Drink do Cão – Boulevardier

Boulevardier

Você já tomou Negroni? Negroni é um drink feito, essencialmente, de gim, vermute tinto e Campari. Hoje, acho uma das coisas líquidas mais deliciosas que existe fora do universo do whisky. Mas minha relação com aquele coquetel nem sempre foi assim.

A primeira vez que tomei um Negroni tinha pouco mais de dezoito anos. E queria morrer. Achei uma das piores coisas que já tive o desprazer de beber. Incluindo uma vez que acidentalmente tomei um pouco de gasolina tentando fazer um sifão para abastecer meu carro. Sério. Teria preferido fazer qualquer coisa a terminar aquele coquetel. Se, naquele momento, alguém me desse a escolha entre ser atravessado por um cutelo gigante em brasa ou bochechar aquele Negroni, teria preferido o cutelo escaldante. Fácil.

Eu devo ser muito teimoso ou absolutamente estúpido, porque aquela experiência horrível não me dissuadiu de experimentar o drink mais uma meia dúzia de vezes. E o mais estranho é que, à medida que tomava, passava a gostar cada vez mais daquele negócio amargo. Até que passei a adorá-lo.

 

Não é sempre que cometo um erro. Mas quando o faço, cometo umas seis vezes, só pra ter certeza.
Não é sempre que cometo um erro. Mas quando o faço, cometo umas seis vezes, só pra ter certeza.

 

Mais recentemente, comentei com Fernando Lisboa, barman por trás do Bar Cuttelo e dos Coquetéis Treze, que era uma pena que o Negroni não tivesse qualquer relação com whisky, porque não poderia fazer um post dele neste blog. E ele me respondeu algo que eu não esperava. Ele disse que claro que havia relação. Havia um coquetel feito quase como um negroni, mas que levava Bourbon. Chamava-se Boulevardier.

Fui perquisar. Descobri que o Boulevardier é, basicamente, um negroni. Só que ao invés de gim, utiliza-se algum bourbon, mudando-se um pouco as proporções. Aprendi também que ele foi criado na década de vinte, provavelmente por um senhor chamado Harry McElhone. Harry, principal bartender do hotel Plaza de Nova Iorque, mudara-se para a Europa antes do advento da lei seca norte-americana.

No velho continente, Harry trabalhou no bar Ciro’s em Londres e, mais tarde, em sua filial de Deauville, na França até finalmente mudar-se para Paris e abrir seu próprio bar. Durante este período, produziu os tradicionais coquetéis que eram servidos na América do Norte antes da lei mais chata de toda a história mundial, bem como novas criações – inventadas com ingredientes que não se encontrava nos Estados Unidos.

Foi durante este período que surgiu o Boulevardier pelas mãos de Harry, ou de algum de seus fiéis clientes e entusiastas etílicos – ninguém sabe ao certo. O que se sabe é que o coquetel figurou no guia de coquetelaria escrito por McElhone, chamado “Barflies and Cocktails”, em 1927.

O nome Boulevardier presta homenagem à Paris Boulevardier, uma revista para expatriados dos Estados Unidos, editado por Erskine Gwynne. Erskine, que apesar do nome esquisito e do fato de ser sobrinho do magnata Alfred Vanderbilt, era como um ex-colega de trabalho meu: gente boa, ainda que nunca o tenha visto sóbrio para comprovar. A palavra “Boulevardier” advém do francês, e era usada para definir os homens elegantes e refinados das ruas parisienses. Enfim, os metrossexuais da época do seu avô.

 

Boulevardier
Boulevardier

O Boulevardier era o drink de preferência de Erskine. E não é para menos. Ele é um negroni melhorado. Melhorado porque, bom, porque tem whiskey, óbvio.

Então peguem suas canetinhas e caderninhos. Aí vai mais uma lição de coquetelaria by Da Dawg in da Bottle, hoje com a participação ilustre de Coquetéis Treze.

BOULEVARDIER:

INGREDIENTES:

Para fazer o coquetel você vai precisar de:

  • 40ml de Bourbon ou Tennessee Whiskey (Maker’s Mark, Wild Turkey ou Woodford Reserve de preferência, mas pode tentar com qualquer outro, por sua conta e risco…)
  • 30 ml de vermute (este Cão normalmente usa Carpano Antica Formula. Mas o coquetel ficará bem decente também com Carpano Classico. Só evite o Punt e Mes).
  • 30ml de Campari (Sim, aquele que seu avô boulevardier tomava com gelo. Não, nem tente substituir por qualquer outra coisa, não vai dar certo.)
  • Gelo
  • Copo baixo
  • Mixing glass (ou qualquer outro copo grande e largo que você possa usar para misturar os ingredientes)
  • Strainer (ou qualquer peneira de cozinha mesmo)

PREPARO:

No mixing glass, coloque três pedras de gelo e os três ingredientes líquidos do coquetel. Utilize uma colher para mexer a mistura por uns três ou quatro segundos.

No outro copo, coloque um pouco mais de gelo (como sempre, uma pedra grande, ou três pedras menores).

Transfira o conteúdo do mixing glass para o copo com gelo, utilizando a peneira para separar o gelo que ficou naquele outro copo.

Feito. Quando terminar de bebê-lo, que tal um Negroni?

23 thoughts on “Drink do Cão – Boulevardier

  1. Colocar 3 gotinhas de Angostura pode ser considerada uma traição ao movimento?…rsrs
    Um barman me deu essa dica outro dia. Realçou muito o sabor e o deixou mais refrescante….
    Sou fã de um bom bourbon no copo baixo e sem gelo, mas esse boulevardier tem seu valor. Sou fã tb..

    1. Opa! Fala Fabiano! Não é uma traição, pode fazer. Não é a receita clássica, mas os clássicos estão aí também para serem revistos. A gente não vai condenar (alias, a gente vai testar…rs)

      1. Boa tarde meu caro Maurício, arrisco dizer, que adicionar, uns dois dashes de angustura, tornam o coquetel excepcional, e uma borrifada de spray de Laproaigh Quarter Cask, libera um aroma Turfado, em demasiado excelente.
        Rsrs

  2. Conheci o Boulevardier no bar do Modí, aqui em SP. Bebedor de Negroni, me apaixonei à primeira vista por ele e certamente farei em casa. Três dúvidas: rye whisky seria também indicado ou não? Dispensamos mesmo a casca de laranja? E não dá mesmo para substituir o Campari por algum bitter, tipo um Martini Bitter mesmo?

    Obrigado,

    Rodrigo

    1. Fala Rodrigo! Vamos la:

      1) pode fazer com rye. Não recomendei por dois motivos (a) não existe nenhum rye a venda oficialmente no Brasil, exceto o Wild Turkey 101, mas que é voltado para o publico “on-trade”; e (b) eu acho que fica picante demais. Mas isso é gosto, pode ir fundo e testar. Muita gente RECOMENDA rye, exatamente porque o whiskey fica mais em evidência.

      2) Não dispensamos, só esquecemos de incluir na receita! rs. Note que a foto está com o zest.

      3) Eu não arriscaria. Em tese sim, mas certifique-se que o perfil de sabor é semelhante. O Campari dá um certo tom cítrico ao coquetel, que acho dificil de ser replicado com outros.

      1. Meu caro, muito obrigado pela resposta. Testei os dois, com Gentleman Jack e um George Dickel Rye (que, de fato, contrabandeei direto de lá), e digo que… os dois são ótimos haha! Mas o rye é mesmo mair marcante. E não me atrevi a tirar o Campari da composição, ele desempenhou seu papel com maestria. Abs e saúde!

        1. Haha, fantástico!

          Com Rye, tente fazer um coquetel chamado Vieux Carré. Já tive vontade de postar ele por aqui, mas um dos elementos essenciais é o bitter Peychauds, que não vende por aqui. Mas pode experimentar fazer sem, acho que você pode gostar.

  3. Tenho uma garrafa de Jonny Walker que não uso porque não gosto de tomar puro. Seria possível usar para fazer um Boulevardier?

    1. Daniel, possível sempre é. Mas acho que no caso do Johnnie, eu iria para um Rob Roy, mais seco!

      Mas não vai ficar ruim não!

    1. Marcelo, não vejo porque não. Mas eu mudaria a proporção, talvez faria 1 e 1/2 de whiskey para 1 – 1 (vermute e campari).

  4. Vermouth poderia ser qualquer um? Tipo o Cinzano Rosso Tinto Doce? ou um Vermouth Martini Rosso?

    att,

    1. Vinicius, qualquer um vai servir, mas acho que ficará melhor com um vermute de perfil mais clássico, tipo o Carpano Classico.

  5. Fala Maurício estava lendo esses dias sobre o Chivas 18 e o “eterno retorno”, arrisco-me a dizer que o Boulevardier foi uma paixão a 1⁰ vista, juntamente ao Rob Roy ambos ocupam um bom espaço em meu coração.
    Hahaha.
    Hoje decidi põe revisar o texto e comprar uma garrafa de Buillet Bourbon, que já foi devidamente aberta e utilizada para um Boulevardier neste instante.
    Abc forte meu amigo.

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