Jack Daniel’s Bottled in Bond – Drops

Se você é um apaixonado por whiskey americano, talvez você saiba que sua época embrionária não foi nada gloriosa. De fato, apenas uma pequena fração do que era destilado no século dezenove na América poderia hoje ser considerado um american whiskey, de acordo com nossos padrões atuais. O publico também não ajudava muito – os cowboys estavam longe de serem grandes degustadores sofisticados. O que importava era, bem, ficar bêbado.  Então qualquer coisa que envolvesse muito álcool era bem recebida nos saloons. Muitas vezes, o que se bebia nem era whisky. Mas sim álcool neutro misturado com algo que lhe desse cor ou algum sabor, para emular a bebida real. Essas fusões podiam incluir uma pletora de coisas, desde melaço até glicerina e ácido sulfúrico. Aliás, boa parte dos casos de pessoas que ficaram cegas bebendo algo que acreditavam ser whiskey – como reza a lenda – aconteceu por conta dessas combinações. Uma das tentativas de resolver a questão – e fazer o público deseducado beber melhor – partiu do Governo Federal dos Estados Unidos. Em 1897, foi promulgado o “Bottled in Bond Act”. De acordo com esta lei, whiskies que atendessem a certos requisitos de qualidade poderiam estampar, orgulhosamente, em […]

Johnnie Walker Wine Cask Blend

Gosto é um negócio engraçado. Porque há uma miríade de coisas que eu sempre gostei. Peixe e western, por exemplo. Há outras que quis gostar, assim, voluntariamente. E aí passei a admirá-las por insistência. Como negroni e aquela cebola grelhada incrível com um pouquinho de azeite e sal. Mas há outras coisas que não consigo gostar, independente de minha pertinácia. Uma delas é jazz. Eu chego às vezes até a ouvir um Miles Davis ou Thelonious Monk enquanto fumo um charuto, só pelo bem do cliché. E nessas situações, ainda que me sinta bem, quase não presto atenção na música. Jazz não me agride, mas não me seduz. E eu queria que fascinasse. Outra dessas coisas é vinho. Queria muito gostar e conhecer vinho. Mas em parte por conta de minha natureza, em parte por uma questão de ter que escolher frentes de combate, sei muito pouco sobre vinho. Tanto é que minha bússola sensorial é invertida. Uma vez, me serviram um Jerez oloroso. Experimentei com atenção e logo concluí. Tem gosto de Macallan. Ou Aberlour, talvez. E é curioso isso, porque a esfera dos vinhos não apenas tangencia a do whisky, como nela desempenha um papel importantíssimo. Há centenas […]

Drops – Port Charlotte MRC:01

  Há pouco mais de um ano viajei, ao lado de alguns amigos, para a ilha dos maltes defumados. Islay. Passamos lá três dias, e visitamos quase todas as destilarias da ilha, dentre elas, a Bruichladdich. Naquela oportunidade, nossa guia serviu alguns whiskies diretamente de barris. Dentre eles, um pequeno notável. Um Port Charlotte bastante jovem, retirado de uma barrica gravada com o nome de um lendário chateau francês – Mouton Rothschild. Fiquei imediatamente enfeitiçado por ele. Aquele era um whisky excepcional – o melhor que experimentei durante toda a viagem. Pensei, porém, que talvez a impressão tenha se dado por conta do ambiente. Provar um whisky direto de um barril, em uma belíssima destilaria costeira, eleva qualquer experiência. Talvez aquele Port Charlotte não fosse tudo aquilo – afinal, é mais fácil se apaixonar por um malte no frio de Islay, ao lado de um poético armazém de pedra e cercado de amigos, do que no calor escaldante de São Paulo, sozinho na frente de um computador. Quando voltei para casa, uma certa languidez etílica tomou conta de mim. Jamais teria a oportunidade de provar aquele whisky de novo e entender o que tanto me impressionara. Ao menos era o […]

Glenfiddich Fire & Cane – Drops

A primeira dose de 2019 para o Cão Engarrafado. Queria algo que fugisse do óbvio, mas que, ao mesmo tempo, trouxesse alguma familiaridade. Algo que se relacionasse com o espírito do ano novo. Aquela sensação de renovação, mas alicerçada nas mesmas convicções e atitudes. Enfim, algo que soasse novo, experimental, mas que na verdade fosse apenas uma visão, por outro ângulo, de algo conhecido. Não demorou muito para me decidir. Escolhi o Glenfiddich Fire & Cane. O Glenfiddich Fire & Cane é a quarta expressão da Glenfiddich Experimental Series – da qual fazem parte também o Project XX, Winter Storm e IPA Cask, já revisto nestas páginas caninas. Como sua intuição semântica já deve ter indicado, a série se dedica a whiskies com alguma característica considerada, pela Glenfiddich, como experimental. Uma finalização incomum – como no caso do IPA – ou um processo de blending inusual, como o Project XX. No caso do Glenfiddich Fire & Cane, o alegado experimento fica por conta de duas características. A primeira delas é o uso de barricas de rum para finalização – provavelmente Wood’s ou Sailor Jerry, que fazem parte do portfólio da William Grant & Sons. A destilaria não divulga o tempo […]

Ballantine’s 12 anos – Prioridades

Se há um mês do ano que demonstra como nossas prioridades mudam ao longo da vida, este mês é dezembro. Porque quando eu era criança, eu adorava dezembro. Naquela época, tudo em dezembro terminava num presente, em sono ou em má digestão. E minhas maiores preocupações eram o que eu ia pedir de natal pros meus pais, que dia eu entraria em férias da escola e como é que eu conseguiria comer metade de tudo que estaria na mesa da ceia da minha vó, sem passar mal e sem as pessoas me recriminarem. Hoje, porém, as coisas mudaram um pouco. Os presentes não são mais tão frequentes, ainda que eu continue comendo absurdamente e me arrependendo depois. Mas há algo que eu passei a receber com abundância em dezembro. Algo que eu nunca recebera, sequer uma vez quando eu era criança. E essa coisa não é whisky – mesmo que eu também não tenha ganhado nenhuma bebida alcoólica na aurora de minha vida, o que é um ponto positivo bem grande para a vida adulta. São os boletos. Em dezembro, na vida adulta, tudo termina em boleto. Esse ano cheguei até o absurdo de receber o boleto de um clube de […]

Jack Daniel’s Tennessee Rye – Drops

Poucas marcas de whiskey possuem tantos apaixonados como a Jack Daniel’s. A Jack Daniel’s é praticamente a Harley-Davidson etílica. Ou a Johnnie Walker dos Estados Unidos. Ele  está para o whiskey assim como o Bacon está para os alimentos ricos em colesterol. Ele é, bem, você entendeu o conceito. Assim, quando uma nova expressão da marca é lançada, é natural que haja uma certa comoção no meio dos entusiastas por whiskey. Principalmente se este lançamento contar com uma receita de mosto diferente daquela tradicionalmente usada. E é justamente isso que acontece com o Jack Daniel’s Tennessee Rye. O Jack Daniel’s Tennessee Rye é o primeiro lançamento da Jack Daniel’s com uma mashbill – a composição do mosto – diferente desde a época da Lei Seca Norte-americana, que aconteceu de 1920 a 1933. São mais de oitenta anos utilizando uma única receita, e com um sucesso literalmente entorpecedor. Caso você não saiba, a receita do mosto (mashbill) de um whiskey americano é uma de suas características de produção mais importantes. É ela que ditará boa parte do sabor da bebida e determinará qual sua classificação. Um whiskey com maior quantidade de milho, por exemplo, será mais adocicado – como é o […]

White Walker by Johnnie Walker – Whisky Geeking

Sempre fui um pouco nerd. Um pouco não. Acho que bastante. Durante a adolescência, jogava Dungeons & Dragons – e, como vocês sabem, quem joga Dungeons & Dragons não faz muita coisa além de jogar Dungeons & Dragons. Era apaixonado por Senhor dos Anéis e achava um absurdo terem aumentado a participação da Arwen no filme. E também gostava de Lovecraft, a ponto de ter um Ctulhuizinho de miniatura. Mas preciso confessar um negócio. Nunca assisti Game of Thrones. É, eu sei, a série é incrível e está cheia de criaturas assustadoras, como dragões, monstros de gelo e pré adolescentes chatos. Gente bebendo o tempo todo e gente que ainda não sabe nada. E quando você menos espera, eles vão lá e matam todo mundo que tem algum relacionamento com o Sean Bean, inclusive o Sean Bean. Mas vamos parar com isso antes que eu dê algum spoiler. Não é desinteresse. É uma certa inércia. E um costume meio esquisito da minha parte. Prefiro ver séries que já acabaram. Quando a última temporada de Breaking Bad foi anunciada, por exemplo, corri como um louco para ver todas as anteriores. Aliás, talvez, agora, comece minha maratona de Game of Thrones. Mesmo porque […]

Drops – Woodford Reserve Sonoma Cutrer Finish (Pinot Noir)

A prática leva à perfeição. Na verdade, nem sempre. Mas, talvez, na indústria do whiskey, isso seja verdade.  Ancorada em métodos tradicionais de produção, leveduras cuidadosamente armazenadas e cultivadas e barricas virgens de carvalho americano, o bourbon whiskey possui um sabor característico, quase temático. Caramelo, baunilha, mel. Um tema que, sinceramente, não precisa de nada a mais para ser um sucesso. Mas isso não significa que, de vez em quando, alguma inovação ou atipicidade surja. É o caso, por exemplo do Woodford Reserve Sonoma Cutrer Finish, ou – pelo seu nome completo – Woodford Reserve Master’s Collection Sonoma Cutrer Finish Pinot Noir. Como a pomposa e extensa denominação sugere, um bourbon whiskey finalizado em barricas de vinho tinto da uva Pinot Noir. O website oficial da Woodford Reseve já diz quase tudo que precisamos saber sobre essa maravilha. Transcrevo. “A cada ano, o master distiller da Brown-Forman, Chris Morris, lança uma edição especial da Woodford Reserve chamada Master’s Collection. Para cada lançamento, Morris muda algum aspecto do processo produtivo do whiskey (p.e. tipo de barril, finalização, grão, processo de fermentação, local de maturação e estilo). E em novembro veremos o nono lançamento da Master’s Collection” “Para o lançamento de 2014, […]

Ballantine’s Finest – Procrastinação

Se você é um novo leitor do Cão Engarrafado, ou chegou aqui pela primeira vez por meio de alguma ferramenta de busca, talvez não saiba. Então, vou contar novamente. Sou advogado. Trabalhei por uma boa década no mundo corporativo. Minha especialidade era mercado de capitais. Uma área que proporciona oportunidades incríveis para seus profissionais. Como, por exemplo, assistir o  crepúsculo e aurora pela janela de sua sala, enquanto revê duzentas páginas de um prospecto de uma emissão primária de ações de alguma companhia de maçãs. Quase tudo em mercado de capitais demorava bastante, mas deveria ser feito muito rapidamente. O que levava a intermináveis jornadas de trabalho, noites em claro e todo tipo de delivery. Mas duas das atividades mais infernais e intermináveis eram conhecidas como Back-up e Circle-up. Para evitar que você, querido leitor, morra de tédio, explicarei apenas brevemente. Back-up e Circle-up eram normalmente realizados simultaneamente, por um único advogado, e consistiam em circular, manualmente, todas as informações que deveriam mais tarde ser confirmadas, e numerá-las. De um a mil novecentos e alguma coisa, num documento de quase trezentas páginas. Duas vezes, uma pra cada. Quando abandonei o mercado de capitais, voltei a contemplar o prazer de uma noite […]

Drops – Mortlach 16 Flora & Fauna

Alguns whiskies são bons. Outros são muito bons. Alguns, excelentes. Mas há poucos que são tão formidáveis que conseguem retirar da obscuridade sua destilaria, outrora quase negligenciada – ou melhor, subvalorizada – e torná-la uma das mais desejadas entre os apreciadores e engarrafadores independentes. Este é o caso do Mortlach Flora & Fauna, um despretensioso rótulo lançado pela Diageo há algumas décadas. A linha Flora & Fauna da Diageo tem como objetivo colocar em foco as destilarias menos conhecidas de seu enorme portfólio, e dar a chance ao público de provar, como single malts, muitos dos whiskies utilizados em sua seleção de blended whiskies. Ao longo dos anos, foram vinte e seis rótulos diferentes. A série contou com destilarias hoje bem conhecidas, como Caol Ila e Clynelish. E até mesmo destilarias que atualmente não fazem mais parte do cluster da Diageo participaram, como Aultmore – hoje, pertencente à Bacardi. Dentre estes vinte e seis rótulos, porém, um dos mais bem recebidos foi o Mortlach 16 anos Flora & Fauna. Maturado principalmente em barricas de ex vinho jerez espanhol, e com um caráter oleoso e sulfúrico, a expressão tirou a Mortlach da quase obscuridade. Por conta do sucesso, a própria Diageo lançou, […]