Das Flores – Suntory Hibiki 12 anos

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Se você é um fã de Gordon Gekko, o inescrupuloso investidor fictício de Wall Street, talvez saiba o que foi a Febre das Tulipas. Ou talvez não, porque, enfim, existem coisas melhores para se fazer do que decorar cada trecho de um filme. Então, por via das dúvidas, aí vai uma breve explicação.

A Febre das Tulipas foi um período durante o século dezessete em que a elite holandesa tornou-se absolutamente obcecada por uma simples flor. A história toda começou quando um tal Suleiman, o Magnífico, encontrou tulipas em uma de suas viagens à Ásia. Embasbacado – não sei bem por o que – resolveu que enviaria um exemplar a um botânico, em Leiden.

O resto da história é pura insanidade. Ou talvez haja alguma reação neurológica desconhecida pela ciência entre a mente dos holandeses e flores sem graça. Porque os abastados da Holanda ficaram tão mesmerizados com aquela espécie que, em pouquíssimo tempo, seu preço disparou.

O pico da obsessão ocorreu entre dezembro e fevereiro de 1636. O preço de uma libra de tulipas passou de 125 florins para 1.500 – isso mesmo, mil e quinhentos, não tem um zero a mais aí. Uma inflação de mil e cem por cento. Para você ter uma ideia, isso seria suficiente para comprar um lar flutuante no melhor lugar de Amsterdã.

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Troco por três tulipas

Por fim, em abril daquele ano os preços despencaram. E ninguém sabe bem a razão. Talvez os preços tivessem atingido um patamar tão alto que até mesmo os mais ricos estivessem em dúvida. Ou quiçá porque o mundo tenha acordado de sua histeria botânica, colocado a mão na consciência e reconhecido o óbvio. Que aquilo era apenas uma flor.

Um fenômeno muito parecido – mas em menor grau – ocorreu como o Hibiki 12 anos, aqui mesmo, no Brasil. Em 2015, quando a Tradbras, responsável pela importação do blended whisky japonês deixou de trazê-lo para nosso país, seu preço explodiu. Um whisky que custava em torno de trezentos e cinquenta reais foi quase instantaneamente extinto das lojas, e os poucos exemplares que restaram, passaram a ser vendidos a mais de mil reais.

Aquilo foi um acontecimento curioso. Porque seu preço atingiu patamares insanos apenas no Brasil, e, exceto pelo progressivo rareamento das garrafas nas prateleiras das lojas, não haveria nada que pudesse justificar aquela inflação. Ou, talvez sim.

Acontece que em 2013 seu irmão mais velho, o Hibiki 21 anos, recebeu prêmio de melhor blended whisky do mundo pela World Whisky Awards. E, em 2015, o Suntory Yamazaki Sherry Cask foi eleito por Jim Murray como o melhor whisky do mundo, em sua famosíssima Whisky Bible de 2015. A notícia da escolha de um whisky japonês por Jim Murray reverberou pelo mundo cibernético, e acabou por gerar ruído também aqui, no Brasil.

Já nós, brasileiros, como não tínhamos nem uma nem outra expressão à venda em nossas terras, naturalmente focamos naquelas disponíveis. Os ótimos Yamazaki 12 anos e os Hibiki 17 e 12 anos. Dentre elas, a mais acessível era justamente esta última. E a repentina fama coincidiu, justamente, com a interrupção da importação destas expressões para nossas terras. Coincidência que culminou num tsunami inflacionário de whiskies japoneses.

Independentemente deste cataclismo, o Hibiki 12 anos é um ótimo blend. Ele contém mais de trinta single malts e grain whiskies em sua mistura. Mas seu coração é bem conhecido. Yamazaki, proporcionando aroma doce e frutado, e Hakushu, contribuindo com defumado e cítrico. Há também whisky de grão da destilaria Chita. Todos seus componentes pertencem à Suntory que – não por coincidência – é também proprietária da Hibiki.

A maturação do Hibiki 12 anos ocorre em um conjunto de barricas de diversas características. Barris que antes contiveram Bourbon whisky e vinho Jerez espanhol são combinadas com aqueles de carvalho japonês – conhecido como mizunara – que antes envelheceu Umeshu, um tradicional licor de ameixa japonês. Isso o torna bastante atrativo para aqueles que apreciam os whiskies mais adocicados e florais, como o Ballantine’s 17 anos e Chivas Regal 18 anos.

Umeshu
Umeshu

O Hibiki 12 anos recebeu uma série de prêmios internacionais, entre eles, medalha de outro em 2016 pela International Spirits Challenge, duplo ouro na San Francisco World Spirits Competition rm 2014. Feitos bem impressionantes para um blended whisky produzido fora da Escócia e relativamente jovem.

Ele poderia ser o blended whisky perfeito. Adocicado, equilibrado, visualmente atraente e muito elegante. Um whisky pouco óbvio, mas, ao mesmo tempo, bastante atual. O único problema é encontra-lo por aqui.

Encontrá-lo e, claro, seu preço. Porque, no final do dia, não importa muito quão excepcional, raro ou atual ele seja. Mil reais por um blended whisky que não ultrapassava metade disso quando podia ser facilmente encontrado nas lojas não me parece algo racional. Mas, enfim, existe sempre a febre, a especulação e o inexorável declínio.

E talvez o Hibiki 12 anos seja simplesmente isso. A tulipa dos whiskies. E por mais belo e mais raro que seja um botão, ele sempre poderá ser substituído sem muito sofrimento por uma rosa ou uma orquídea. Afinal, meus caros, são todas apenas flores.

SUNTORY HIBIKI 12 ANOS

Tipo: Blended Whisky com idade definida – 12 anos

Marca: Suntory

Região: N/A

ABV: 43%

Notas de prova:

Aroma: Aroma frutado, adocicado, com certo final floral muito agradável.

Sabor: Mel, frutas em calda, floral, baunilha. Final adocicado, persistente e frutado.

Com água: A agua ressalta o sabor da baunilha e o floral.

Disponibilidade: disponível no Brasil (esgotado)

3 thoughts on “Das Flores – Suntory Hibiki 12 anos

  1. Excelente texto, Maurício!
    Me parece um bom whisky, porém se no mesmo nível encontramos algo bem mais acessível, fica complicado.

    Grande abraço!

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