Por um Mundo Sustentável – Highland Park 18 anos e Ola Dubh 18

Highland Park e Ola

O que você quer ser quando crescer? Durante minha infância, tive várias respostas diferentes para essa pergunta. Lá pelos três, queria ser caminhoneiro. De carreta, daquelas com doze eixos. Depois pensei melhor, e resolvi que seria piloto de carro. Mas como tenho a mesma coordenação de canhoto bêbado escrevendo com a mão direita, decidi que, para evitar o bullying, daria a resposta genérica: astronauta.

Hoje, pensando bem, não sei por que eu queria ser astronauta. Ser astronauta deve ser um saco. Pior ainda se for da Estação Espacial Internacional (ISS). Primeiro porque você tem que morar num lugar apertado, desconfortável e frio. E pior, com gente que você nem sabe direito quem é. Imagina ter que passar seis meses, absolutamente confinado lá dentro, na companhia de, sei lá, o Tony Ramos? Será que hoje tem Friboi?!

Mas o pior de tudo, de longe, é que você tem que beber seu xixi. É sério. Se eu soubesse disso, teria desistido na hora de ser astronauta. É que a ISS reutiliza 97% da água descartada por seus “habitantes”, por meio de um sistema de centrífuga e fervura.

Beleza, mas e a carne? É Friboi?!
Beleza, mas e a carne? É Friboi?!

Na prática, isso significa que o suor secretado pelas glândulas pentelhas (sem duplo sentido aqui) do Tony Ramos se misturará com o xixi dele e com a água do banho dele, que, por sua vez, se misturarão com seu xixi e com o cafezinho que você tomou. E esse caldo nojento de gente será centrifugado e fervido, para que você, meu caro astronauta, possa novamente tomar uma água pura, límpida e cristalina.

Desde que soube disso, alertei todas as crianças que conheço. E deu certo. Uma delas, inclusive, desistiu de explorar o cosmos para tornar-se piloto de F1. Achei uma escolha sensata. Mas será que eu conto pra ele que os pilotos fazem xixi dentro do macacão?

Enfim, apesar de ser um negócio bem nojento, não há outra saída. Descartar toda a água e trazer nova da terra seria, simplesmente, burro. Em um local de recursos escassos, a reutilização é essencial.

Mas não é só no perrengue que recursos devem ser reutilizados. Eles podem ser reutilizados também para melhorar coisas que já são boas. Um exemplo bem claro disso é o whisky Highland Park, e as cervejas Ola Dubh, da cervejaria escocesa Harviestoun. A cervejaria reutiliza as barricas de carvalho que antes maturaram os whiskies da destilaria, para envelhecer sua própria cerveja. A Highland Park, por sua vez – e como toda destilaria escocesa – reutiliza, principalmente, as barricas que maturaram vinho jerez. É uma história de reciclagem de dar gosto. E certamente bem melhor do que beber seu xixi recondicionado.

No caso da Ola Dubh, A Harviestoun coloca sua Old Engine Oil, uma cerveja escura de alta graduação alcoólica, para maturar por até seis meses em barricas que antes continham o single malt. Assim, o rótulo das cervejas indica o whisky proveniente da barrica que a maturou. Quer dizer, uma Ola Dubh 18 não passou dezoito anos em barril, mas foi maturada por um período bem menor que este, em uma barrica que antes foi usada para produzir o Highland Park 18 anos.

E isso é engraçado, porque as cervejas que utilizam barricas que maturaram as expressões mais caras do whisky – como é o caso da Ola Dubh 30 – acabam por adquirir menos sabores e aromas provenientes das barricas. Muito provavelmente porque, para estes whiskies, a Highland Park já utiliza barris de segundo ou terceiro uso, e não sobra muito para ser transferido à cerveja.

Ou seja, às vezes, menos é mais.
Ou seja, às vezes, menos é mais.

Ainda que a diferença entre as expressões da Ola Dubh seja apenas discreta, a preferida deste cão é a 18. Em grande parte, por conta de memória afetiva. Meu Highland Park preferido, dentro do portfólio permanente da marca é também o 18 anos. Ele é um whisky extremamente equilibrado, com um toque leve – ainda que bem perceptível – de fumaça.

A Ola Dubh 18, por sua vez, é uma cerveja escura, bastante densa e com pouca carbonatação. Comparada a outras cervejas do gênero, ela é menos doce, e o tempo no barril lhe proporciona aromas de baunilha e especiarias. Talvez eu esteja enganado, mas não senti o mesmo aroma defumado do whisky na cerveja. Nela, ele é bem mais discreto. O que é estranho, porque, ao contrário do que ocorre com o whisky, a barrica não passa por qualquer processo de tosta antes de receber a cerveja – o que deixaria em muito maior evidência o aroma do whisky.

A Higland Park localiza-se na ilha de Orkney, famosa pela colonização viking (muitos rótulos da Highland Park fazem homenagem ao folclore deste povo). É também a destilaria que está mais ao norte, dentre todas as escocesas. A Harviestoun, por sua vez, localiza-se em Clackmannanshire, 300 milhas ao sul da Highland Park – mais ou menos dobro da distância que ISS fica da terra, e a mesma que eu quero ter do xixi do Tony Ramos.

A garrafa de 350ml da Ola Dubh 18 custa, em média, R$ 50,00 (cinquenta reais). É bem caro para quaisquer padrões. Entretanto, em vista do processo produtivo elaborado e de seus ingredientes, é uma cerveja que certamente vale a pena experimentar. O Highland Park 18 anos, bem, esse não existe no Brasil. Entretanto, pode-se encontrar em lojas de duty-free, inclusive de nossos aeroportos internacionais, por aproximadamente US$ 95,00 (noventa e cinco dólares).

Assim, este post do Cão terminará com uma dupla recomendação. Se você gosta de whiskies complexos e levemente defumados, o Highland Park 18 não decepcionará. E se você é fã de cervejas escuras, e quer experimentar algo diferente, ou mesmo entender como a madeira impacta no sabor de uma cerveja, invista na Ola Dubh.

Exceto se você for astronauta. Porque aí, o máximo que você vai beber é xixi recondicionado mesmo.

NOTAS DE PROVA

OLA DUBH 18

País: Escócia

Cervejaria: Harviestoun

Tipo: Imperial / Double Porter

ABV: 8,00% (varia)

Notas de prova:

Aroma: aroma de café, chocolate e caramelo.

Sabor: Chocolate amargo e café. Quase sem carbonatação. Bastante densa, com um pouco de baunilha e especiarias. Final longo, adocicado e levemente defumado.

Preço: R$ 50,00 (cinquenta reais)

 

HIGHLAND PARK 18 ANOS

Tipo: Single Malt 18 anos

Destilaria: Highland Park

Região: Islands – Orkney

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: aroma de mel e frutas. Defumado quase imperceptível.

Sabor: Frutado, com compota de frutas e damasco. Claramente defumado, mas não tanto quanto um Laphroaig 18 anos. Final longo, com especiarias e fumaça.

Com água: A água torna o sabor mais doce e o defumado fica menos evidente. O final fica mais curto e um leve aroma floral aparece.

Preço: US$95,00 (noventa e cinco dólares)

14 thoughts on “Por um Mundo Sustentável – Highland Park 18 anos e Ola Dubh 18

  1. Como sempre mais um excelente testo amigo Maurício. Agora oficialmente promovido de poeta dos Whiskies para poeta de Whiskies e cerveja. Slàinte!

    1. Milton, muito obrigado! Mas vou me concentrar nos whiskies. Sabe como é, temos que escolher frentes de combate!

  2. Rolando de rir com esse Review… ahahah
    Eu acho que quando outra criança responder que quer ser piloto de F1, você também deveria estragar mais esse sonho!
    Agora, falando da cerveja e do Whisky, ambos são sensacionais! Pra mim, o Highland Park 12 tem um Custo/Benefício exemplar, sendo até melhor que muitas versões de 15 (e até 18) de alguns outros Single Malts. O HP 18 então, nem precisa de explicação. Já a cerveja, apesar de cara, vale muito a pena. O defumado do final é o que falta em outras cervejas para que eu pire de vez nesse mundo fermentado. Ah, e pra lembrar, em Orkney também tem a destilaria de Scapa!

    Até mais! ^^

    1. Isso aí, Imon. Scapa e Highland Park estão a um quilômetro de distância uma da outra. E é engraçado isso, porque o Scapa é um whisky absolutamente leve – talvez por usar predominantemente barrica de ex bourbon – e sem quase nenhuma defumação, enquanto que o HP é bem mais intenso e é inegavelmente defumado. O HP 12 é fantástico também. Na verdade, a HP tinha uma versão 16 anos, que eu gostava mais. Aliás, até mais do que o 18. O final era um pouco mais longo e misturava com o sabor de fumaça. Mas, por alguma razão que nem a lógica conseguiria explicar, eles tiraram ele de linha.

      Sobre cervejas defumadas – procure as Rauchbier da Aecht Schlenkerla. A melhor que já tomei da linha é a Marzen. É bem defumada, porque usa malte defumado. Além dela, as cervejarias Emelisse e Hof Ten Dormaal possuem versões de cervejas maturadas em barricas de whiskies defumados, como Laphroaig, Ardbeg e Port Charlotte. A Brewdog lançou também uma edição limitada chamada Paradox Islay, mas acho que essa aí já acabou no mundo faz tempo… hehe

      1. O HP16 não cheguei a provar, fiquei sabendo da sua existência pela Olah Dubh 16 – que inclusive, ganhei uma de presente essa semana!
        Já as cervejas, essas ainda não tive a chance de experimentar, mas gostei bastante da Rauchbier da Eisenbahn, e as Emelisse estão na lista de compra faz um tempo, já. E você conhece a Invicta?? Famosa por suas cervejas bem lupuladas, eles tem uma Imperial Stout, chamada de Invicta 108, com 10.8 de ABV. Enfim, começo desse ano, o Blog FullPintBR completou 5 anos, e, pra comemorar, eles tinham um barril cheinho de Invicta 108 maturando por 8 meses. Detalhe: barril de carvalho americano que maturou cachaça por 15 anos. E logicamente, para aguentar todo esse tempo no barril, a cerveja foi “fortificada” com, nada menos que Ardbeg 10 anos! Já imaginou?? O Rótulo final teve nome de Invicta FullPintBR 120, já que ficou com 12.0 de ABV. Infelizmente não consegui provar nenhuma das 700 garrafinhas vendidas a valores tão explosivos quanto os aromas do Ardbeg, mas achei a ideia sensacional!
        Até fiquei tentado a fazer minhas próprias fortificadas por aqui. haha
        Bom, se chegar a ver uma garrafinha dessas da FullPintBR 120 por aí, já sabe! ^^

        1. Então, a Rauch da Eisenbahn é um bom custo-benefício, mas acho ela muito doce para uma rauch. Prefiro as que são mais “secas”.

          A Invicta 108 normal eu já experimentei. Mas a maturada nunca nem encontrei. Esse detalhe de que ela foi fortificada com Ardbeg eu não sabia! Virou ainda mais objeto de desejo agora. Uma pena que não deve mais existir.

  3. Parabéns pelo texto, me fez lembrar que quando criança eu queria ser operador de retroescavadeira ou de guindaste!!!!!

  4. Argh, ser astronauta deve ser phoda mesmo. Ainda mais tendo que beber xixi, quando na pior das hipóteses se tem um litro (1 L) de William Lawson’s Finest por menos de R$ 50,00 (cinquenta reais!!!). É mole?
    By the way, gostaria de saber a sua opinião sobre o William Lawson’s Finest, um blended no mínimo simpático (além de barato).

    1. Antonio, faz muito tempo que tomei o William Lawson’s, e assumo que não me recordo direito. Mas isso é um bom sinal, porque se fosse ruim, eu provavelmente lembraria. Dei uma pesquisada agora e vi que o William Lawson’s leva malte da Macduff, ou seja, o single malt Glen Deveron. Esse tomei faz pouquíssimo tempo – no último fim de semana, diga-se de passagem. Achei um excelente whisky. Preciso tomar o Lawson’s novamente, para comparar com minhas impressões sobre o malte base.

      1. Possivelmente vc não vai gostar por ele não ser nada defumado, que parece ser a sua preferência. Ao meu paladar me parece ser um blended bastante razoável apesar de ser subestimado pelo mercado. Cheers!

  5. ótimo texto querido amigo Mauricio Porto…viajamos juntos com vc e respiramos aliviados por não orbitar em torno da Friboi kkk
    abs e sucessos!

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