O Cão Didático – Single Malts para Iniciantes

whiskies para iniciantes

Quando comecei a escrever o Cão, não sabia absolutamente nada sobre escrever um blog. Para falar a verdade, tinha um preconceito quase natural em relação a blogs. Afinal, o que de especial eu teria para falar não pudesse ser encontrado com uma rápida pesquisa no Google? Absolutamente nada.

E eu sei que você espera que eu diga que com o tempo essa impressão foi se esvaindo, até se tornar apenas uma remota lembrança de alguém que não tinha a mais rasa ideia do que estava por começar a fazer. Mas não. Olha, desculpem-me pela quebra de expectativa. Na verdade, eu realmente não tenho nada de novo para falar.

Mal aí!
Mal aí!

Mas ainda que eu seja só mais uma pessoa com um modem e um gosto quase doentio por whiskies, esses meses de vida do Cão trouxeram algo que eu jamais poderia sequer prever. Comecei – na verdade, redescobri – o prazer de escrever. E o que antes era preconceito, virou mania. Então, uns meses atrás, resolvi dar uma pausa em minhas pesquisas e estudos sobre whisky para me dedicar a aprender a escrever um blog. Um blog sobre whisky.

E durante minhas explorações, descobri uma série de ferramentas incríveis. Você sabia que existe um formatador automático de texto e um organizador automático de tópicos? Prato cheio para alguém como eu, que é tão organizado quanto uma mesa de boteco. Mas minha ferramenta preferida, de longe, é uma que me informa quais foram as pesquisas feitas nos sistemas de busca que levaram a essas páginas porcas escritas por mim, e por quanto tempo a pessoa ficou na página depois de acessa-la.

E ainda que a maioria das pesquisas esteja entre normal e saudável, às vezes aparecem umas bem estranhas. Uma das minhas preferidas foi “cachorro pode beber whisky?”. E ainda que o doente que pesquisou isso não tenha encontrado resposta para essa pergunta esdrúxula e ridícula por aqui, ele passou exatos cinco minutos e trinta e sete segundos lendo esse blog. Tempo suficiente para ler uns dois textos. Imagino que ele pensou “bom, já que vou alcoolizar meu cãozinho, melhor eu descobrir qual whisky ele vai gostar mais, né?”

Teve outra que me deixou preocupado. Era “como engarrafar um homem?”. Pensei em alertar as autoridades, mas a ferramenta não informa quem acessou, nem exatamente de onde. E aí achei melhor ficar quieto, mesmo porque alguém poderia pensar que a ideia partiu de mim.

Mas apesar de algumas frases absolutamente descabidas, há pesquisas que tenho vontade de dar a resposta. Uma delas é “single malt para novato”. É uma dúvida autêntica, e não vai me colocar na cadeia, como no caso de, enfim, outras buscas. Assim, resolvi fazer um post especial sobre isso.

Nas redes sociais, sempre que fazem essa pergunta, a resposta que mais ouço – ou melhor, leio – é que o ideal é comprar um whisky que não esteja tão longe do espectro de sabores que a pessoa já conhece. Assim, recomenda-se Cardhu 12 anos, que é bem parecido com alguns whiskies da linha da Johnnie Walker, ou Glenlivet 12, single malt com excelente custo-benefício (eu sei, eu mesmo já o recomendei por aqui), e que tende a agradar a maioria dos paladares… Faz sentido…

...Ou não...
…Ou não…

Enfim, recomenda-se algo para não assustar, e muitas vezes se esquece que, se aquela pessoa está procurando entrar no mundo dos single malts, é porque ela está provavelmente disposta a sair de sua zona de conforto e – grande parte das vezes – gastar um pouco mais para ter uma experiência nova. Experimentar novos sabores. E isso é louvável. Afinal, se não fosse a curiosidade, ninguém jamais teria comido uma ostra.

Então, minha resposta a essa pergunta é variável – depende do que a pessoa gosta. Se você está acostumado a tomar bourbons e tennessee whiskeys, como os Jack Daniel’s, é bem provável que vá gostar do Glenfiddich 15 anos. Há um pequeno ponto de convergência (o uso de barricas virgens), mas a experiência é completamente diferente.

Por outro lado, se seu gosto é pelos tradicionais blended whiskies, como Chivas Regal e parte dos Johnnie Walker, talvez seja interessante investir em um Balvenie Doublewood ou um Glenmorangie Quinta Ruban, cuja diferença de sabor é facilmente notável em comparação aos primeiros, por conta da maturação extra em ex-jerez e ex-porto, respectivamente.

Entretanto, se preferir whiskies com alguma defumação – como White Horse, Black Grouse e Johnnie Walker Double Black – você, além de possuir muito bom gosto, provavelmente ficará fascinado com uma garrafa de algum Laphroaig, como o Quarter Cask ou Ardbeg 10 anos, cuja turfa é bem mais notável do que naqueles blends. E se estiver se sentindo sofisticado, arriscaria um Laphroaig 18 anos, um dos meus whiskies preferidos a venda em nosso país.

Pensando bem, talvez não. Esqueça tudo que eu falei. Para ser sincero, essa é também uma pergunta que eu não poderia responder. Aliás, uma das perguntas que eu menos deveria tentar responder. Porque aí eu estaria quase tomando a decisão por você. E isso é injusto.

Então aí vai minha única recomendação absoluta. Se você tem vontade de experimentar determinado single malt, experimente. Seja teimoso. Seja quase estúpido. Se eu te disser para não tomar um whisky porque ele é ruim (ainda que eu provavelmente nunca vá lhe dizer isso), vá lá, beba, e jogue na minha cara que foi uma delícia.

Afinal, meu caro, se eu mesmo não tivesse arriscado, jamais estaria aqui escrevendo este texto.

22 thoughts on “O Cão Didático – Single Malts para Iniciantes

  1. Belo texto, um dos melhores até agora.
    Graças a reviews pela Internet, e muito também por este blog, comecei a me interessar por whiskies mais defumados. Provei o Laphroaig, comprei o Ardbeg e foi paixão instantânea. Muito obrigado pelas dicas e continue com outras excelentes postagens.

    1. Opa, obrigado Leonardo!

      Meu gosto também é pelos turfados. Quando tiver experimentado uma boa quantidade dos mais simples, tente o Laphroaig 18 anos ou Lagavulin 16 (esse terá que trazer de fora). São absolutamente geniais.

      1. Esta é uma grande dúvida minha meu caro,como importar um whisky se no Brasil não se pode importar bebidas alcóolicas ou a lei mudou?

        1. Alessandro, na verdade, não se pode importar como pessoa física. Entretanto, pessoas jurídicas com registro (RADAR e Licença de Importação) podem sim. É um processo moroso e caro. É preciso realizar analise laboratorial de todos os rótulos para obter aprovação do ministério da agricultura, e obter licenças individuais para cada rotulo! Ser importador por aqui é para poucos. Admiro as empresas que se aventuram nestes ramos.

  2. Certíssimo, claro que existem os maltes especiais para toda uma unanimidade, mas sabe, gosto e variedades de whiskies são ilimitados cada dia aparece um lançamento e o que pode ser ruim pra um é ótimo pra outro.Respeitemos gostos e tradições de famílias que acreditaram em cada espirituoso que produziram e produzem.Saúde!!!!

  3. Parabéns, quanta lucidez!!! Formidável!!!! Espetacular!!! Seus textos são como doses de Lagavulin 16 para mim, escreva sempre em quantidades absurdas!!! Por favor!!!

    1. Opa, muito obrigado Paulo! É uma honra ser comparado a um dos melhores whiskies turfados do mundo!

      O que me faz pensar uma coisa… Será que a Cã entenderia se eu dissesse que ela é como Lagavulin 16, ou ela vai achar que está cheirando a peixe? rss

      1. Grande Maurício, se ela entender isso como um elogio você pode se considerar um marido privilegiado, hehehe! Mas eu acho que melhor seria um Glenlivet 12, que é floral, suave e frutado. Abraço, Cesar.

  4. Esse é minha primeira visita, confesso que estou me perguntando porque não tina descoberto o Cão antes, rsrsrs… o Lagavulin custa em torno de 60 euros, mas so achei num site de compras por 580 reais. Qual a media de preço que você consegue encontrar aqui? Uma sugestão ao blog é deixar uma referencia de preço quando avaliar um rotulo, mesmo que seja o valor médio na Europa ou USA ou Japão, assim temos uma ideia rápida. Parabéns.

    1. Fala Ricardo! Opa, muito obrigado!

      Então, o Lagavulin não é vendido oficialmente no Brasil, porque a Diageo não o traz. Acredito que o único single malt atualmente no portfólio deles que é comercializado por aqui é o Cardhu. Minha recomendação é viajar e comprar. Sai mais barato, é mais divertido e mais seguro do que comprar em sites de anúncios, como Mercado Livre… 🙂

      Antigamente eu colocava essa referência, mas essas coisas mudam…

  5. Olá. Para começar, belo post e excelente ponto de vista, aliás, sempre leio com atenção seus reviews. Parabéns! Sou apaixonado por whiskies e recentemente resolvi adentrar de cabeça no mundo dos Single Malts, comecei pelo Cardhu 12 anos, passei pelo Glenfiddich 12 anos e há alguns dias atrás adquiri uma garrafa de The Dalmore King Alexander III. Fiquei muito curioso lendo seu post sobre o Laphroaig Quarter Cask. Peguei carona em sua dica e averiguando notas de degustação no site oficial do fabricante pude perceber que é um whisky que com certeza vai agradar meu paladar, observei também os vários prêmios que possui. Fico imaginando a sensação de degustar um single malt com “notas doces sutis” e o agradável sabor defumado que tanto aprecio. Para finalizar, queria sua opinião pessoal sobre coisas para mastigar com um bom whisky defumado e que possam realçar seus sabores. Antecipadamente grato e um 2017 próspero e criativo para você.

    1. Opa, obrigado Edmilson!

      Bom, dizem que a melhor combinação com os whiskies turfados são frutos do mar e peixes. Mas para te falar bem a verdade, apesar de já ter testado com ostras, salmão defumado, hadoque e uma miríade de coisas marinhas, minha combinação preferida foi com um queijo gorgonzola. Talvez pelo sabor forte do queijo não seja a melhor ideia quando se estiver experimentando pela primeira vez um whisky. Mas depois de se familiarizar com ele, fica ótimo!

      1. Antes de tudo, obrigado! Maurício que sapiência!!! Bom falar com quem realmente entende do assunto! Tomei recentemente um The Black Grouse acompanhado com camarões e senti que harmonizou bastante, por outro lado experimentei a mesma bebida em casa com uma combinação de queijo do reino, salame e azeitonas verdes e não me agradou muito. Sou muito grato pela dica e perdão por confundir seu nome em outro review, depois você notará… rsrsrs! Se me permitir ainda vou incomodá-lo bastante em outros posts. Grtande abraço.

  6. Obrigado pelas dicas precisosas Sou um iniciante no mundo dos single malts. Pelo que pesquisei algumas de sua dicas não são muito fáceis de achar aqui no Brasil. Eu já experimentei o Kardhu 12 e o Gleendfich 15 e adorei. ganhei de presente uam garrafa do Talisker 10 anos. Ainda não abri. O que você acha ele? Outra dúvida que tenho é a seguinte Beber um gole de água bem gelada antes de degustar um single(sem gelo) realça o sabor. Tenho feito isso e tenho gostado, mas não sei se é aconselhável. No mais quero cumprimentá-lo pelo blog e pelas “ulas” que vc dá sobre essas maravilhosas bebidas. Abraço

  7. para mim, iniciante, o Genmorangie Original (10 anos) foi excelente! achei um baita custo beneficio e agrada muito paladares iniciantes, tanto que ja converti mais dois amigos que “nao bebiam whisky”.

    1. Boa Thiago! Na verdade todo mundo bebe whisky – só que tem gente que não começou/descobriu ainda…rs

  8. Glenmorangie Original, Macallan12 Fine Oak, Dalmore 15, Macallan Select Oak, Glenmorangie The Duthac, Singelton Glendullan … TALISKER 10 anos (O Prodígio, segundo o respeitável Cão – com muito mérito), foram os “professores” na recente iniciação ao single malt. Mais uma vez, digno de nota a experiência com o Talisker 10 anos. Logo após navegar pelos mares calmos e suaves do Glenmorangie Original, o impacto foi significativo. A garrafa foi olhada com o canto dos olhos algumas vezes, até voltar num outro dia a derramar o precioso e turfado líquido no copo. Segunda e terceira vez … doutrinaram o conceito e abriram a porta para que o paladar pudesse … pedir mais. Ao fim de alguns dias -poucos -, aqueles mesmos cantos de olhos viram a garrafa deixar o aconchego das mãos. Vazia, usada, largada fora. O despertar da curiosidade com os singles malts, agregada à valiosa avaliação do Sr. Cão sobre o nobre prodígio (Talisker) permite assegurar, que quem bebe desta turfa, para sempre terá sede (Aqui ao lado, muito embora seja um blend, Black Bottlie, num belo copo glencairn, embala esta redação. Mais uma dica fantástica do Sr. Cão, pela qual segue meu agracecimento).

    1. Obrigado, caro Adriano! Que muitas garrafas passem pelo aconchego das mãos, e proporcionem bons momentos e experiências, tanto em mares calmos quanto naqueles mais revoltos, turfados e salinos!

  9. Antrs de mais nada gostaria a bela inciativa do cão em fazer esse blog, é excelente, quakquer leigo no assunto com 2 horinhas lendo o blog ja fica “expert” no assunto. Eu já li alguns tópicos e fiquei na dúvida, sou bem iniciante nos single malt, para falar a verdade nunca experimentei um… gostaria de saber qual é mais indicado ( não precisa ser o mais barato) para o meu paladar, visto que não sou fã dos red, Black label pelo fato achar muito amargo e descer “rasgando” até já experimentei um gold label na época que ele era 18 aninhos…enfim eu gosto muito do buchanas 12 anos, o de 18 anos até hj foi o melhor whisky que já tomei, achei muito suave, gosto tambem do velho e conhecido old par também, chivas 12 anos achei muito forte, ballantines até que eh bonzinho mas pelo preço próximo prefiro um old par…

    1. Opa, fala Ricardo, tudo bem?

      Você gosta de whiskies mais secos e levemente vínicos. Eu talvez pegasse um Cragganmore. Ele é a base do Old Parr. Mas não está disponível em nosso país. Então, por aqui, correria atrás do Glenlivet 18 anos. Ou talvez do Talisker. Mas tome cuidado com o Talisker, ele é defumado (muitos dizem que levemente, mas é uma fumaça perceptível!), então se você não gosta de whiskies assim (como é o caso do Double Black, por exemplo, ou do Grouse Smoky Black), eu não arriscaria!

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