Do Zênite – Johnnie Walker Blue Label

 

O Cão Engarrafado - Johnnie Walker Blue Label

O desejo é uma coisa interessante. Porque, na maioria das vezes, a satisfação é nada além de efêmera. Para mim, isso vale para quase tudo na vida. Um livro concluído, um prato experimentado, uma música descoberta. Mas quando pensamos em bens materiais, a coisa fica ainda mais estranha.

Porque, curiosamente, as maiorias das coisas que desejo absurdamente são, na verdade, versões diferentes daquelas que já tenho. Por exemplo, eu tenho uma coqueteleira. Mas adoraria um Cardington Shaker do Cocktail Kingdom Reseve. Tenho também uma televisão. Mas uma SmartTV 4K não seria nada mau. Eu tenho um carro, mas ficaria bem mais feliz com um Maserati Quattroporte ou um Aston Martin Vanquish.

E ainda que a razão me diga que qualquer destas coisas não faria a menor diferença – porque eu continuaria chacoalhando meus coquetéis do mesmo jeito, assistindo a mesma Galinha Pintadinha com a Cãzinha, e preso no mesmo engarrafamento – esta força schopenhauriana que sempre me faz desejar mais é implacável.

Isso, fatalmente, se reflete nos whiskies. E na aurora de meu interesse, o Johnnie Walker Blue Label ocupava espaço de destaque. Aquele, imaginava, era o blended whisky mais caro da mais famosa linha de blended whiskies do mundo. Ele era a atmosfera rarefeita após galgar todos os degraus coloridos da escada da marca do andarilho. Um objeto de desejo absoluto e – provavelmente – o único perene. Porque, afinal, o que haveria depois da Cardington, da SmartTV ou da Maserati?

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Antes de prosseguir com minhas impressões, vou fazer uma pausa dramática para algumas informações técnicas. Como vocês já devem saber, o Johnnie Walker Blue Label é um whisky sem idade definida, composto tanto por single malts quanto whisky de grão. Seu principal componente é o single malt Royal Lochnagar, curiosamente, também o coração do Vat 69.

De acordo com a Johnnie Walker, o Blue Label foi elaborado para recriar o sabor e a experiência dos primeiros blended whiskies da marca, do início do século dezenove. As garrafas, de uma cor azul pálida, são numeradas, e apresentadas em um belo estojo de veludo. Talvez o mesmo veludo usado nos painéis das Maseratis. Eu não saberia dizer. Há veludo nos painéis das Maseratis?

Atualmente, uma garrafa de Blue Label custa em torno de R$ 1.000,00. Se você analisar friamente, é muito dinheiro para um blended whisky sem idade definida, cuja maioria de seus componentes é filtrada a frio, e com 40% de graduação alcoólica. Mas se fosse assim, para que alguém precisaria de um superesportivo italiano, uma coqueteleira de prata de lei ou uma televisão tão precisa que nem os programas são filmados com tanta qualidade?

Palmas. Mas e daí?
Palmas. Mas e daí?

Foi ainda antes de minha estreia no universo dos single malts que tive a oportunidade de experimentar o Blue Label. E, uma década depois, novamente me concedi esta experiência. Ele é um whisky extremamente suave, mas, ao mesmo tempo, com sabor residual persistente. Há uma certa defumação, marca da Johnnie Walker, mas que está lá apenas timidamente. Ainda que – para o gosto deste canídeo – ele seja talvez adocicado demais, não há qualquer aroma ou sabor fora do lugar. O álcool é quase imperceptível, mesmo se tomado puro e sem água.

O Johnnie Walker Blue Label é, ao mesmo tempo, um dos whiskies mais desejados e mais polêmicos do mundo. Grande parte desta polêmica, porém, gira mais em torno de seu preço do que, realmente, de sua complexidade. Há uma falsa crença de que blended whiskies são produtos inferiores a single malts, e, portanto, não devem ser caros. Aqui não estou tentando justificar seu preço que, aliás, é bem alto. Mas apontar que – ultrapassada a barreira de seu valor – ele é um whisky bem bom.

Pelo faro deste Cão, nota-se que alguns whiskies bastante maturados fizeram parte de sua composição. Assim como, claro, alguns mais jovens. Isto, entretanto, não é um demérito. Em certos casos, whiskies jovens funcionam melhor para emprestar certo sabor ao blend. É o que ocorre com o aroma defumado, por exemplo, que é mais presente em single malts com menor maturação. Além disso, blended whiskies devem possuir constância. Ao longo dos anos, não deve haver muita variação de qualidade, de forma que o consumidor saiba que aqueles sabores que já sentiu estarão lá. Estarão lá independentemente de quando comprou sua última garrafa.

O Johnnie Walker Blue Label, como se não bastasse, também é o protagonista de diversas edições limitadas. Em algumas delas, há efetiva mudança do líquido, como é o caso do Blue Label Casks Edition, versão com 55,8% de graduação alcoolica. Em outras, porém, o que muda é a embalagem, como no Blue Label Porsche Design Edition e no – belíssimo – Blue Label Dunhill.

Dito tudo isso, a impressão deste Cão é que o Johnnie Walker Blue Label é, na verdade, uma autoindulgência. Assim como, claro, coqueteleiras de prata, televisores de alta definição e superesportivos ingleses e italianos. Seu preço se justifica em sua exclusividade, e na promessa da experiência especial que irão lhe proporcionar. Porque, para ser sincero, não existe uma boa razão para tê-los, exceto, claro, pelo fato de serem todos maravilhosos.

Por favor, protejam-me daquilo que mais desejo.

JOHNNIE WALKER BLUE LABEL

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 40%

Notas de prova:

Aroma: Adocicado, com mel e especiarias, levemente defumado.

Sabor: frutado (frutas em calda), mel, castanhas, nozes, especiarias. Final longo e progressivamente mais seco. Funciona muito bem puro.

Com água: A agua reduz a impressão do defumado e do adocicado, deixando o whisky ainda mais leve.

Preço Médio: R$ 1000,00 (mil reais)

 

12 thoughts on “Do Zênite – Johnnie Walker Blue Label

  1. hehe
    Texto delicioso!
    Não entendo patavina de whisky (sou mais amigo dos fermentados), mas estou incinado a conhecer algo a respeito (embora os valores envolvidos dificultem um tanto, ainda mais em tempos de vacas magras).
    Seu blog tem sido um grande incentivo. Pelo que sou grato.
    Abraço!

    1. Olá Roberto, que legal saber disso. Continue aqui explorando o Cão, espero que esteja contribuindo – ao menos culturalmente…rs – para seu conhecimento etílico! haha!

  2. O Blue Label é lendário. É impressionante a representatividade dele. Ele é referência para quem conhece e quem não conhece whisky.
    Quando comento com alguém sobre minha coleção, fatalmente segue a questão: “Legal! Vc já tem o Blue Label?”
    Com certeza é um whisky excelente e ainda que eu não tenha provado, não há como discutir sua qualidade, porém eu preferiria investir R$ 1.000,00 em alguma outra obra prima alcólica haha.

    Grande abraço, Maurício!

  3. Amigo, na sua opinião qual é o melhor blended? O primeiro da sua lista? Blue Label, Green Label, Chivas 18y, Royal Salute 21 ou Dimple?

    Parabéns pelo site, aprendi muito, espero um dia ser um grande conhecedor(escritor haha) como você.

    Abraço

    1. Fala Luiz Carlos, tudo bem? Opa, muito obrigado! Mas nada de escritor ou conhecedor por aqui. Apenas um ébrio com um modem e uma vontade meio incontrolável de escrever besteira.

      Essa pergunta é complicada, porque ela é somente e estritamente baseada em gosto. O processo produtivo destes blended whiskies (ou blended malt, no caso do Green) é muito semelhante – e aliás, de altíssimo padrão de qualidade. Não há como dizer que prefere um a outro porque um deles é mais simples ou menos interessante do que o outro, porque isso é um juizo de valor, e é proprio de cada pessoa.

      Mas… dito tudo isso, dos acima mencionados, acredito que Green Label e Chivas Regal 18YO estejam empatados em primeiro. Mas os três outros seguem muito próximos!

      1. Opa , tudo tranquilo. Agradeço a resposta, tenho uma garrafa do Chivas 18y pela metade aqui, agora vou investir no Green para ver se concordamos! hahah

        Abraço.

  4. Realmente para chegar lá, alem de qualidade, é preciso muuuuito dinheiro em marketing isso sim kkkkk
    Podemos com certeza comprar vários single’s pela metade do preço de um blue e ainda assim excepcionais.
    Parabéns pelas análises

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