Haku Vodka acontece sob o mesmo teto do Roku Gin, já revisto aqui. É uma destilaria localizada em Kaigandori, Osaka, pertencente à Suntory – bem próximo à Yamazaki, onde é produzido o maravilhoso sigle malt homônimo. O espaço também é conhecido como o “Atelier de Bebidas da Suntory“.

A destilaria

O nome “Haku” possui uma ambiguidade interessante. A palavra pode significar tanto “branco” – em referência ao arroz – quanto “brilhante”, um tributo para a capacidade de criar o destilado. Aliás, a produção de vodka da Suntory não é um fenômeno atual. Ela tem produzido o destilado desde 1956.

Sensorialmente, a Haku Vodka é bastante delicada, com álcool extremamente bem integrado. Ela é discretamente adocicada, sem qualquer apimentado. Mas na opinião deste Cão – que talvez esteja delirando – o interessante é sua textura. Ela não é um destilado tão volátil quanto parece. Há um peso, uma oleosidade, que curiosamente complementa sua suavidade sem pimenta.

Se você procura uma vodka para funcionar como vedete em seus coquetéis, como num Vesper Martini, ou mesmo algo que parecerá estranhamente delicioso se bebido puro, a Haku Vodka é uma excelente escolha.

SUNTORY HAKU VODKA

Tipo: Vodka
Marca: Suntory
País/Região: Japão – N/A
ABV: 40%
Idade: N/A

Notas de prova:

Aroma: delicado, açúcar, grãos.
Sabor: adocicada e delicada. Quase não há traço de especiarias. Relativamente oleoso para uma vodka.

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