Da Civilização – The Dalmore 12 anos

A civilização é algo precioso. Com ela, pudemos contar com um sem fim de coisas que nossos ancestrais nem imaginavam. Pudemos desfrutar de facilidades que hoje, tomamos como garantidas. Água encanada, esgoto, luz. Delivery de pizza, supermercados e centenas de milhares de barbearias, paleterias mexicanas e hamburguerias. Comida sem glúten e sem lactose mesmo pra quem não precisa, foodtruck de kombucha e todo tipo de solução para todo tipo de problema que não teríamos, se não vivêssemos em sociedade.

Mas acho que a maior vantagem de todas é mesmo a tranquilidade. Não a tranquilidade da rotina, porque se existe alguma coisa que não é tranquila nos dias de hoje, é a rotina. A rotina pra quase todo mundo é bem corrida. Tanto que às vezes nem dá tempo de fazer xixi entre uma coisa ou outra, por exemplo. Mas a tranquilidade de saber que você tem maiores chances de terminar o dia vivo. Eu sei que mesmo hoje pode acontecer todo tipo de desfortúnio desagradável que desemboca na morte. Mas pensa bem. A chance de você ser devorado por um urso enquanto dorme é bem pequena. Ou de pisar em uma taturana tão venenosa que liquefará todos seus órgãos internos em questão de segundos.

Não é Jumanji…

Se você ainda não está convencido, deixe-me exemplificar. Com whisky, claro. Em 1263 o Rei Alexander III da Escócia caminhava – ou cavalgava, sei lá – tranquilamente pelas highlands escocesas quando, repentinamente, um enorme veado, com sua galhada pontiaguda, correu em sua direção, pronto para dilacera-lo. E veja bem, não estamos falando de qualquer pessoa, mas do rei da Escócia. Um cara que hoje a gente jamais imaginaria que correria qualquer risco de ser empalado por qualquer bicho chifrudo. Bem, e o Rei Alexander III teria encontrado lá seu destino, não fosse Colin of Kintail, chefe do Clan Mackenzie, que enfrentou o animal e o abateu.

O Rei Alexander ficou tão grato com Colin que lhe cedeu as terras do atual castelo de Eilean Donan, o lema “Luceo Non Uro” e o direito de usar uma representação da cabeça do animal como seu brasão. Este brasão que, mais tarde, por uma sucessão de eventos que não tem nada a ver com o Rei Alexander e – em boa parte – nem com Colin de Kintail, se tornaria o símbolo da The Dalmore, uma das mais reconhecidas destilarias das highlands escocesas.

É que a Dalmore foi fundada por um homem chamado Alexander Matheson em 1839. Alexander era um homem rico, proprietário da East India Company, que controlava as exportações de ópio para China. Em 1878 a destilaria foi comprada pelos irmãos Mackenzie – descendentes de Colin of Kintail – e permaneceu na família até 1960. Foi nessa época que a Dalmore recebeu o símbolo do veado, em alusão à história do Rei Alexander III.

Em 1960 a destilaria foi comprada pela Whyte & Mackay. O grupo, que mesmo antes da compra utilizava os whiskies da Dalmore preponderantemente para blends, logo percebeu a joia que tinha em mãos. Afinal, Dalmore é um whisky oleoso e com muita personalidade. Assim, resolveram que engarrafariam parte da produção como single malt.

O portfólio da Dalmore mudou bastante ao longo dos anos. Foram lançadas edições raríssimas, com preços estratosféricos, como o Dalmore Constellation e Sinclair, bem como whiskies sem idade definida – como o King Alexander III e Luceo. Foram elaborados whiskies temáticos, como o Cigar Malt, desenvolvido especialmente para se harmonizar com charutos. E foram também lançadas edições mais tradicionais, que de tempos em tempos entravam e saíam de seu portfólio, como o 15 e o 18 anos. Mas a espinha dorsal da produção da Dalmore sempre foi seu 12 anos.

Pechincha (note que há três zeros depois da vírgula)

A maturação do Dalmore 12 anos ocorre de forma fracionada. Primeiro, o destilado passa nove anos em barricas de carvalho americano utilizadas previamente para maturar bourbon whiskey. Depois, apenas metade deste destilado é transferido para barricas de carvalho europeu que contiveram vinho jerez oloroso, para que passe os próximos três anos. Depois disso, as duas parte são finalmente reunidas, o whisky é cortado – adociona-se água – e engarrafado. O resultado é um single malt com uma inegável influência vínica, mas com o dulçor e o caramelo característicos do bourbon. É um whisky oleoso, com especiarias e frutas secas,  final médio, e muito fácil de ser bebido.

No Brasil, uma garrafa do Dalmore 12 anos custa aproximadamente R$ 300,00 (trezentos reais). Pode parecer bastante, e na verdade é. Mas o Dalmore 12 é também um dos melhores custo-benefício de single malts com influência de jerez à venda por aqui. Apesar da idade, ele não aparenta imaturidade e é um exemplo quase perfeito do que as tão cobiçadas barricas de carvalho europeu de ex-jerez podem fazer a um whisky. É um whisky muito civilizado e pouco desafiador, que agradará tanto os iniciantes quanto os mais experientes no universo de single malts.

Assim, se você é apaixonado por whiskies com influência vínica, ou se é um iniciante e mataria – não faça isso, estamos em sociedade – de curiosidade para saber o sabor de um single malt maturado em jerez, o Dalmore 12 anos é uma de suas melhores apostas. Ah, e enquanto o estiver degustando, dedique um brinde à civilização. Afinal, se não fosse ela, nem mesmo saberíamos o que é whisky.

THE DALMORE 12 ANOS

Tipo: Single Malt 12 anos

Destilaria: Dalmore

Região: Higlands

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: frutas cristalizadas, vinho fortificado, mel e açúcar.

Sabor: Especiarias, vinho fortificado, frutas cristalizadas. Uvas passas. Final médio, com vinho e chocolate.

Com água: Um sabor de cereais aparece e a influência do vinho fica menos aparente.

Preço: Em torno de R$ 300,00 (trezentos reais)

7 thoughts on “Da Civilização – The Dalmore 12 anos

  1. Grande postagem Cão! Esperava ver o Dalmore 12 por aqui cedo ou tarde! Esse Single Malt tem um grande significado pra mim: em 2016 eu trabalhava “embarcado” no regime 42 dias no projeto e 21 dias de folga, em casa. Ocorreu que no dia dos pais daquele ano eu consegui passar em casa e levei de presente para meu pai – um singelo bebedor de White Horse – uma garrafa do Dalmore 12 anos. Não conhecia mas tinha curiosidade por whisky e por indicação de um ex-colega de trabalho (Hugo, um abraço!) escolhi o Dalmore.

    Bebemos algumas doses juntos naquele domingo a tarde, ele adorou, eu me iniciei no mundo desses destilados. Ele gostou tanto que depois até escondeu a garrafa pra nenhum alheio surrupiar uma dose: era o nosso whisky.

    Voltei para o trabalho, passaram os 42 dias e depois de uma semana em casa descobrimos, em meados de Novembro, que meu pai estava com câncer de pulmão em estágio avançado que o acabou levando em Dezembro. Tive que terminar a garrafa sozinho.

    Desde então, cada dose de Dalmore 12 anos me remete àquele domingo dia dos pais de 2016, nossa primeira e última dose juntos. Um brinde à civilização e ao meu velho.

    1. Caramba, Thiago, que história! Meus sentimentos pelo seu velho. Um brinde à civilização, a ele e a boas memórias que temos com aqueles que nos são caros.

  2. Finalmente saiu essa matéria, e infelizmente, meu paladar não está tão aguçado assim…kkkk Quando degusto esse néctar dos deuses, sinto um final apimentado, e claro, delicioso, sendo q essa degustação é dele puro (cowboy para os leigos), um Whiskey encorpado e fantástico, fiquei receoso quando comprei, principalmente pelo preço, mais valeu cada centavo (tanto q já estou na 3° garafa)… E quanto a civilização, MUITO obrigado…

    Abraço e sucesso, para o melhor amigo do homem (depois do Whiskey)…

    1. Hahahaha muito obrigdo, Celso. Pois é, meu caro. Estava devendo mesmo essa prova há algum tempo. Não sabia – aliás, sabia, mas não imaginava o quanto – que o Dalmore 12 era tão amado! Mas gosto muito dele também – talvez até mais do que o irmão mais velho, o 15.

  3. Boa noite, Cão.

    O Dalmore realmente é um whisky imponente. A garrafa é linda, a cabeça do veado (ou outro bicho que agora esqueci o nome) é um convite para expor na prateleira.
    Mas, sinceramente, pela primeira vez vou discordar da sua avaliação.
    Eu não gostei nem um pouco do Dalmore 12. Pra falar a verdade, achei que é o single malt que eu menos gostei até hoje.
    Achei ele desnecessariamente pesado demais, desequilibrado, forte, e nem um pouco fácil de beber.
    Enfim, opiniões. Talvez por ter criado uma expectativa acima do entregue pelo whisky.

    Abraços

    1. Fala meu caro. Cara, demorou um tempo para eu gostar. Ele é um whisky BEM puxado para o vinho jerez mesmo, e oleoso. No começo, eu sentia um certo sabor de cereais, que me incomodava bem, a ponto de nem sentir direito o vinho. Mas com o tempo – e a insistencia – o paladar se acostumou. Hoje gosto dele, como disse lá no outro comentario, até mais do que o Dalmore 15. E acho um belo acompanhamento para charutos também!

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