Para onde foi todo o whisky japonês

Quando era criança, possuía um livro sobre animais extintos. Eram mais de vinte páginas, que ilustravam bichos como o cão da tasmânia, o dodo e o rinoceronte do oeste africano. Varridas de nosso mundo pela ação humana, mudança climática ou qualquer outra hecatombe. Animais outrora majestosos ou, no mínimo, curiosos, cujas espécies tornaram-se parte do passado. Ficava verdadeiramente triste em saber que jamais poderia ver um quagga ao vivo, por exemplo.

Por outro lado, havia alguns que não exerciam tanto fascínio. Tipo a Aranha Teia de Funil Cascada (Hadronyche pulvinator). Uma das aranhas mais venenosas do mundo, responsável por mais de duas dúzias de mortes registradas. Nativa da Tasmânia, este aracnídeo sórdido – isso é um pleonasmo – foi vítima da urbanização na pequena ilha, e acabou declarada extinta em 1995. Se você me perguntar, vou dizer com sinceridade que não me pego lamentando a inexistência da Aranha Teia de Funil Cascada. E nem me venha com o papo de equilíbrio ecológico, porque a Tasmânia tem uma boa quantidade de bichos desagradáveis para tomar seu lugar.

Foi tarde vlw flw

Mas não foram apenas animais – sejam eles vis ou não – que desapareceram. O whisky japonês também. E este fará realmente falta. Mesmo no Brasil, há poucos anos, não era difícil encontrar nas prateleiras de alguma loja uma garrafa de Hibiki 17 anos ou Yamazaki 12. Hoje, porém, é uma tarefa quase impossível. Mencionei isso por aqui expressamente, inclusive, ao falar sobre um de meus japoneses favoritos – o Hakushu 12 anos – e seu repentino sumiço.

A resposta sobre esse sumiço é simples. Sucesso. O que poucos sabem é que esta procura desenfreada é recente. Há dez anos, o quadro era diametralmente oposto. O whisky japonês não era popular nem mesmo em sua terra natal. A bebida era vista como algo da geração passada. Os jovens preferiam consumir outros produtos – especialmente destilados importados, como a vodka. De acordo com uma matéria veiculada na Asian Review – e conforme apurado pela National Tax Agency japonesa – o conusmo de whisky japonês caiu para um terço do que era, entre 1989 e 2008.

A reviravolta ocorreu quando a gigante Suntory – desesperada para elevar novamente o consumo de seus whiskies – lançou uma campanha publicitária em 2009. Ela associava o Kakubin, um de seus rótulos mais conhecidos e populares, ao coquetel highball (uma mistura simples entre whisky e alguma bebida gaseificada). Segundo a Suntory, o highball é um drink refrescante, que combina com climas mais quentes. A campanha funcionou, e o whisky japonês viu um discreto aumento em consumo.

Tem até versão em latinha

Cinco anos depois, em 2014, foi a vez da indústria do entretenimento alavancar as vendas do whisky nipônico. Foi lançada uma novela contando a história de Masataka Taketsuru, o fundador da Nikka e um dos personagens centrais na criação da Suntory. Como você sabe (ou não), Nikka e Suntory são os dois maiores produtores de whisky no Japão.

Mas o derradeiro empurrão veio do exterior. Em 2015, Jim Murray – um dos mais conhecidos especialistas em whisky da atualidade – elegeu o Yamazaki Single Malt Sherry Cask 2013 como melhor whisky do mundo. Segundo o autor, em uma declaração eivada de humildade, aquela escolha era uma chamada para que a indústria do whisky escocês despertasse. Porque claro, cabia a Murray esta messiânica tarefa.

Tudo isso trouxe uma busca pelo líquido nipônico sem precedentes. Uma busca que nem mesmo os produtores de whisky japonês – encabeçados pela Nikka e Suntory – imaginariam. Aqui, alguém poderia argumentar que bastava então aumentar a produção. Só que acontece que whiskies não são celulares. Whiskies demandam tempo. O tempo da barrica. O estoque maturado de whisky japonês era bem limitado, e não pôde acompanhar a enorme procura.

E o resultado seguiu a ordem natural da oferta e demanda. Com garrafas rareando, o preço decolou. De forma a atender a crescente demanda, as marcas consagradas fizeram aquilo que podiam: deixaram de produzir seus engarrafamentos mais maturados – como o Hibiki 17 anos – e lançaram expressões sem idade declarada no mercado, compostas por maltes mais jovens. Algo que, convenhamos, os escoceses também fizeram. Com isso, as destilarias ganhariam fôlego para recuperar o estoque mais maturado, vendendo o que podiam.

Barricas na Hakushu (fonte: Yamanashi-Kankou)

Outras marcas menos conhecidas, porém, adotaram uma estratégia um pouco diferente. Uma estratégia baseada na esparsa legislação japonesa sobre whisky, que jamais poderia ser implementada na Escócia. Tão chocante que acho que darei uma pausa aqui, e iniciarei um novo capítulo neste texto, chamado de…

NEM TODO WHISKY JAPONÊS É JAPONÊS

Deixe-me abrir um metafórico parêntesis aqui para explicar isso, que é bem importante. Acontece que quase não há leis no Japão relativas à produção e comercialização de whisky. E, por conta disso, é permitido – ou melhor, não é ilegal – que um whisky destilado e maturado em outro país e engarrafado no Japão seja rotulado como whisky japonês.

É quase um sofismo. Se um carro alemão pode levar duas centenas de peças produzidas na China, para baratear seu custo, este racional poderia ser facilmente também aplicado a uma bebida, como um whisky. É uma logica – porcamente – defensável, mas, por outro lado, enganadora. Carros são produzidos com base em acordos de nível de serviço, com estritas especificações sobre cada um de seus componentes. Uma Mercedes-Benz produzida no Brasil não é menos do que uma produzida na terra natal da marca.

Deixe-me mudar para um exemplo mais direto, caso ainda tenha dúvidas. Se você coloca o Emile Hirsh vestido de Speed Racer, o Justin Chatwin com o cabelo espetado do Goku, ou a – meu deus, maravilhosa – Scarlett Johansson como Major de A Vigilante do Amanhã, eles não viram automaticamente japoneses. Então, por que isso seria diferente com whisky?

Linda, mas vacilou. Mal aí.

Ocorre que essa é uma prática antiga no Japão. E mesmo marcas consagradas o fazem há algum tempo. Normalmente, estes whiskies importados são destinados às expressões mais baratas destes grupos, de forma a criar diversidade sensorial e – por que não – volume. O problema é que, devido à escassez de whiskies verdadeiramente japoneses, novas marcas surgiram, dispostas a explorar este nem tão pequeno e pouco louvável nicho. O nicho de enganar o consumidor, simplesmente engarrafando whiskies importados a granel e rotulando-os como nipônicos.

A Scotch Whisky Association (SWA) possui números que comprovam essa tendência. A quantidade de whisky exportado da Escócia para o Japão a granel aumentou quatro vezes nos últimos anos. Conforme matéria veiculada no Scotchwhisky.com, a exportação de blended malts para o Japão subiu para 1,4 milhões de litros, e de whisky de grão, 1,7 milhões. É bastante whisky repatriado.

O problema disso é que a utilização descuidada – e muitas vezes de má-fé – destes whiskies importados pode ser extremamente danosa. Estas novas marcas são, em sua extensa maioria, blends produzidos de forma descuidada, apenas para suprir um público ávido por whiskies japoneses. Mesmo que nem produzidos no Japão eles tenham sido. É tragicômico. O whisky japonês, na última década, ganhou fama em boa parte devido à sua irrepreensível qualidade sensorial. E, agora fora vítima de seu próprio sucesso.

A SOLUÇÃO?

A solução do problema da escassez de whiskies verdadeiramente japoneses passa por um cliché. O tempo.

Meu avô poderia dizer, em tom profundo e reflexivo, que o tempo tudo resolve. E eu concordaria com ele, com olhar condescendente. Mas nem tudo é resolvido pelo tempo. Num mundo regido pela entropia, o maior papel do tempo é destruir. Mas  se o assunto fosse whisky, meu avô estaria corretíssimo. É necessário tempo para maturar mais whisky. Os grandes produtores japoneses sabem disso e elevaram sua produção. Porém, há o tempo de maturação. E esse não pode ser acelerado.

Em relação a isso, pode-se apenas aguardar. Aguardar o tempo passar e tomar medidas para que essa escassez não volte a acontecer.

Mas há algo que deve ser feito com urgência. A criação de leis e regras que imponham limites a essa prática. Algo que a Scotch Whisky Association – apesar das inúmeras críticas – faz com maestria na Escócia. É apenas assim que o whisky japonês terá a chance de preservar sua reputação – e não encontrar o aniquilamento como centenas de espécies de animais. Porque isso seria uma pena. Uma pena, menos no caso da Aranha Teia de Funil. A Aranha Teia de Funil pode continuar não existindo.

14 thoughts on “Para onde foi todo o whisky japonês

  1. Mas aqui. Por curiosidade: a Suntory não encerrou operações no Brasil? Até onde sei, eles decidiram não mais exportar pra cá. Ou estou enganado?

    1. Conrado, não é bem assim. A maioria dos japoneses era importado pela Tradbrás. Eles por um tempo deixaram de renovar as importações dos rótulos mais sofisticados (Yamazaki, Hakushu, Hibiki), mas continuaram com o Kakubin. Porém, depois, a importação do kaku também foi descontinuada. Não sei se a decisão partiu da Suntory (que resolveu focar em mercados chave) ou da propria Tradbrás, que – devido ao aumento da carga tributária e do cambio desfavorável – resolveram não trazer mais o whisky.

  2. Anos atrás digamos uns 4 anos, comprei o kakubin, o hakushu, o yamazaky e os hibikys 17 e 12 anos muito barato. Me espanto quando vejo pessoas hoje querendo vender o hibiky 17 anos por 4.500,00 R$.

    1. Bons tempos que tinhamos whiskies japoneses a disposição. Sou completamente apaixonado pelo Hakushu 12 anos. Até digo isso no review. É um que deixou muitas saudades mesmo.

  3. Tenho um Hakushu 12 anos que consegui comprar depois de ler seu post sobre ele. E não tenho coragem de abrir.

  4. Como vai, mestre? Te confesso que nunca provei whisky japonês, mas gostaria muito. Nem que fosse um Suntory Kakubin. Percebo que esta tendência de produzir whisky só para suprir consumo, sem a devida preocupação com qualidade acontece bastante.

    Abraço.
    Em tempo: Sanaig tem o tipo de presença da turfa que mais me agrada. Gostei bastante e acredito que gostaria mais ainda do Machir Bay, mas os Kilchoman estão escassos. Espero que não tenham o mesmo destino dos nipônicos.

    1. Kilchoman tem produção pequena mesmo, mestre! Mas talvez apareça novamente no futuro. Eles foram trazidos para America do Sul por uma empresa chamada Monarq, que os representa! Mas fique tranquilo, eles não sumirão 🙂

      1. Prezado Cão,

        Sobre o tour que fiz na Suntory Yamazaki Destillery:

        O tour superou minhas expectativas, após reserva no site e confirmação por email, a destilaria é de fácil acesso usando uma linha de trem suburbano que sai do centro de Kyoto.

        O local é uma zona meio residencial de alto padrão, meio industrial. O pagamento do tour é feito na portaria da destilaria onde se forma o grupo de mais ou menos 12 pessoas.

        No meu grupo, a maioria era de japoneses, creio que apenas 4 pessoas eram estrangeiras. Para que não fala japonês (como eu) eles distribuem um fone de ouvido de boa qualidade onde você ouve uma gravação em inglês do que a guia está dizendo em Japones,

        Após ser recebido pelo Diretor Geral e das boas vindas, a guia contou a história do whisky no Japão, a história da destilaria e explicou todo o processo da fabricação do whisky ao longo do tour sempre em japonês, porem quem tinha duvidas e perguntas ela também esclarecia em inglês.

        Depois de conhecer toda a fábrica e os locais de armazenamento, fomos as degustações, que por sinal me surpreendeu. Provamos 4 whiskies com direito a repetição para quem desejou, alem de alguns petiscos e snacks para acompanhar a degustação, o que me serviu como almoço.

        Finalizamos o tour na lojinha que é bem completa, onde você pode comprar, copos, acessórios, roupas, mochilas, livros, além de claro, whisky.

        O tour começa as 9am e termina as 12pm e para quem deseja, pode continuar com mais uma sequência de degustação paga a parte, ou mesmo um almoço no jardim, acompanhado de whisky. Eu já sai meio torto de la com as 4 doses de whisky, imagino que ficou para mais uma sequência de degustação.

        Segue o site para quem quiser conhecer. Recomendo muito !
        https://www.suntory.com/factory/yamazaki/

        Abs,

        1. Makiley, que experiência fantástica. Deu vontade mesmo de ir e conhecer. Parece um tour bem completo e detalhado, para levar esse tempo ainda mais com a degustação.

          E quais foram os whiskies provados? Você se lembra?

          Abraços!

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