Jack Daniel’s Honey – Sobre hortaliças

Você talvez não saiba o que é Brassica Oleracea. Mas provavelmente já colocou na boca. Colocou na boca e mastigou. É que Brassica Oleracea é o nome científico da mostarda selvagem, uma pequena planta que cresce em rocha vulcânica, especialmente na costa do mediterrâneo e é muito apreciada por nós.

Pode parecer uma descrição meio vaga de alguma erva que é obtida à margem da lei. Mas não é. A mostarda selvagem é na verdade a espécie original de uma boa variedade de vegetais que comemos hoje em dia, como o brócolis, a couve-flor, o repolho e a couve de Bruxelas. Estas variações – ou subespécies, para ser mais preciso – foram obtidas ao longo de centenas de anos, por cruzamento seletivo. Artificialmente selecionando mostardas selvagens de folhas cada vez maiores, ou mais suculentas, por exemplo.

O engraçado – na verdade, o mais estranho – é que apesar de parecerem vegetais completamente diferentes, inclusive com gostos muitos distintos, eles dividem uma  (desculpe pela ambiguidade besta) raiz comum. Por outro lado, há vegetais que são bastante semelhantes, mas cuja origem é completamente diferente. Mandioca e batata doce, por exemplo, ou coentro e salsa. E, no mundo dos whiskies, o mesmo acontece com o Jack Daniel’s Honey, que não é bourbon. Nem Tennessee Whiskey.

Então explica….

Explico. De acordo com o Code of Federal Regulations, title 27, part 5, subpart C. (i)  para que uma bebida possa ser considerada bourbon, ela (ii) deve ser feita com ao menos 51% de milho; (iii) o destilado deve ir para os barris tostados (charred) e virgens de carvalho com o máximo de 62.5% de graduação alcoólica (normalmente diluído com água, para que se alcance essa quantidade limite de álcool); e (iv) deve ser engarrafada com no mínimo 40% de graduação alcoólica.

As mesmas regras acima se aplicam ao Tennesse Whiskey, conforme a House Bill 1084 de 2013. Porém, além delas, o destilado deve passar pelo conhecido Lincoln County Process, ou Charcoal Mellowing – a tão alardeada filtragem por carvão de bordo, característica da Jack Daniel’s. Mas há um detalhe importante. De acordo com Code of Federal Regulations, caso haja a mistura de quaisquer frutas, flores, plantas ou substâncias que proporcionam sabor, a bebida será um cordial ou licor.

Como sabemos, o Jack Daniel’s Honey utiliza mel e especiarias em sua composição. Além disso, sua graduação alcoolica é de 35% – inferior ao mínimo legal para que algo seja considerado tennessee whiskey ou bourbon. E por isso, ele é, na verdade, um licor ou bebida composta. Nenhuma surpresa aqui. A própria embalagem do Honey diz isso – honey liqueur blended with Jack Daniel’s Tennessee Whiskey. Ou seja, licor de mel misturado com Jack Daniel’s Tennessee Whiskey.

Cê jura?

Mas vamos parar com a discussão nerd para passar para a parte mais, diremos, pragmática. A prova. O Jack Daniel’s Honey é uma bebida bastante adocicada – nenhuma surpresa aqui também – e levemente apimentada. O característico sabor de baunilha do Jack Daniel’s está lá, e complementa bem o adocicado do mel. Relembra bastante uma calda de bordo (maple) a ponto de quase me fazer derrubar em panquecas ou waffles. Mas eu não sou americano, então não vou me auto-indulgenciar.

Puro e em temperatura ambiente, o Jack Daniel’s Honey é uma bebida fácil, pouco desafiadora e sem muita complexidade, mas – dentro de sua proposta – bem equilibrada. Ele não é demasiado doce a ponto de esconder o whiskey, o que é ótimo. Na opinião deste Cão, a experiência melhora bem quando o licor está gelado. Ou ao misturá-lo com outros ingredientes – algo que, aliás, também está sugerido no site da Jack Daniel’s.

Sinceramente, é impossível – e injusto – julgar o Jack Daniel’s Tennesse Honey sob as mesmas bases que se julgaria um bourbon ou um whisky escocês. Simplesmente porque sua essência é diferente. Você não sairia por aí difamando brócolis só porque eles não tem sabor de couve. E olhe que a semelhança é bem mais próxima no caso vegetal. O mais acertado, no caso do Jack, será compará-lo com outros licores de whiskey no mercado. E, dentro desta classe, ele se sai muito bem.

JACK DANIEL’S TENNESSEE HONEY

Tipo: Licor

Destilaria: Jack Daniel’s

ABV: 35%

Notas de Prova:

Aroma: mel, própolis, baunilha.

Sabor: doce, mas não tão doce quanto se esperaria. Própolis. Final adocicado com mel e um pouco picante.

Disponibilidade: lojas brasileiras

Preço: em média R$ 130,00 (cento e trinta reais)

 

 

21 thoughts on “Jack Daniel’s Honey – Sobre hortaliças

  1. Excelente materia como acostumados. Sempre soube que era um licor, muito delicioso e bem elaborado. Sempre disse a meus amigos que não era whisky e sim um licor feito a partir dele.

  2. Buenas, Cão!

    Independentemente de ser bourbon ou não, gosto muito do JD Honey. Já sequei algumas garrafas. Penso que é uma bebida mais versátil para compartilhar com amigos, já que muitos possuem ressalvas (infundadas) quanto aos whiskies em geral.

    1. Fabiano, é isso mesmo! É uma bebida fácil de ser tomada e agradável. E ótima para compartilhar numa roda de amigos e aquecer o papo

  3. Muito bom.

    Por a caso esse whisky é um que aparece em um video que circula pelas redes sociais em que uma pessoa coloca a garrafa no freezer e depois de retirar vira uma pedra de gelo e o whisky fica bem licoroso porem sem congelar ?
    Será que no freezer ele não congelaria ?

    Abs,

    1. Makiley, não sei, não vimos vídeo! rs. Mas bom, ele não congela no freezer. De uma forma tosca, podemos dizer que a graduação alcoolica de certa bebida é a temperatura negativa necessária para seu congelamento. Então, um whisky com 40% de álcool precisaria de um ambiente de quarenta graus negativos para congelar. Nossos freezers não chegam a essa temperatura!

  4. Buenas, canino! Confesso que sou um grande apreciador do Jack Honey e do seu primo Jim Beam Honey. Foram os dois honeys que provei até hoje e atualmente estou mais pro Jim.

    Tive exatamente uma conversa com um apreciador de single malt (e vemos em diversos reviews por aí) que execrou o Jack Honey sob a luz de um whisky. Como eu já falei sobre o Jim Beam, é preciso saber aproveitar tudo que ele pode oferecer, mesmo que não seja muito. No caso do Jack Honey, pelo contrário, acho que ele tem muito a oferecer. Mas, como você mesmo deixou claro, não como um bourbon.

    Na minha experiência diária também gosto muito do Jack Honey gelado. Já tomei ele como um licor, temperatura ambiente, e já tomei como um bourbon também, em copo baixo sem gelo. Hoje em dia notei que ele vai entregar muita coisa boa em drinks até bem simplórios, como ele com um pouquinho de suco de limão siciliano ou com tônica. Pra ir um pouco mais além, é ótimo com maracujá e alguma bebida gaseificada.

    O Jack Honey é um licor excelente! Uma graduação alcoólica e equilíbrio que permite até mesmo usar ele como ingrediente principal. Nesse sentido eu acho ele uma bebida muito boa. Sinto algumas notas de amêndoas, algo tostado como madeira, mas não carvalho, que é muito gostoso. Botando de lado o peso que ele carrega pelo nome, é uma bebida que deixa qualquer bar mais atraente e sempre recomendo.

    Excelente review! Dale dale!

    1. Opa, muito obrigado, Neloy.

      É isso mesmo. Temos que adaptar nossas expectativas às coisas. Um licor é um licor. A base dele pode ser um whiskey, mas não faz sentido usar da mesma métrica que seria usada em um whiskey para julgá-lo. E na minha (talvez um pouco polemica) opinião, nem complexidade. Não é a proposta do Jack Daniel’s Honey. Ele é um licor feito para ser misturado, ou bebido super gelado. Ele não tem a pretensão de ser algo exclusivo, para ser degustado a conta gotas e virar vedete de uma noite. É mais algo que agrada a todos e que pode ser servido despreocupadamente. E nesse quesito, o Honey é perfeito!

  5. Como vai, mestre?
    Pra te ser bem sincero, nunca entendi muito bem esta tendência de misturar whisky americano com mel, canela, cereja, etc.
    Quando se trata de whisky americano, posso dizer que sou feliz com meu Wild Turkey 81.
    Abraço e obrigado pelas respostas!

  6. Esse licor é incrível. Eu descobri há pouco tempo. Estava na casa de uns amigos e abrimos um vinho e descobrimos que estava estragado. Daí me ofereceram Jack Daniel’s Gentleman. Foi a primeira vez que eu tomei um bourbon, e a segunda vez que tomei um whisky que realmente gostei – o primeiro foi o Old Parr Silver. Me encantei na hora. Mas já era o fim da garrafa, então abrimos um Honey. É outra experiência, total, mas também é uma bebida deliciosa. É o tipo de bebida que ninguém vai dizer que não gostou.
    Desd’esse dia, me apaixonei por whisky. Agora tô aqui, nesse blog, descobrindo esse mundo. hahah

    1. Hahaha, fala Matheus. Pois é, whisky é um negócio que quase se vende sozinho né? Pelo menos pra mim, eu tenho a impressão que uns aparecem na minha casa e no meu carrinho de compra sem eu nem ter me mexido…rs

      Você tem um paladar puxado para a baunilha e caramelo. Experimentou já o Maker’s Mark? Depois me conte, se tiver a oportunidade de provar.

      abraços

      1. Cara, isso é muito verdade. Whisky virou minha bebida favorita da noite pro dia.
        Eu tive num barzinho e provei tudo do cardápio que tava disponível. O Jack continua o meu xodó. Eu gostei muito do Ballantine’s Finest (mais que do 12 anos). O Chivas 12 eu achei meio difícil de julgar, porque o sabor é muito bom, mas parece que quer escapar. O Gold Label foi o meu favorito, e eu passei o resto da noite tomando o Black. O Dewars eu achei intolerável. Não experimentei o Dalmore porque só tinha garrafa, mas tenho planos. hahah E o Maker’s Mark vai pra a lista!
        Eu conto, sim. Te acompanho lá no Instagram. Se vier a João Pessoa, me avise. 😉
        Abraço!

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