Campbeltown Cocktail – Especificidade

Me vê com ketchup, mostarda, maionese, batata palha, um pouquinho de vinagrete e purê“, dizia pro Roger, que tinha uma van de hot dog na frente do colégio, na minha época do colegial. Van de hot dog, não foodtruck. E colegial, não segundo grau. Dois termos propositalmente aqui usados, para auntenticidade, que talvez denunciem um pouco minha idade. Toda quinta-feira, esse era meu almoço, e o preferido da semana. O Roger acenava com a cabeça, cortava o pão torto, pegava a salsicha que já estava lá na água há umas boas duas horas, e, em menos de trinta segundos, entregava o lanche prontinho.

Apesar da época quase medieval – quando não havia segundo grau e nem dijon no foodtruck – o Roger já tinha um cuidado todo especial com padronização e composição. O Ketchup tinha que ser do mais barato, aquele, quase vermelho neon. A mostarda, amarelo enxofre. Podia parecer só economia, mas ele sabia que, se melhorasse, piorava. O Hot Dog do Roger custava o equivalente a meio litro de gasolina hoje em dia. Mas transbordava de sabor.

No entanto, como quase tudo no mundo, há opostos. E no universo do cachorro quente, não é diferente. Do outro lado do espectro do dogão do Roger, está o mais caro hot dog do mundo. O do restaurante novaiorquino 230 FIfth. Dois mil e trezentos dólares. O prato – uma edição especial – tinha que ser pedido com antecedência de dois dias, e contava com uma linguiça de wagyu curada por dois meses, com cebolas Vidalia caramelizadas em champagne Dom Perignon, chucrute com Cristal e caviar. De graça, você levava dois potinhos – um de ketchup e outro de mostarda.

Lanchinho

Há, porém, muito mais em comum entre os dois sanduíches do que um pão com salsicha. Que é a escolha dos ingredientes. Tanto o Roger quanto o maluco do 230 Fifth, seja lá quem for, sabem que a é importante ser bem específico ao escolher os ingredientes para o prato. Seja uma mostarda radioativa, seja ovas de esturjão virgem. E, na coquetelaria, isso não é diferente. Alguns coquetéis exigem bebidas bem específicas. É isso que traz equilíbrio. Mesmo que – assim como o caso do dog milionário – estas não sejam necessariamente baratas.

O Campbeltown, coquetel tema desta prova, é um destes. São basicamente três líquidos nada singelos. Single malt de campbeltown, que na receita original, é Springbank 10 anos (algo que seria impensável para a maioria dos apaixonados por whisky). Cherry Herring, um licor de cereja pouco acessível, também usado no clássico Blood & Sand. E. por ultmo, Chartreuse verde – um licor de ervas francês de alta graduação alcoólica, produzido pelos monges cartuxos. Além de ser relativamente difícil de ser encontrado, seu preço não é nada amigável. Uma garrafa da bebida tem preço semelhante àquele de excelentes single malts.

Dito tudo isso, sinto a obrigação de me contradizer. Ocorre que o Campbeltown foi inventado em 2006 no Bramble Bar & Lounge de Edimburgo, atualmente considerado um dos melhores da cidade. Localizado na Queen Street, pertence a Mike Aikman e o bartender Jas Scott – o criador do coquetel. Por lá, por uma série de fatores, como a cotação da libra e o acesso a bebidas distintas, o uso de um single malt pomposo como Springbank parece justificável. Aqui, entretanto, a escolha não me parece razoável. Mesmo porque Springbank nem chega oficialmente ao Brasil. E, ademais, os dois licores são insubstituíveis – nem pense em colocar Luxardo, é completamente diferente.

Horroroso, mas uma delícia.

Assim, minha sugestão é apostar em um blend com perfil sensorial levemente enfumaçado, e que tenha força suficiente para domar Chartreuse e Cherry Herring, que são bem intensos. Ou um single malt um pouco – mas não muito – mais acessível. Meu melhor resultado foi, pouco surpreendentemente, com Bowmore 12 anos. Mas reduzindo um pouco a proporção dos licores, uma versão com Famous Grouse Smoky Black funcionou também maravilhosamente bem.

Lembre-se, entretanto, que a receita original é equilibrada ao redor de Springbank. Um single malt discretamente defumado, amadeirado e salino. Não vá chutar qualquer scotch whisky. Escolha com conhecimento. Aliás, com conhecimento, e não preço. Lembre-se do Roger, com seu delicioso dogão multicolorido. Se melhorar muito, estraga.

CAMPBELTOWN

INGREDIENTES

  • 60ml whisky levemente defumado e intenso
  • 30ml Cherry Heering
  • 15ml Chartreuse verde
  • parafernália para misturar

PREPARO

  1. Adicione todos os ingredientes num mixing glass com bastante gelo.
  2. gire, até resfriar bem. Cuidado com a diluição. A ideia é que este coquetel seja bem intenso
  3. desça em uma taça coupé previamente resfriada

2 thoughts on “Campbeltown Cocktail – Especificidade

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *