Drops – Ardbeg Twenty One

Uma Lamborghini. A imagem que me veio à mente imediatamente ao provar o belíssimo Ardbeg 21 (Twenty One) foi uma Lamborghini. Um automóvel com acabamento luxuoso, com materiais faustosos, todos milimetricamente encaixados, costurados, colados. Algo cuja delicadeza no feitio contrasta diametralmente com sua performance – que poderia ser definida como selvagem.

Há, no Ardbeg Twenty One, uma certa sofisticação selvagem. Uma elegante exorbitância. Algo bem diferente de outros rótulos da destilaria. Ao contrário do queridíssimo Corryvreckan e Uigedail, a selvageria no Ardbeg Twenty One parece incrivelmente contida. Ela está lá, latente, você sabe que ela está lá, mas não transparece tanto. É algo subliminar.

O Ardbeg Twenty One não sofre filtragem a frio. A garrafa não deixa claro se corante caramelo é utilizado. Mas, considerando os demais whiskies do portfólio da destilaria, é bem mais provável que sua belíssima cor seja absolutamente natural. O whisky é engarrafado na graduação alcoólica de 46% – perfeita para um líquido de contida selvageria.

A maturação do Ardbeg Twenty One ocorre exclusivamente em barris de carvalho americano de 200 litros que antes contiveram bourbon whiskey. Apesar disso, sensorialmente, é um single malt extremamente complexo. A turfa (o defumado e medicinal) não é tão forte como nos Ardbeg mais jovens – como é de se esperar. O cítrico característico da destilaria, porém, está bem mais evidente, e é reforçado por um sabor residual de amêndoas e caramelo absolutamente incríveis. Há também um apimentado – a parte selvagem – que harmoniza os demais elementos.

Há uma curiosidade sobre o Ardbeg Twenty One. Seu lançamento aconteceu em 2016. O que significa que sua destilação se deu no ano de 1995 – uma época bastante atribulada para a destilaria. O Website Malt, em um belíssimo artigo, explica a história. Durante a década de 80 a Ardbeg esteve fechada, até ser comprada em 1989 pela Allied Distillers Ltd – que passou a utilizar seu malte especialmente para blended whiskies.

Porém, pouco tempo depois a Allied Distillers comprou também a Laphroaig. Com isso, reduziu a produção de malte na Arbeg, até finalmente fechá-la em 1996. O que significa que o Ardbeg Twenty One foi destilado em seu último ano de funcionamento antes de cair em silêncio e retornar, apenas em 1997, nas mãos da Glenmorangie Company. E uma curiosidade da curiosidade – o alambique que hoje está fincado na entrada da destilaria, saudando os visitantes, foi aquele que destilou o Twenty One, naquele terrível ano de 1995.

Ex-Alambique

Aqui, adoraria recomendar a todos que provassem o Ardbeg Twenty One. É um malte maravilhoso. Porém, é um whisky bastante raro – este Cão somente conseguiu experimentá-lo por sorte, ao encontrar uma solitária garrafa que resplandecia na prateleira de um sofisticado bar, durante uma viagem internacional.

Além disso – e acima de qualquer coisa – recomendá-lo seria de uma presunção inimaginável. Seria como se concluísse este texto aconselhando que, se alguém encontrasse por aí uma Lamborghini, não perdesse a oportunidade de comprá-la e dirigi-la. Mas que fique registrado – O Twenty One é um testemunho da enorme qualidade dos Ardbeg, mesmo contida pelas maiores adversidades. Selvageria seria não reconhecer isso.

ARDBEG TWENTY ONE

Tipo: Single Malt (21 anos)

Destilaria: Ardbeg

Região: Islay

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: Fumaça, frutas cítricas, baunilha, caramelo.

Sabor: Frutas cítricas e amarelas, amêndoas. O final é salino e defumado, com um incomum dulçor de caramelo e baunilha.

 Disponibilidade: apenas lojas internacionais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *