Goodbye Mr. Hakushu – Hakushu 12 anos

Hakushu

Eu não sou bom com despedidas. Não que eu chore, fique sensível, comece a ouvir Coldplay e a devorar livros de autoajuda e tudo mais. Mas, de alguma forma, aquele abandono me atinge. Atinge quase como um vício. Uma vontade que não pode ser mais aplacada. Algo que estava ao meu alcance, mas que, por alguma razão, desapareceu. Talvez como aquela quase proverbial coceira no membro arrancado.

Sinto isso com pessoas. Mas não só com elas. Para mim, ocorre também com músicas, comidas, bebidas. Um exemplo disso é um prato, que comia toda vez que ia a um restaurante próximo de minha casa. Era um restaurante bem caro e mais ou menos metido a besta, o que me irritava um pouco. Me irritava até aquele prato chegar. Porque depois, restava apenas aquele shiatsu de língua.

E o engraçado é que o prato não tinha nada de muito difícil. Era uma espécie de talharim escuro, com shimeji, que levava um molho de parmesão batido. A consistência do molho era próxima de uma espuma, um chantilly, mas com bastante sabor de queijo. Essa era a parte genial dele. O molho. O molho era tão genial, mas tão genial, que eu abria mão de comer um peixe defumado – algo que seria próximo de um orgasmo gastronômico para mim – somente para saborear aquela massa.

Foodporn (fonte: gastronomiaefotografia.com.br).
Foodporn (fonte: gastronomiaefotografia.com.br).

Eu e a Cã íamos àquele restaurante quase toda semana. Certa vez, sentamo-nos à mesa e – sem nem olhar o cardápio – pedi a tal massa ao maitre, que os aguardava. E ele disse que não tinha. Como assim não tinha, retruquei. Não tinha porque o chef achava que aquele prato saía pouco, e resolveu substitui-lo por um frango com molho xadrez ou algo com morangos, ou talvez cocô (o que dá na mesma), não sei. Nem prestei atenção no final da explicação. Mas não importa, porque qualquer coisa seria pior do que aquele prato.

Com olhar de decepção, me senti obrigado a pedir a segunda opção. O peixe defumado. Nunca uma criatura marinha tão boa teve tanto sabor de derrota. Enquanto mastigava, lembrava daquele molho que jamais comeria novamente em minha existência canina. Demorei alguns meses para retornar àquele estabelecimento.

A mesma decepção tomou conta de mim quando soube, de forma contundente e incontestável, que a Suntory havia tomado a decisão de deixar de importar sua linha de single malts para nossas terras, de forma a focar suas vendas em mercados-chave, como o oriente. Dentre as vítimas estavam os Yamazaki 12 anos e Distiller’s Edition e os Hibiki 12 e 17 anos. Todos whiskies bem amáveis, mas cuja falta poderia ser contornada sem dificuldades. Mas havia um que já previa sentir dor fantasma. Era o Hakushu 12 anos.

O Hakushu 12 é um dos dois single malts japoneses pertencentes à Suntory, atualmente Beam-Suntory, que (ainda) podem ser encontrados no Brasil. Além disso, ele é meu preferido. O outro é o Yamazaki. E enquanto o Yamazaki é oleoso, adocicado e frutado, o Hakushu é mais leve, frutado e, ao mesmo tempo, defumado.

Segundo a Beam-Suntory, a maturação do Hakushu 12 anos ocorre em três tipos de carvalho, o que é bastante incomum. A maioria do processo ocorre em barricas de carvalho americano que antes continham ex-bourbon, com uso tímido de carvalho europeu de ex-jerez. Ele é então finalizado em barricas de carvalho japonês conhecido como Mizunara. A destilaria não divulga o tempo ou quantidade de destilado que matura em cada uma das barricas.

A destilaria Hakushu foi construída em 1973, no quinquagésimo aniversário de sua destilaria irmã, a Yamazaki. Ela está localizada em uma densa floresta, na base do monte Kaikomagatake, no Japão. É uma destilaria gigantesca, com mais de oitocentos e vinte mil metros quadrados de área.

Isso aí no lado da foto é uma cidade (fonte: Suntory.com)
Isso aí no lado da foto é uma cidade (fonte: Suntory.com)

Se você tem o saudável hábito de buscar informações inúteis – assim como eu – gostará de saber que os washbacks (tanques de fermentação) da Hakushu são feitos de madeira, tal qual na Glen Grant. Além disso, a destilaria usa uma série de alambiques de diferentes alturas e formatos. Isso lhe permite criar destilados tanto encorpados quanto leves, tendo mais liberdade ao produzir seus single malts e fornecer whiskies para a produção de blends. Por fim, achará curioso que os armazéns em que os whiskies são maturados não possuem apenas dois ou três níveis, mas são enormes estruturas com um sistema mecanizado para elevação e descida dos barris, capazes de estocá-los em até doze níveis.

O Hakushu 12 anos ganhou o primeiro lugar, como melhor whisky do resto do mundo, pela International Whisky Competition de 2015, e recebeu prêmio de Ouro Líquido pela Jim Murray Whisky Bible de 2014.

Mas tudo isso que escrevi não servirá para nada. Porque, como eu disse, o Hakushu 12 anos não virá mais para o Brasil. E tudo bem que ainda podemos encontrar uma ou outra garrafa perdida em algum empório por aí, mas meu conselho é que, se você ainda não experimentou, corra. Se experimentou e gostou, corra também. Ou nem sofra e procure alternativas. Invista em um Laphroaig ou um Jura Prophecy. São whiskies que – apesar de muito diferentes do Hakushu – ainda guardam com ele alguma semelhança.

Com eles, sua ausência será menos notada. E são absolutamente geniais. É, pensando bem, talvez eu sobreviva à saudade do Hakushu.

HAKUSHU 12 ANOS

Tipo: Single Malt com idade definida – 12 anos.

Destilaria: Hakushu

Região: N/A – Japão

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: turfado, defumado e frutado. Levemente cítrico

Sabor: início adocicado e frutado. Final defumado e cítrico.

Com Água: Adicionar agua reduz o aroma esfumaçado, e ressalta o caráter doce do whisky.

 Preço: em torno de R$ 350,00 (trezentos e cinquenta reais)

 

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