May Vesper – James Bond em Islay

“Um Dry Martini. Num cálice de champanhe. Tres partes de Gordon’s, uma parte de vodka, meia parte de Kina Lillet. Bata tudo até que esteja bem gelado, e depois finalize com uma fatia grande e fina de casca de limão. “. Eu nem preciso dizer que coquetel é esse. Porque você, caro leitor e entusiasta dos copos, já sabe. “Este drink é minha invenção. Eu vou patenteá-lo quando pensar em um bom nome“. E, mais para o final do livro – ou do filme, caso seja de sua preferência, ele finalmente bate o martelo “Acho que vou chamá-lo de Vesper“.

Note que, no parágrafo acima, eu nem mencionei James Bond. E nem precisei. Você já sabia que era ele a partir da segunda linha deste texto. Ele é certamente o agente secreto mais célebre – e menos secreto – da ficção. Até quem não gosta da franquia sabe uma porção de coisas sobre ele. Que tem uma paixão por Aston Martins, bebe dry martinis e The Macallan – aliás, em quantidades pouco recomendáveis – e carrega a tal perigosa licença para matar. O que você não deve saber, a não ser que seja um fã muito dedicado, é que James Bond foi criado como um personagem bem diferente do que é hoje.

O nome inclusive era um reflexo disso “eu queria o nome mais simples, sem graça, que pudesse encontrar. James Bond era muito melhor do que algo mais interessante, como Peregrine Carruthers, por exemplo. Coisas exóticas aconteceriam ao redor dele, mas ele seria uma figura neutra – um anônimo, um mero instrumento portado por um departamento governamental” – declarou, certa vez, seu criador Ian Fleming. Os gostos originais de Bond, inclusive, refletiam essa singeleza, e a vontade, meio sem parâmetros, de ser notado ou grandioso. Um atributo polêmico para uma pessoa cuja profissão exige, justamente, discrição.

Discreto.

E é neste ponto que chegamos ao papo do “batido e não mexido”, e sobre a real natureza do personagem do espião. Não faz o menor sentido você pedir um dry martini batido. O coquetel não se beneficia em nada de ser chacoalhado. Aliás, pelo contrário. Bater o dry martini significa diluí-lo excessivamente, e ainda correr o risco de deixar dezenas de fragmentos de gelo no copo. Comandar que seu coquetel fosse batido não demonstrava sofisticação – como James Bond esperava – mas, sim, pedantismo. E Ian Fleming sabia disso.

A afetação de James Bond se refletia em outros gostos, também, e no jeito que se comportava. De volta ao primeiro parágrafo “eu acho que vou batizá-lo de Vesper” “por causa do final amargo?” “não, porque uma vez que você provou, é tudo que você quer” não chega a ser um galanteio elegante (aliás, nenhum galanteio é elegante, mas este é outro papo). Essa presunção, entretanto, com a evolução da franquia, ficou mais velada. Bond ganhou um background escocês, um tio – Max – e uma governanta, também escocesa, chamada May.

E daí que vem a inspiração para este coquetel. O May Vesper, uma versão do clássico Vesper, que troca a vodka – o frango desossado e sem pele da coquetelaria, nas palavras de Dave Wondrich – por algo bem mais interessante. Single malt turfado. Ele é uma versão aprimorada (afinal, scotch whisky turfado melhora tudo) do drink original. Nesta adaptação, feito com Laphroaig 10 anos – para realçar as notas medicinais – e o gin japonês Roku, por conta de seu perfil cítrico. Além, claro, de Lillet Blanc. Que nos livros de Fleming era Kina Lillet, e que não existe mais, e que jamais daria certo no drink, de qualquer jeito.

Te mato.

Ah, e claro. Batido, e não mexido, porque nem tudo precisa fazer sentido.

MAY VESPER

INGREDIENTES

  • 60ml gin (este Cão usou Roku, pelo perfil cítrico)
  • 20ml whisky turfado (escolha algo mais seco e medicinal, ao invés de adocicado. Usei aqui Laphroaig 10 anos)
  • 10ml Lillet Blanc
  • parafernália para bater
  • taça coupé ou de martini

PREPARO

Sério que você está lendo como fazer uma Vesper? Batido, e não mexido!

One thought on “May Vesper – James Bond em Islay

  1. “afinal, scotch whisky turfado melhora tudo”
    Tudo mesmo até um dia que tenha sido ruim … no fim desse dia um trufado ajuda !

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