Sobre a Criatividade – Glenfarclas 12 Anos

Glenfarclas 12

Esses dias me perguntaram qual era meu livro preferido. Fiquei bastante tempo pensando. Um livro só? Não dá para fazer ao menos um top five? Gosto de quase tudo de Dostoievski. Gosto também de Camus, especialmente A Queda, e para os dias de mais testosterona, Hemingway. Vivo, Ian McEwan é excelente, principalmente Serena.

Mas uma obra só? Aí acho que terei que escolher Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Para quem nunca leu, o livro trata da trajetória secular de uma família – os Buendía – e do vilarejo por eles fundado, Macondo. Na verdade, a história pode ser interpretada como uma alegoria, em um mundo de realismo fantástico, para a América Latina. Macondo passa, ao longo de sete gerações de Buendías, por quase tudo que passou a América Latina, desde a chegada dos espanhóis.

O único problema do livro é entender quem é quem. São mais de cinquenta personagens só da família. Isso faz com que muitos leitores tracem uma arvore genealógica dos Buendía, para auxiliar na leitura. Mas nem assim é fácil. Por dois motivos. Primeiro porque os Buendía não eram lá muito ligados nesse negócio de moralismo, então não adianta você tentar entender quem é quem pelo contexto. Às vezes está realmente rolando uma sacanagem entre primos, ou irmãos, ou tia e sobrinho. E você acha que entendeu a história errado, mas não entendeu.

Podia ser os Buendía, mas na verdade são os Sonhadores, de Bertolucci.
Podia ser os Buendía, mas na verdade são os Sonhadores, de Bertolucci.

E em segundo lugar – e que torna o livro ainda mais confuso – é uma particularidade dos Buendía. A mais absoluta e indiscutível falta de criatividade para nomes. A família contou, ao longo de sete gerações, com mais de cinco Arcádios ou José Arcádios, e mais do que o triplo disso de Aurelianos.

No mundo real, uma família bem parecida com os Buendía – ao menos na parte de criatividade para nomear seus descendentes – são os Grant, proprietários da destilaria Glenfarclas por mais de seis gerações. A Glenfarclas foi comprada de seu fundador, Robert Hay, por um homem chamado John Grant, em 1865. John teve dois filhos, John e George. George, por sua vez, teve outros dois filhos, batizados de John Peter Grant e George Scott Grant. George Scott Grant, por seu turno, teve um filho, cujo nome não poderia ser outro senão John L.S. Grant. John, por fim, lhe deu um neto. Adivinhem seu nome? Acertou quem disse George Grant.

Para ser bem sincero, criatividade, de uma forma genérica, definitivamente não é o forte da família Grant. Tudo bem que eles lançaram o primeiro whisky cask strenght do mundo, o Glenfarclas 105, em 1968. Mas aquele foi a último raio de criatividade que atingiu um Grant. Atualmente, a Glenfarclas possui nove expressões com idade definida em seu portfólio. Todas elas, maturadas primeiro em barricas de ex-bourbon, para depois passar para barricas de ex-jerez. A única coisa que muda é a idade e a cor da garrafa. Mesmo assim, a cor da garrafa às vezes repete!

Mas há uma vantagem suprema nisso tudo. Depois de seis gerações produzindo, basicamente, o mesmo whisky, os Grant e sua destilaria Glenfarclas tornaram-se mestres incontestes de seu estilo. Não o de batizar pessoas. Mas de produzir whiskies clássicos, encorpados, ricos e de final persistente. O acompanhamento perfeito para um bom charuto. E por incrível que pareça, para acompanhar um puro, o melhor deles é o Glenfarclas 12 anos, irmão mais jovem do Glenfarclas 15 anos, já revisto por este Cão. E isto se deve, em parte, por conta de um desequilíbrio quase proposital.

José Arcadio e seu filho Aureliano Buendía.
José Arcadio e seu filho Aureliano Buendía.

A maturação do Glenfarclas 12 anos ocorre em barricas de bourbon e ex-jerez, especialmente oloroso. Entretanto, ao contrário do que normalmente acontece com outros single malts, parte do destilado descansa por doze anos em barricas de ex-jerez, e a outra parte, em barricas de ex-bourbon, encontrando-se apenas no momento do engarrafamento. O perfil encorpado do destilado, aliado ao relativamente curto espaço de maturação e aos tipos de barrica utilizados, ressalta o sabor picante do single malt, e torna seu final mais forte e persistente.

A Glenfarclas é a única destilaria escocesa que ainda utiliza fogo direto para aquecer todos seus alambiques. Esta técnica tende a produzir um destilado mais encorpado, mas aumenta muito o custo de manutenção dos alambiques, que hoje, são os maiores da região de Speyside, onde a Glenfarclas se localiza.

Em 2006 o Glenfarclas 12 anos foi eleito como “melhor whisky maturado em jerez” na Copa do Mundo dos Single Malts (Single Malt World Cup), e em 2008, recebeu medalha de ouro no Festival da Cerveja e do Whisky de Estocolmo.

Se você gosta de um whisky doce, encorpado e persistente, o Glenfarclas 12 anos é satisfação garantida, ainda mais acompanhado de um charuto e boa literatura. Porque assim como muitas obras literárias, alguns whiskies jamais saem de moda ou ficam ultrapassados. Tornam-se, apenas, clássicos.

GLENFARCLAS 12 ANOS – NOTAS DE PROVA

Tipo: Single Malt 12 anos

Destilaria: Glenfarclas

Região: Speyside

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: adocicado, especiarias, frutas.

Sabor: frutas secas, ameixa, cravo, canela e especiarias.  Levemente defumado. Final bastante longo, com especiarias.

Com água: o final torna-se mais curto, mas ainda é possível sentir os sabores de frutas secas claramente.

6 thoughts on “Sobre a Criatividade – Glenfarclas 12 Anos

    1. Antonio, bastante. O Heritage é bem suave, e quase não tem o aroma característico das barricas de jerez. Já o Glenfarclas 12 anos tem bastante sabor de especiarias e frutas cristalizadas, característico deste tipo de maturação.

  1. Mais um excelente texto, acompanhado de outro excelente Review! Acho incrível sua capacidade de puxar assuntos aleatórios para “casar” com os destilados analisados!
    E cara, deixe-me somente fazer duas observações: A Glenfarclas é uma de três destilarias que ainda utilizam fogo direto, pelo que sei. As outras seriam a Springbank e (pasmem!) a Glenfiddich.
    O outro adendo seria sobre a segunda foto, onde estão José Arcadio e Aureliano Buendía, ou melhor, John Grant e George Grant, posando na destilaria de Glen… livet(?!)… Ué…

    Bem, é isso!
    Continue com as ótimas postagens!
    Abraço

    1. Imon, você tem razão quanto aos alambiques. Vale uma pequena “retificação”: a Glenfarclas é a única destilaria a utilizar fogo direto em TODOS os seus alambiques. Texto alterado.

      Você é mais detalhista que a minha filha, hein? É verdade, não havia reparado. Meu palpite é que essas barricas sejam anteriores a 1970, quando a Glenfarclas ainda usava um “sobrenome”: Glenlivet. Se reparar nas garrafas de Glenfarclas daquela época, verá que o nome Glenlivet aparece pequeno, na parte direita do rótulo, embaixo do nome Glenfarclas. Provavelmente esses casks estão marcados como “Glenfarclas-Glenlivet”, mas graças ao bração do John Grant, não conseguimos ler toda a marcação.

        1. Assumo que eu tive que dar uma pensada para desvendar o mistério. Mas uma foto que encontrei na internet ajudou. Tinha um barril pintado com “Glenfarclas-Glenlivet”… rs

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