A Educação faz o Whisky – Dalmore 18

A Educação faz o Homem. Foi o que o escritor britânico William Horman reproduziu em seu livro Vulgaria, de 1519 – um compêndio de citações e provérbios de sua época. No original arcaico “manners maketh man“, o aforismo pode parecer algo cavalheresco e ultrapassado, mas possui um significado tão simples quanto atual. Ele diz que a cortesia, educação e as boas maneiras são essenciais para se conviver em sociedade. E o homem aqui tem sentido amplo. É toda a humanidade.

Mas isso tudo é um detalhe. O importante mesmo é que a citação de Horman – que na verdade nem de Horman é – tornou-se a frase de efeito de Colin Firth, em Kingsman. O filme, dirigido por Matthew Vaughn em 2014 é, ao mesmo tempo, uma paródia e uma homenagem a todos os filmes de espião de todos os tempos. Mas, especialmente, James Bond. Assim como nos filmes de 007, a película é forrada de ternos bem cortados, explosões e vilões megalomaníacos. E muitas vezes é até melhor que Bond. O polêmico plano-sequência da igreja, por exemplo, é absolutamente incrível. E Samuel L. Jackson como um cruzamento entre Mark Zuckerberg e Elon Musk coloca qualquer Blofeld no chinelo.

Mas, acima de tudo isso, há o whisky. James Bond está para The Macallan assim como Kingsman está para Dalmore. Mais especificamente, um Dalmore Sinclair 62. Em uma das cenas do filme, o precioso liquido é expressamente citado por um agente secreto prestes a ser fatiado em dois. 1962 Dalmore. Seria uma pena derramar nem que seja uma gota. Este Cão não poderia concordar mais. O Dalmore Sinclair foi por muito tempo o detentor do recorde de whisky mais caro vendido. É uma garrafa preciosíssima, que hoje vale mais de cem mil libras.

Really astonishing, motherfucker.

A escolha do whisky é irrepreensível. Afinal, a Dalmore é conhecida por produzir alguns dos mais elegantes single malts da Escócia. Obra de Richard Paterson, que até pouco tempo capitaneava o processo de produção da destilaria, como seu master blender. Richard, mais conhecido como “The Nose” (O Nariz) é uma lenda na indústria do whisky. Seu olfato é tão preciso e treinado que há uma apólice de seguro sobre seu nariz, no valor aproximado de 2,5 milhões de libras, pelo Lloyd’s Bank of London.

No Brasil, a Dalmore, importada pela Casa Flora, conta com três expressões com idade declarada – 12, 15 e 18 anos. Este último, o tema desta prova. O Dalmore 18 é maturado em barricas de carvalho americano por 14 anos e transferido para passar  três anos em barricas de jerez Matusalem. Ele é então finalizado por mais um ano em barricas de carvalho europeu de ex-jerez e engarrafado a 43% de graduação alcoólica.  Tudo bem até aqui, pelo jeito. A descrição parece perfeita. Porém, aqueles mais inclinados para o mundo das parreiras notará algo curioso. Matusalém.

É que a maioria dos whiskies finalizados em jerez utilizam as variedades Oloroso ou Pedro Ximenes para o processo, mas pouco se ouve falar em Matusalem. Matusalem é, na verdade, um Oloroso adoçado, conhecido como Oloroso Dulce. Sua idade média é de 30 anos, e sua base é uma mistura de Oloroso e PX. A maturação inicial do vinho ocorre nessas barricas posteriormente utilizadas pela Dalmore – depois, ele é transferido para soleras, onde passa mais um par de décadas até ser engarrafado.

Uma maturação afiadíssima.

Os Dalmore são, tradicionalmente, single malts bastante oleosos com claríssima inclinação vínica. Mesmo os blends mais jovens da destilaria transpiram este caráter. Mas é no 18 que, na opinião deste Cão, ele encontra a maturidade. Há a troca do dulçor e do sabor de malte por algo mais elegante. Um sabor seco, perfeitamente equilibrado com o adocicado e frutado do vinho fortificado.

O caráter oleoso dos Dalmore se deve ao formato dos alambiques da destilaria. Os de primeira destilação são curtos e seus pescoços são achatados. Já os de segunda destilação possuem uma espécie de reservatório de água (water jacket) ao redor dos seus pescoços, que são preenchidos por água fria. Isso faz com que as moléculas mais leves condensem, favorecendo a passagem apenas da parte mais densa do destilado.

Se você é apaixonado por whiskies com aroma e sabor de vinho fortificado, ou se gosta de harmonizar o whisky com um charuto, o Dalmore 18 anos será seu companheiro por muito tempo. Elegância, equilíbrio e personalidade. Se William Hornam estiver certo e a educação realmente fizer o homem, então o Dalmore 18 anos é um verdadeiro cavalheiro.

DALMORE 18 ANOS

Tipo: Single Malt 18 anos

Destilaria: Dalmore

Região: Higlands

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: frutas cristalizadas, canela, vinho fortificado.

Sabor: Frutas em calda, uvas passas, panetone. Vinho fortificado. Final longo e vínico. Oleoso.

Com água: o sabor de especiarias fica menos evidente e a característica vínica ainda mais clara.

Preço: Em torno de R$ 800,00 (oitocentos reais)

 

5 thoughts on “A Educação faz o Whisky – Dalmore 18

  1. Como vai, mestre?
    Vejo muita gente criticando o Dalmore 12y, alegando que nele falta justamente uma maior maturação. Acredito que isso é solucionado no 18y e o ABV maior deve favorecer a finalização.
    Gostaria de provar um single malt mais oleoso qualquer dia.
    Abraço!
    PS: obrigado pelas respostas no e-mail. Foi extremamente esclarecedor!

  2. Por n ter achado o 18, adquiri o de 12 anos msmo, achei um excelente Whiskey, bem mais encorpado q um Jack, um toq apimentado no final… Mais claro, opinião de um leigo… adoraria saber sua opinião sobre esse Dalmore 12 anos… abraço cão, e um brinde…

  3. Caro Maurício,
    Infelizmente não conheço o Dalmore 18, mas se a idéia for acompanhar um charuto, minha experiência com o Dalmore Cigar foi o melhor casamento até então.
    Um caso não usual para maturação em barricas de Jerez (quase) é o Oban – Double Matured. A finalização ocorre em vinhos da região de Montilla (próxima a Córdoba) e que poderia ser considerado um Jerez Fino se não houvesse uma legislação disciplinando as Denominações de Origem.
    Abraços
    Sócrates

    1. Caro Sócrates, o bom de ter um blog de whisky é que a gente ensina, mas aprende um bocado de coisas legais também. Não sabia da história do vinho de Montilla!

      Gosto do Cigar Malt, prefiro com charutos mais delicados. O R&J Churchills com ele fica um casamento dos céus!

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