Jura 18 anos – Ilha Deserta

Quando sua vida serve de base para duas obras primas da literatura, ela, provavelmente, foi interessante. Como, por exemplo, a de Alexander Selkirk. Seus quatro anos e meio de sobrevivência em uma ilha deserta inspiraram Jonathan Swift e Daniel Defoe a escreverem, respectivamente, as Viagens de Gulliver e Robinson Crusoé. Selkirk era um marinheiro escocês, que após uma desavença com o capitão sobre a segurança do navio que trabalhava, foi abandonado de castigo na ilha de Juan Fernandez para deixar de ser uma pessoa mal-educada. Ou melhor, para deixar de ser uma pessoa.

Acontece que Selkirk se mostrou um ótimo sobrevivente. Daqueles, capazes de tornar as aventuras de Bear Grylls tão selvagens quanto uma massagem num spa nas montanhas. Alexander se abrigou em barracas que construiu com árvores de pimenta, comeu ostras frescas – dificilmente considerado um luxo tendo em vista as condições sanitárias da ilha – e peixe. Em determinado momento, foi expulso da praia onde havia se instalado por uma horda de leões marinhos que transformaram o lugar em um enorme bacanal de mamíferos semiaquáticos. No interior da ilha, encontrou cabras e gatos selvagens, que lhe providenciaram leite e proteção contra basicamente todo resto da ilha que queria devorá-lo. Foi finalmente resgatado por um navio corsário após quase meia década sozinho.

Nutella.

A história de Alexander parece, para a maioria de nós, absurda. É impossível viver sem internet, sabão e álcool. Mas foi justamente isso que algumas pessoas fizeram, às vezes até voluntariamente. É o caso de Archibald Campbell que fundou a destilaria Jura na ilha homônima, em 1801. Naquela época, Jura era uma ilha quase completamente deserta. E, para falar a verdade, assim permaneceu. George Orwell se instalou lá em 1946 para terminar “1984” e descreveu a ilha como “um lugar extremamente inalcançável”. O que faz sentido, considerando que a população da ilha não chega a mil pessoas.

A (primeira) destilaria Jura sobreviveu até 1901. E retornou como outra destilaria, mais de meio século depois, em 1963, sob a tutela de Charles Mackinlay & Co e dois proprietários de terras em Jura que – pasmem – queriam que a ilha tivesse um futuro. Um futuro, aparentemente, com seres humanos, porque para a vida selvagem, Jura sempre foi um paraíso. De qualquer forma, os proprietários instalaram alambiques altos, que incentivavam o refluxo, e produziam um destilado leve e aromático, perfeito para o mercado de blended whiskies. A decisão de criar uma linha de single malts começou apenas em 1974 e, naquela época, não havia qualquer whisky turfado.

De lá para cá, a linha permanente da Jura passou por algumas mudanças bastante radicais. Em determinado momento, duas expressões defumadas entraram no conjunto – Superstition e Prophecy – e, mais tarde, foram descontinuadas. Atualmente, ela conta com Journey, 10 anos, 12 anos, 18 e Seven Wood. Além deles, outras expressões mais infrequentes são Jura 21, Red Wine Cask, French Oak, Winter Edition e Rum Cask Finish. Dentre as mais tradicionais, o Jura 18 anos é a joia da coroa, e também o tema desta prova.

O Jura 18 anos é maturado quase que exclusivamente em barris de carvalho americano de ex-bourbon. Depois, é finalizado por um prazo não divulgado pela destilaria em barris de vinho tinto “Premier Grand Cru Classé Bordeaux”, conforme a própria Jura. O ponto curioso aqui é o tempo de maturação, e os barris. A influência da madeira, para um whisky de dezoito anos, é relativamente discreta, o que sugere o uso de barris de reuso. Assim como a nota vínica notável, mas sutil. O Jura 18 anos, na verdade, é um whisky bem delicado – o tempo de barril parece ter servido mais para aparar as arestas pontudas do new-make spirit do que, efetivamente, para aportar sabor.

A Jura

Em comparação com o Jura Seven Wood com o jovem Jura 10, o Jura 18 tem mais complexidade, delicadeza, equilíbrio e influência vínica. O tema, entretanto, é o mesmo. Ele dificilmente catequizará algum bebedor que já não gostava da destilaria antes, ou mudará opiniões sobre ela. Especialmente partindo das expressões mais simples. Ao contrário da linha antiga, que contava com uma variedade sensorial até confusa – com whiskies turfados e secos, turfados e vínicos e adocicados e florais – o diagrama sensorial pouco muda. O que é estranho, já que a própria destilaria alega usar maltes turfados e não turfados em sua composição.

Se você procura um single malt luxuoso, delicado, complexo e fácil de beber, o Jura 18 anos é para você. É um whisky que dificilmente agredirá algum paladar. É aquele tipo de garrafa que você recorre a qualquer momento, mesmo quando não sabe qual whisky quer beber. Permitam-me lançar mão de um lugar comum: se Alexander Selkirk pudesse escolher uma única garrafa para levar para a – nem tão proverbial – ilha deserta, provavelmente, teria escolhido o Jura 18 anos.

JURA 18

Tipo: Single Malt
Destilaria: Jura
País/Região: Escócia – Highlands (Islands)
Idade: 18 anos

Notas de prova:

Aroma: frutado, amendoas, mel.

Sabor: amendoas, caramelo, frutado e levemente vínico. Final adocicado e frutado.

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