Johnnie Walker Blue Label Ghost & Rare

Quando você presta atenção no tédio, ele se torna inacreditavelmente interessante. Quem primeiro proferiu essa frase foi Jon Kabat-Zinn. Um cara que nunca havia ouvido falar na vida, e que, para falar a verdade, ainda não sei bem quem é. Mas tenho a sensação de que ele está certo. Porque descobri sua frase justamente em uma tarde em que tentava aliviar um pouco o tédio pesquisando frases espirituosas.

O tédio é, talvez, o pai de grandes descobertas. E das pequenas também. Foi o tédio que me fez assistir Berlin Aexanderplatz, do Fassbinder, por longas quinze horas. E aprender – com uma ajudinha da internet – que leite de hipopótamo é rosa, que polvos tem três corações, e que a Universidade de Oxford é mais antiga que o Império Asteca. Mas acho que uma das descobertas mais legais que o tédio me proporcionou recentemente foi sobre o caviar do Esturjão Beluga Albino.

O caviar do esturjão beluga albino é caríssimo, ainda mais se for de uma variedade conhecida como Almas. Essa é provavelmente a comida mais cara do mundo. Um quilo custa vinte e cinco mil dólares. É que o tal do peixe, que vive no Mar Cáspio, é raríssimo. E suas ovas – o caviar – são obtidas apenas de fêmeas com idade superior a um século. É isso mesmo, o esturjão tem que ter mais de cem anos de idade. De acordo com especialistas, à medida que a fêmea fica mais velha, seus ovos tornam-se mais elegantes, suaves e aromáticos, com uma espécie de textura esponjosa.

E pra acompanhar, o melhor é leite de unicórnio virgem.

E ainda que a recomendação seja experimentá-lo puro e apenas levemente resfriado, o Almas pode ser utilizado também em receitas. Como é o caso de uma salada de lagosta e caviar – de uma espécie levemente mais em conta – preparada pelo chef internacional Gordon Ramsay. Mas não é apenas na culinária que ingredientes raros e concorridos e luxuosos são utilizados. No mundo do whisky também.

No caso do mais recente lançamento da Diageo, o Johnnie Walker Blue Label Ghost & Rare, esse ingrediente é o single malt Brora. Um nome que, sozinho, já justificaria um preço exorbitante em qualquer garrafa. É que Brora foi uma destilaria das Highlands, famosa por produzir maltes defumados excepcionais, e que foi desativada em 1983. Desde então, sua proprietária, a Diageo, têm lançado edições especiais limitadíssimas, utilizando seu estoque remanescente. E para aumentar ainda mais a expectativa, em 2017, foi anunciado que a destilaria seria reativada em 2020.

Além do unicórnio Brora, o  Johnnie Walker Blue Label Ghost & Rare leva outros fantasmas. As – também desativadas ou demolidas – Cambus e Pittyvaich. Já o adjetivo “rare” (raros) fica por conta de Royal Lochnagar, Glenkinchie, Glenlossie, Cameronbridge e Clynelish. Essa última, destilaria que herdou da Brora seu brasão. Pode parecer um pouco hiperbólico utilizar a expressão raro para definir maltes relativamente comuns, como Glenkinchie. Mas claro, isso é um conceito discricionário. E, além disso, depende das barricas escolhidas para compor o blend – estas destilarias possuem maltes raros em seus estoques, por eles produzidos.

De acordo com a Diageo “Com o continuo crescimento do interesse do consumidor tanto na arte de produção quanto na raridade por trás dos whiskies escoceses de luxo, Jim Beveridge – Master Blender do Ano em 2015 e 2016 – selecionou cuidadosamente oito inestimáveis whiskies de malte e de grãos para essa edição especial, três dos quais provem de destilarias fantasmas (…). Jim sempre foi fascinado em como whiskies de um seleto grupo de destilarias icônicas que fecharam a vários anos atrás podem conferir a extraordinária riqueza de sabor pela qual Johnnie Walker Blue Label é renomado. Da sua biblioteca de whiskies insubstituíveis ele elegeu algumas expressões únicas e marcantes desses preciosos whiskies de malte e de grãos para que as pessoas pudessem explorar, de um novo modo, a extraordinária riqueza de sabor encontrada na nossa joia da coroa.”

Brora em produção

A convite da Caruso Longe – sempre ela, com os mais extraordinários convites – e Diageo, este Cão teve o prazer de experimentar a criação em um evento especial de lançamento que aconteceu no restaurante Attimo Per Quattro, em São Paulo.

Comparado ao Blue Label tradicional, o  Johnnie Walker Blue Label Ghost & Rare é muito mais profundo, seco e rico. O elemento defumado – Brora – pode ser percebido, especialmente no sabor residual. A complexidade é ainda acentuada pela maior graduação alcóolica em comparação com a versão tradicional – de 46%. De certa forma, este Cão fica admirado mas ao mesmo tempo um pouco melancólico com este lançamento. É um whisky riquíssimo, capaz de mostrar toda a capacidade da Johnnie Walker de produzir um blend super-premium apto a desbancar single malts excelentes. Se o Blue Label tradicional tivesse esse perfil de sabor, não tenho dúvidas que a polêmica ao redor de seu preço seria bem menor.

O Johnnie Walker Blue Label Ghost & Rare é um whisky excelente, que terá apelo tanto para o apaixonado por whiskies – ávido para experimentar algo que leve o desejado Brora – quanto para aquele com apetite pelo luxo. Aliás, ele é justamente isso, um atestado de por que a Johnnie Walker é o primeiro nome que se vêm à mente quando o assunto é luxo no mundo dos whiskies. Eu nunca provei – e acho que jamais provarei – ovas de esturjão albino Almas. Mas se algum dia tiver essa sorte, já sei qual whisky o acompanhará.

JOHNNIE WALKER BLUE LABEL GHOST & RARE

Tipo: Blended Whisky sem idade definida (NAS)

Marca: Johnnie Walker

Região: N/A

ABV: 46%

Notas de prova:

Aroma: Adocicado, com mel, amêndoas, pimenta do reino.

Sabor: frutado (frutas em calda), mel, castanhas, nozes. Final floral e levemente vínico. Mais seco e apimentado que o Blue tradicional, com um final de pimenta do reino incrível.

Preço Médio: R$ 1300,00 (mil e trezentos reais)

15 thoughts on “Johnnie Walker Blue Label Ghost & Rare

  1. Cão, apenas a sua descrição deste blend já nos faz ter vontade de comprá-lo, apesar do preço. Parabéns pelo texto.

    P.S.: Quais lojas online o cão recomenda para este humilde filhote?

  2. Prezado Cão…a minha lista de aquisições futuras, depois de degustar seu tão preciso comentário sofreu uma alteração imediata. Grande Abraço!

  3. Interessantíssimo, mestre! Se me permite a colocação, eu diria que este é o verdadeiro Blue Label. A propósito, confesso que estou curioso com a reabertura de Brora (e Port Ellen).
    PS: Alguma previsão de analisar o Clynelish 14y?

    Abraço!

    1. Caramba, mestre. Acabei de lembrar que já fiz foto e tasting note do Clynelish, mas não fiz post! Bem, você acabou de adiantar a previsão, veremos!

  4. A história deixa mais prazeroso o momento de apreciar um Whisky. Hoje, eu e mais 3 amigos vamos nos reunir e teremos conosco a companhia de duas garrafas do Blue Label Ghost & Rare. Seus comentários e análises sempre nos enriquecem e valorizam a degustação de excelentes Whiskys.

  5. Grande Mauricio , além do Brora e do próximo lançamento , Port Ellen , tem previsão para outros lançamentos das edições Ghost and Rare ?
    Abs

    1. Opa, fala Ricardo, tudo bem, meu caro?

      Olha, que eu saiba, será uma expressão por ano. Mas não imagino qual seja o próximo da linha Ghost & Rare. As duas mais proeminentes destilarias desativadas do portfolio da Diageo já foram. A proxima, na minha opinião, seria Rosebank. Mas ela não pertence mais à empresa, então duvido que seja citada! rs

          1. Diante da sua resposta tenho que dizer que o Sr está acabando com o orçamento desta família ..rsrs
            Abs

          2. HAHAHAHAHAH!Eu sei, Ricardo. Quando provei o Ghost and Rare, logo fiz um reality check para não correr o risco de comprar uma garrafa. Deu muita vontade mesmo! Ele é absolutamente incrível.

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