Dalmore King Alexander III – Combinação

Quinta-feira, oito da noite. Observo, com desânimo, o mais perfeito e alvo vazio do interior de minha geladeira. Nem mesmo o espaço sideral seria tão perfeitamente desocupado quanto aquele compartimento gelado. Indago à Cã se ela não gostaria de pedir algum delivery, visto que a alternativa seria lentamente morrer de inanição iluminado pela fria luz azul do freezer. A resposta é rápida – quero poke.

Faço um pequeno protesto. Não sou fã de poke. Acho uma comida bem aleatória – abacaxi, shoyu, shari e salmão me parece tão dadaísta quanto um Cão Andaluz. Reclamação que resta infrutífera, claro, afinal quem decide minha vida não sou eu. Me resigno a escolher os ingredientes de minha cumbuca sob o olhar ansioso, condenatório e faminto de minha querida esposa.

A indecisão toma lugar do protesto. Gente, sei lá como montar um poke. Certamente Sartre teria repetido a frase de que cada escolha é uma angústia ao olhar a lista de ingredientes possíveis de um poke. Quero atum, wakame, arroz, manga, picles. Não, pera, será que manga vai bem com picles? A Cã me observa com animosidade. Cada minuto que você perde é um minuto que eu passo fome. Gente, sei lá, eu não faço a menor ideia do que combina com o que.

Já pensou em misturar cebola, manga e polvo? Nem eu.

Se montar uma tigelinha com arroz embaixo é difícil, então, imagina um whisky. Mesmo um single malt. Misturar barris distintos e equilibrá-los, para que nenhum se sobressaia, e nenhuma nota dissonante transpareça. É um trabalho admirável, este. Ainda mais quando provamos rótulos como o maravilhoso Dalmore King Alexander III – a versão mais sofisticada da marca à venda no Brasil, e uma combinação improvável de barricas.

O Dalmore King Alexander III é maturado em seis diferentes barris. Carvalho americano de ex-bourbon, vinho jerez oloroso matusalem (uma espécie de Oloroso sofisticado, com um regime distinto de barricas), vinho italiano Marsala, vinho do Porto e vinho Cabernet Sauvignon. A concepção é do famoso Richard Paterson, mais conhecido como “The Nose”, e por muito tempo, master blender da The Dalmore. Seu nariz é segurado pelo Lloyds Bank em mais de um milhão de libras.

Alguém poderia argumentar que a combinação de barricas do Dalmore King Alexander III é algo tão aleatório quanto um poke, e que não é nada além da amálgama de diferentes vinhos. O que, de certa forma, faz sentido. O ponto, no entanto, aqui, está no equilíbrio. A proporção e a maturação de cada um dos componentes foi cuidadosamente pensada para que nenhum se sobreponha ao outro. O Dalmore King Alexander III tem as famosas notas de figo do porto, de passas do jerez e de baunilha do Bourbon sem que nenhuma delas pareça mais importante que a outra. O whisky é tão bem feito que, na verdade, seria impossível sequer supor sua combinação, não tivesse sido divulgada pela The Dalmore.

O nome – um desafio para qualquer um repetir depois de ter bebido duas ou três doses de whisky – é uma homenagem a uma história do Clan Mackenzie, e a razão pela qual a The Dalmore usa a cabeça de cervo em sua garrafa. Reza a lenda que em 1263 o Rei Alexandre III da Escócia foi atacado por um enorme cervo chifrudo durante uma caçada. O monarca teria sido empalado até a morte não fosse salvo por Colin of Kintail, chefe do Clan Mackenzie, que abatera o animal.

O Rei Alexandre III ficou tão feliz por não ter se tornado carne tenderizada que cedeu a Colin as terras do atual castelo de Eilean Donan, o lema “Luceo Non Uro” e o direito de usar uma representação da cabeça do animal como seu brasão. Este brasão que, mais tarde, por uma sucessão de eventos que não tem nada a ver com o Rei e – em boa parte – nem com Colin de Kintail, se tornaria o símbolo da The Dalmore, uma das mais reconhecidas destilarias das highlands escocesas. Mas estou a divagar.

Eilean Donan, com um cachorro no primeiro plano.

Para um entusiasta de whiskies, há alguns fatos um tanto espantosos sobre o Dalmore King Alexander III. O primeiro é que, apesar de ser a versão mais cara da destilaria em seu core range, ele não tem idade declarada. Com um pouco de pesquisa, entretanto, descobre-se que seu componente mais jovem possui algo como quinze anos. Além disso, é engarrafado na polemica graduação alcoolica de 40%. Um posicionamento justificado pelo argumento de que o whisky já vem na graduação alcoolica perfeita para o consumo – “adicionamos agua para que você nao precise adicionar“.

Na verdade, para o whisky geek, o King Alexander III é quase um desafio de lógica. Ele é tudo que um sabichão critica. Caro – aliás, o preço aqui está totalmente fora de discussão – sem idade declarada, com graduação alcoólica no mínimo regulamentar e com corante caramelo. E absolutamente fantástico. É como se a Dalmore trucasse o purismo e vencesse.

Seja como for, sem idade e com graduação alcoólica polêmica, o Dalmore King Alexander III é um single malt irrepreensível. Não há arestas pontiagudas, nem desequilíbrio. A intensidade, também, é perfeita. O whisky traz a profundidade e untuosidade que se espera de um single malt, mas se mantém fiel a seu público – aqueles que procuram delicadeza, luxo e complexidade. Nada, aqui, é aleatório. Tudo no Dalmore King Alexander III foi pensado nos mínimos detalhes.

Me pergunto se Richard Paterson alguma vez fez um Poke. Ah, esse sim, eu pediria sem pestanejar.

THE DALMORE KING ALEXANDER III

Tipo: Single Malt
Destilaria: Dalmore
País/Região: Escócia – Highlands
ABV: 40%
Idade: Sem idade declarada (NAS)

NOTAS DE PROVA:

Aroma: cítrico, com mel, cereais, chocolate, baunilha, frutas tropicais e pimenta.

Sabor: Frutas vermelhas, pimenta, laranja. Cítrico e amendoado. Final longo, apimentado e vínico. Incrível.

Onde: à venda no Caledonia Whisky & Co., e em varejistas selecionados.

7 thoughts on “Dalmore King Alexander III – Combinação

  1. Texto fantástico! Msm sabendo q dificilmente comprarei, fui seduzido por toda história, bebericando um Union Extra Turfado! Acertou como sempre, Cão! Grande abraço

  2. Boa noite.
    Meu caro Cão. Poke, para mim, nada mais é que uma tigelinha contendo alimentos misturados, assim como aquele vasilhame em que servimos aos nossos queridos caninos e felinos do lar. Por favor, não vai aqui qualquer falta de respeito ou consideração por sua amada Cã!!! Não mesmo!!!! Eu também não gosto de tigelinha!!!

    Assim, se me permitir, melhor seguir aquele famoso político: “bebo-o pois liqüido é, se sólido fosse, comê-lo-ia”

    Parabéns pelos belos textos.

    1. HAHAHAH exatamente meu caro Fernando. Cru, tudo misturado, completamente aleatório. Vai entender.

  3. A crônica, a história e o legado histórico refinam e fascinam esta perfeição encapsulada. O preço é o grande vilão. Tive oportunidade de apreciar uma dose tempos atrás, depois desta nota, preciso viver este momento novamente. Bravo!

  4. Boa tarde meu caro Cão.
    Imagino que esse espaço se pretende democrático, para os adoradores (me permita adoradores) desse líquido. Eu leio seus textos há tempos, e anteriormente encontrava um numero maior de comentários, inclusive com as suas respostas . Ultimamente…. percebo que o Cão publica poucos comentários de seus leitores, mas não acredito que esses tenham diminuído. Quero crer que a pandemia tenha parte da responsabilidade, contribuindo para a falta de… ânimo??? Sim, está afetando a todos. Eu mesmo já postei alguns comentários, pois acredito que sejam um sopro de ânimo para você, e não pura vaidade para quem escreve o comentário, mas nunca recebi, ou seja, nunca li suas respostas sobre os comentários. Assim, entendo que você esteja por demais contrariado para as respostas. Caso seja esse o ponto, me permita, salvo melhor juízo, melhor eliminar a possibilidade de comentários. Fica melhor para você, pois anula a nossa duvida de constatar a sua contrariedade com a nossa ignorância. Abraços Cão.

    1. Fala meu caro Fernando!

      Peço desculpas pela falta de resposta. Na verdade, os comentários devem ser aprovados, e eu tenho tido pouco tempo de ler e responder com o devido carinho. Tem que fazer com calma e cuidado – os leitores são importantes.

      Se tiver duvidas atrozes, manda um direct em nosso instagram. Por lá tende a ser mais rápida a resposta 🙂

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