Do Reconhecimento – Jack Daniel’s Gentleman Jack

Gentleman Jack - O Cão Engarrafado

Se você não se tornou famoso ainda, não se preocupe. Talvez isso aconteça mesmo só depois de morrer. Foi assim com Van Gogh, Edgar Allan Poe, Kafka, El Greco e Galileo Galilei. A distância – no caso, o tempo – nos permite enxergar com mais clareza a grandeza destas pessoas que, infelizmente, não puderam colher os louros de seus prolíficos trabalhos.

E neste enorme rol de injustiçados pela sociedade e vingados pela história, está Bach. Johann Sebastian Bach, conhecido por alguns como um dos maiores compositores de todos os tempos e por outros como o cara que fez a música do comercial daquela operadora, nunca recebeu o devido reconhecimento em vida. Foi só no século dezenove – ou seja, uns cinquenta anos após sua morte – que sua música foi revivida e alcançou a fama.

Certa vez Bach teria se candidatado ao posto de diretor de canto e música em Leipzig, mas somente foi aceito após outros dois candidatos – claramente preferidos pelo conselho da cidade – terem rejeitado a indicação. No melhor estilo barroco de “é o que tem para hoje”, o conselho o considerou uma alternativa razoável, dadas as circunstâncias.

gentlemanjack1
Bach, na opinião do conselho de Leipzig

E nem o mundo do whisk(e)y está a salvo destas injustiças. É o caso de Nearis Green. Durante cento e cinquenta anos, pouquíssimas pessoas conheciam o nome de Nearis, e menos ainda sua importância na história da mais famosa marca de Tennessee Whiskeys do mundo, a Jack Daniel’s.

Foi só recentemente que a marca, às margens de seu 150º aniversário, divulgou que Jasper (“Jack”) Newton Daniel teria, na verdade, aprendido a produzir whiskey com Nearis, e não com o conhecido reverendo Dan Call. Isso fora alterado nos registros pelo simples fato de Nearis ter sido um escravo negro pertencente a Call.

Assumir que a história foi convenientemente adaptada e assim contada por cento e cinquenta anos não chega a ser, exatamente, justiça. Mas é, talvez, uma forma de reparação moral, ainda que bastante tardia. E eu, também no espírito “antes tarde do que nunca”, resolvi que faria, em homenagem a isso, a prova de uma expressão há muito havia prometido. O Jack Daniel’s Gentleman Jack.

Para explicar a diferença entre o Gentleman Jack e o Jack Daniel’s Old No. 7, será preciso, antes, explicar o que significa Tennessee Whiskey.

De acordo com uma norma – a House Bill 1084 de 13 de maio de 2013* – para que um whiskey possa receber rótulo de Tennessee whiskey, ele deve ser produzido no Tennessee e atender a todos os requisitos legais para ser um Bourbon. Além disso, deve passar por um processo chamado Lincoln County Process, que é, basicamente, a filtragem do destilado recém produzido utilizando um filtro de carvão de bordo. O tal carvão funciona como um filtro natural, que retém as moléculas mais pesadas do destilado, permitindo a passagem apenas dos componentes mais leves. O resultado é um whiskey mais brando, com menos corpo, mas mais palatável.

gentlemanjack2
Filtro de carvão

 

O processo de produção do Gentleman Jack é semelhante àquela do Old No. 7. A mashbill é a mesma –  80% milho, 8% centeio e 12% cevada maltada – e a fermentação ocorre da mesma forma. Aliás, se você reparar no rótulo do Old No. 7, notará que há a expressão “sour mash whiskey”. Isso significa que parte do mosto úmido de uma fermentação anterior é adicionado ao novo mosto, antes deste ser fermentado. Este mosto residual é conhecido como sour mash. Ainda que não haja menção sobre esse processo no rótulo do Gentleman Jack, ele é comum às duas expressões da marca.

A destilação ocorre em colunas de cobre de aproximadamente quatorze metros de altura, que contam com uma espécie de válvula de refluxo. Este processo mudou ao longo dos anos. Na época de Nearis, os whiskeys eram produzidos em alambiques de cobre tradicionais. Foi somente após a década de trinta, com o fim da Lei Seca Norte Americana, que a Jack Daniel’s começou a empregar destiladores contínuos. Nas palavras – polêmicas – de Jeff Arnett, um dos antigos master distillers da Jack “a tecnologia envolvendo a destilação melhorou, de forma que se pode criar um produto mais consistente, assim, certamente tiramos vantagem disto, e sentimos que o Sr. Jack também o faria”.

A maturação do Gentleman Jack também não é muito diferente da empregada no Old No. 7. Ele passa em torno de quatro anos em barricas tostadas de carvalho americano. Os armazéns da Jack Daniel’s, são enormes, e as barricas ficam empilhadas em racks de até oito andares.

Por enquanto, a única coisa que separaria o Gentleman Jack de seu irmão seria a garrafa bonita. Mas há uma diferença essencial. Lembra-se quando expliquei do Lincoln County Process, lá em cima? Bem, acontece que o Gentleman Jack, além da primeira filtragem, comum a todos os Tennessee Whiskeys da marca, volta para o carvão de bordo após sua maturação. Essa é, essencialmente, a maior particularidade desta expressão. Isso só acontece com ele, e é isso que o diferencia do Old No. 7 – e dos demais whiskeys da marca.

Por aqui, uma garrafa do Gentleman Jack custa em torno de R$ 170,00 (cento e setenta reais). É um preço semelhante ao do Bulleit Bourbon e do Woodford Reserve, já revistos neste blog. Escolher entre um ou outro é uma questão de gosto. Dentre eles, o Gentleman Jack é o mais suave, e, provavelmente, o que mais agradará àqueles que não tem intimidade com whiskeys. É também apenas trinta reais mais caro do que o Jack Daniel’s Old No. 7.

Se você gosta do tradicional Jack Daniel’s Old No. 7, ou se é simplesmente apaixonado pela marca, não deixe de experimentar o Gentleman Jack. Porque até pode ser que você só vá receber o devido reconhecimento na posteridade, mas beber whiskey só é possível quando se está vivo. E aproveite para fazer um brinde a uma pessoa que foi injustiçada por uma das faces mais feias da humanidade, mas acabou recebendo redenção.

JACK DANIEL’S GENTLEMAN JACK

Tipo – Tennessee Whiskey

ABV – 40%

Região: N/A

País: Estados Unidos

Notas de prova

Aroma: adocicado, com bastante baunilha e mel.

Sabor: doce, com frutas em calda, baunilha e açúcar mascavo

Com água: a água torna o final mais acocicado e curto, e ressalta a baunilha no whiskey.

*Alguns detalhes da lei foram alterados posteriormente, para flexibilizá-la, mas como este não é um texto sobre a legislação norte americana, vou me abster a aprofundar o tema.

20 thoughts on “Do Reconhecimento – Jack Daniel’s Gentleman Jack

  1. Como vai, Maurício?
    Que as injustiças sejam superadas, mas para meu gosto, eu iria preferir investir em um Woodford Reserve ou Bulleit Bourbon.
    Em relação ao JD, eu iria preferir ir direto ao Single Barrel.

    Grande Abraço!

    1. Single Barrel é fantástico, mas vou assumir que o Gentleman me (nos) surpreendeu. Fazia tempo que havia experimentado, e quando provei para o review, logo imaginei um belo manhattan com ele.

  2. Excelente texto, chega a dar água na boca, fazendo lembrar do velho Jack Daniel’s que ha tempos não saboreio e nascendo a vontade de provar o Gentlemen Jack, se só fosse pela segunda-feira tomaria hoje mesmo, mas o tempo é de vacas magras, me contentarei com um nacional por hoje!

  3. Gosto muito dele. Acho melhor, inclusive, que o Single Barrel. Talvez (com certeza?) ainda me falte conhecimento e rodagem com whiskeys, mas a suavidade do Gentleman Jack me agrada muito.

  4. Prezado Maurício,

    Em virtude dos seus comentários provei o Woodford Reserve, que foi ‘aprovado com louvor’ e já comentado.

    Também sob sua influência, provei o Jack Daniel’s Single Barrel. Não me encantou, se for para ser simpático. É possível que não tenha encontrado o ponto da diluição, mas achei agressivo na sensação alcoólica e apimentado. Estou colocando todas as minhas queixas sobre o ombro do chefe dos tanoeiros da JD. No dia que ele escolheu minha barrica, certamente brigou com a mulher, e nós sabemos o estrago que isso causa. É pior que terremoto, ultrapassa milhares de quilômetros e atinge pessoas inocentes em outro continente.

    Entrei em pânico com o cenário que você montou: morrer sem degustar o Gentleman. Comprei uma garrafa imediatamente. Impressionante! Não faz sentido comentar percepções gustativas após seu texto, registro apenas a delicadeza. É de tal ordem que não admite uma gota d’água e muito menos uma pedra de gelo. Até então considerava o JD Number 1 o melhor, mas o Gentleman me criou um problemão.

    Para a sai dessa sinuca, estou inclinado a separar os JD’s entre os que passam e os que não passam por dupla filtração. Dessa forma, o Gentleman deve ser comparado apenas com o JD Gold No 27, que nunca provei.

    Não posso deixar de comentar a suposta falta de designers no mercado. Só isso explicaria a JD ter contratado o mesmo abstêmio que projetou a garrafa do Woodford Reserve.

    Renovo meus agradecimentos pelas preciosas recomendações.

    Vida longa,

    Abraços,

    Sócrates

    1. Hahaha, Sócrates, esse foi um comentário épico por aqui. O Single Barrel é realmente um whiskey mais agressivo. Ainda assim, acho ele excelente. É também ótimo para coquetelaria, exatamente por conta desse sabor. Talvez você vá gostar também do Sinatra. Mas procura em algum lugar para tomar uma dose. A garrafa é cara (apesar de ser bem bom)!

  5. Bom dia,

    Comprei está garrafa ontem, recém saído do mundo da cerveja (do qual não sairei completamente, afinal, uma tripel, blonde ale, até mesmo uma IPA são sensacionais), estou à procura de novas experiências com o álcool. Gosto deste tipo de associação, onde falamos sobre o sabor, a experiência, em certa parte, até a cultura em torno do mesmo. Ao ler sua análise (que graças a Deus eu encontrei), só me animei mais ainda com esse whiskey, e com certeza com esse “meio”. Com boas referências, um texto corrido bacana, a nota para está análise fica em 10/10, agora falte ver se este whiskey acompanhará (obviamente, a nota que darei será com base apenas em meu gosto pessoal, quem sabe daqui a algum tempo terei embasamento para julgar em outro caráter!)

    Continue com o blog, ganhou mais um seguidor!

  6. Como sempre, gostei demais do seu artigo. Vou experimentar o Gentleman Jack, já que prefiro whiskies mais suaves e menos intensos. Um brinde a Nearis.

  7. Olá Maurício,
    Tem um bom tempo que uso seu blog como referência para minhas aventuras no mundo dos whiskies e sempre que posso, indico. Parabéns pelo trabalho!
    Apesar de não ser muito chegado do honey jack e nem conhecer o fire, sou um grande fã da família jack daniel’s. O gentleman é o meu preferido e, sabendo disso por outras ocasiões, minha madrinha sempre recorre a ele quando está sem ideias para me presentear no natal (fato que muito me agrada rs).
    Neste ano ela recorreu ao gentleman para resolver o presente do meu aniversário, porém, a garrafa, rótulo, caixa são diferentes daquela garrafa tradicional. Há apenas uma menção à marca Jack Daniel’s (utilizando seu conhecido logotipo). Fora isso e o nome, nada se assemelha ao que eu estava acostumado.
    Existe alguma outra versão do produto? Já viu essa garrafa? Se facilitar, te mando uma foto pra ilustrar a questão.
    Grande abraço!

  8. Excelente! Parabéns pelo texto – muito bem escrito, e descrito – o whiskey.

    Tomo uma dose dele para me convencer de seus comentários (comprei novamente e segui preferindo o tradicional, o Old n. 7).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *