Hakushu Distiller’s Reserve – Schadenfreude

Eu acho engraçado como algumas línguas tem umas palavras super específicas. Alemão, por exemplo, tem duas que eu amo, e que – brilhantemente, na minha opinião – se ligam ao sentimento de culpa. A primeira é Drachenfutter. Drachenfutter define, de uma forma incrivelmente sucinta para um germânico, aquele presentinho safado que a gente dá pro companheiro ou companheira depois de fazer alguma besteirinha inocente. Tipo – e os exemplos aqui são totalmente fictícios – esquecer o aniversário de relacionamento, ter uma crise histérica durante alguma discussão ou chegar em casa miando e se arrastando como um leão marinho de tão bêbado às duas da manhã.

A outra é Schadenfreude. Que é mais ou menos o resumo de nosso ditado popular, que pimenta no orifício inferior dos outros é refresco. A palavra deriva de “shaden” (dano) e “freude” (felicidade). Literalmente, Schadenfreude é o prazer que sentimos em ver os outros se ferrando, na forma mais pura, cristalina e pouco egregiamente deliciosa. Como, por exemplo, quando você vê o brilho nos olhos da mocinha do aeroporto, ao dizer que seu vôo foi cancelado e reagendado pro dia seguinte, mas ela vai te acomodar no melhor quarto do hotel ao lado do aeroporto. Aquele, que ela secretamente sabe que equivalente a uma masmorra com luz elétrica.

Japonês é outra língua que tem palavras específicas. Mas, diferente dos alemães, as palavras nipônicas se ligam a equilíbrio. Uma delas é omotenashi. O equivalente mais próximo em português seria, quiçá, hospitalidade. Mas o conceito japonês é um pouco distinto. É uma atitude de oferecer sempre o melhor, apenas pelo prazer de bem servir, sem segundas intenções. Outra é Shinrinyoku. Que é uma derivação também de duas palavras, e define a atitude de meditar no meio de uma floresta. Mas tem que ser floresta. Não pode ser praia, nem deserto. Tem que ser floresta.

E depois medita na lavanderia tirando a terra da roupa.

Se juntarmos as duas palavras japonesas, teremos a definição perfeita do que é a Hakushu. Uma destilaria do grupo Suntory, que oferece um dos melhores whiskies do mundo, construída no meio de uma exuberante floresta. A Hakushu foi fundada em 1973, próxima ao monte Kaikomagatake. De acordo com a Suntory “A majestosa floresta que circunda a Destilaria Hakushu abriga uma abundância de variedades de plantas que refletem as muitas expressões da natureza japonesa. Os whiskies de malte aqui nascidos são simultaneamente abençoados com um microclima muito particular, florestas verdejantes e uma água de rara suavidade e pureza, só possível graças à filtração da chuva e da neve através de rochas graníticas milenares.” De sua linha, duas expressões acabam de desembarcar – ou melhor, retornar – ao Brasil. Hakushu 12 anos e o Hakushu Distiller’s Reserve, tema desta prova.

O Hakushu Distiller’s Reserve é a expressão de entrada da Hakushu. Ao contrário de seu irmão mais velho, o Hakushu 12, o Distiller’s Reserve tem uma nota mais herbácea, fresca, e menos enfumaçada. É igualmente floral, mas menos perfumado. Excepcionalmente equilibrado, com final longo e delicadamente enfumaçado. Aliás, é somente aqui que a turfa, usada na produção dos Hakushu, fica aparente. Na finalização da língua. Mesmo no aroma, o enfumaçado é bem discreto.

Antes de falar da maturação, cabe um adendo para estabelecer um sarrafo. Como vocês já sabem – ou não – quase todo single malt é um blend (uma mistura). Mas, um blend de maltes de uma mesma destilaria. A palavra “single” em “single malt” não faz referência ao grão, que é a cevada maltada. Mas sim à localização. “única destilaria“. Assim, normalmente, para criar padronização e complexidade, as destilarias misturam whiskies por elas produzidos em diversas expressões. Por exemplo, um barril de Hakushu de ex-jerez pode ser misturado com um de Hakushu de ex-bourbon. Dito isso, seguimos.

A composição do Hakushu Distiller’s Reserve conta com três parcelas principais distintas de seus whiskies. O primeiro, batizado pela própria destilaria de “jovem talento”, é um Hakushu pouco maturado, apenas levemente turfado, que traz o frescor ao malte. O segundo é um malte com aproximadamente 12 anos, com a clássica assinatura enfumaçada da Hakushu. E o último é um Hakushu com mais ou menos dezoito anos de maturação em barris de carvalho americano de ex-bourbon.

Shinrinyoku com whisky.

Boa parte do processo de produção da Hakushu contribui para o perfil herbal e relativamente leve. Como por exemplo seus washbacks (tanques de fermentação), que são feitos de madeira. Para trazer complexidade e variedade, a destilaria usa uma série de alambiques de diferentes alturas e formatos – isso é bem importante. A Hakushu é gigantesca. Inclusive, na década de oitenta, a destilaria passou por uma expansão, que a dividiu em Hakushu Oeste e Hakushu Leste. São mais de vinte e quatro alambiques diferentes. Isso lhe permite criar destilados tanto encorpados quanto leves, tendo mais liberdade ao produzir seus single malts e fornecer whiskies para a produção de blends.

Outro ponto bastante alardeado pela Hakushu é a sua água. “A água excepcionalmente suave da montanha de Hakushu se origina como água da chuva e neve derretida, que passa pelo Monte Kaikomagatake dos Alpes do Sul japoneses e se junta aos rios Ojira e Jingu no sopé da montanha. Com quatro estações distintas, o ar limpo e o clima fresco e úmido das vastas florestas de Hakushu permitem que a destilaria, uma das poucas situadas a uma altitude de 700 metros ou mais, produza uísque de alta qualidade através de um processo lento e sem pressa.

Assim, com um pouco de omotenashi, e sem qualquer vestígio de Schadenfreude, meu conselho é que provem o Hakushu Distiller’s Reserve. Equilibrado e complexo, e a prova de que o single malt japonês possui também variedade sensorial incrível. Perfeito para ser provado em qualquer momento – especialmente lá, em paz e silêncio, no meio de uma floresta. O Hakushu Distiller’s Reserve garante o sucesso de qualquer Shinrinyoku.

HAKUSHU DISTILLER’S RESERVE

Tipo: Single Malt

Destilaria: Hakushu

Região: N/A – Japão

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: floral, cítrico e herbal.

Sabor: início adocicado e herbal. Campim-limão, baunilha, caramelo. Final longo, cítrico e muito levemente enfumaçado.

 Disponibilidade: à venda no Caledonia Whisky & Co. (nosso espaço em São Paulo) e lojas brasileiras.

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