Mitos e Lendas do Whisky – Parte II

Segunda-feira, onze horas da noite. Minha filha desliza de meias, de fininho, na sala escura, onde me surpreende dando os últimos retoques num balde de whisky com Angostura que ousei chamar de Old Fashioned. Papai, não consigo dormir. Penso, rapidamente que nem eu, mas que esse problema seria resolvido tão logo terminasse o copo em minha mão. Por que filhota? Indago, num tom ao mesmo tempo carinhoso e incomodado. O que segue foi um diálogo que tentei reproduzir da forma mais verídica possível.

Porque tem um monstro embaixo da minha camamas cria, sua cama é uma bicama, não cabe nenhum monstro lá embaixo, só se for uma planária. Silêncio estranho. Papai o que é uma planária? – esquece bebe, não tem nenhum monstro embaixo da sua cama, olha, vamos lá que vou te mostrar. Apoio o copo no piano. Ela titubeia. Mas papai, você não tem medo do monstro? – não filhotinha, não tenho – mas pa, você não tem medo de nada?na verdade, cria, eu tenho medo de uma porção de coisas, mas monstro não, porque eles não existem. Ela vira a cabeça de lado, como um cãozinho que não entende bem o que falamos – e o que existe e você tem medo?

Pensei um pouco. Eu tenho medo de bastante coisa. Mas, imediatamente, respondi uma óbvia. Boletos. Ela me olha com interesse. Boleto é um monstro? Não, filhotinha, mas boleto existe. Ela aperta os olhos e afia o olhar. Mas – como -você – sabe – que – monstro – não – existe? Parei. Sei lá, talvez monstros existam e eles simplesmente me ignoram porque sou uma forma de vida tão primária quanto a planária lá de cima. Eu acredito em tanta coisa que não existe, também.

E o mundo do whisky é assim também. Cheio de crendices. Mitos, lendas, histórias que são perpetradas de bebedor para bebedor, e que não tem nenhuma base real. Algumas delas, são as seguintes.

BLUE LABEL É 21 ANOS

Tá, essa é fácil. Não é, e o Red Label também não é sete ou oito anos. Ambos são, na verdade, o que é conhecido como NAS – No Age Statement, que, em português, é algo como “sem idade declarada”.

De acordo com as regras da Scotch Whisky Association, para que um whisky escocês seja chamado de “scotch whisky” ele deve – entre outras regras – passar três anos em barris de carvalho de no máximo setecentos litros. Mas, normalmente, a idade é bem superior a esta. Quando whiskies de diferentes barris são misturados, o produtor deve colocar no rótulo a idade do whisky mais jovem. Então, se você mistura um dez anos com um vinte anos, o rótulo dirá dez anos. Ou não.

Ou não porque o produtor tem a faculdade de não declarar a idade. Neste caso, não sabemos exatamente qual a idade do componente mais jovem. Mas sabemos que, por regra, deve ser superior a três anos. E tanto o Blue Label quanto o Red Label se enquadram nessa regra. Mas é óbvio que eles não tem a mesma idade. Sensorialmente, o Blue indica que possui whiskies bem mais maturados. Inclusive, whiskies de grão que devem ter passado bom tempo nas barricas de carvalho – é por isso que ele não possui aquelas arestas pontudas, que encontramos em alguns outros blends.

Se o preço compensa ou não, cabe a cada bebedor decidir. No entanto, vale lembrar que o “no age statement” é uma tendência do mercado, e que há whiskies fantásticos que não possuem qualquer numero estampado no rótulo, como o Macallan Reflexion, Dalmore King Alexander III e Bruichladdich Port Charlotte Scottish Barley.

WHISKY DE MILHO É RUIM

Essa é uma lenda complicada. Porque, para falar a verdade, a gente não sabe bem de onde veio. Suspeitamos que seja um preconceito emprestado do mundo da cerveja puro malte – ou seja, feita 100% de cevada maltada. Muitas das cervejas que conhecemos e que são amplamente consumidas no Brasil levam uma boa parte de milho em sua receita – até 45%. Outras, no entanto, usam apenas cevada maltada. Essas ultimas tendem a ser mais encorpadas e, por uma questão de custo de produção, também sensivelmente mais caras.

Com o tempo, e por conta deste posicionamento de mercado, o cervejeiro que passou pela pseudoiluminação passa a desprezar a cerveja de milho – para ele, sinônimo de bebida barata, feita a toque de caixa, muito suave e sem qualquer complexidade ou sabor – e a primar pelas cervejas puro malte. Na verdade, não somente puro malte. Trigo também vale, centeio, triticale, trigo sarraceno, aveia, arroz, qualquer coisa. Só não pode ser de milho. E aí, como whisky é basicamente uma cerveja destilada, uma coisa leva a outra, e, do nada, surge o papo de que whisky de milho é ruim.

A falácia está, na verdade, em culpar o milho. Há cervejas incríveis feitas de milho – ainda que o cereal seja bem usado para cervejas mais simples – assim como whiskies. O bourbon whiskey Pappy Van Winkle, o mais desejado dos Estados Unidos, com garrafas que facilmente podem chegar a milhares de dólares em preço, tem predominância de milho em sua mashbill (receita). Assim como o Buffalo Trace, um bourbon bem querido dos entusiastas. Então, aqui, o resumo é – não adianta simplificar. A culpa não é do milho, mas de quem faz a bebida. Há cervejas puro malte e whiskies single malt terríveis também. Vai mastigar uma espiga e pensa nisso.

QUANTO MAIS VELHO, MELHOR

Este é um mito que, em boa parte, foi fomentado pela própria indústria de scotch whisky. E que, mais tarde – devido à enorme procura e escassez de estoque muito maturado – teve que ser desmentido.

A maturação é um estágio importantíssimo da produção de whisky. Algumas características sensoriais somente surgem com o tempo. E bastante tempo – especialmente aquelas características trazidas pela oxidação. O oxigênio, presente no ar, reage com certos componentes da bebida. São os ésteres, tióis e fenóis que proporcionam alguns daqueles tão agradáveis aromas em sua dose preferida, e que perdem ou ganham força com a oxidação, dependendo de sua natureza.

Os whiskies, enquanto passam seu amadurecimento nas barricas, oxidam. Eles estão em constante contato com o ar, por conta de uma folga nos barris. E esse elemento influencia diretamente em seu sabor. Ainda que outros truques para acelerar a maturação sejam empregados – como, por exemplo, o uso de quarter casks – o perfil de sabor proporcionado por décadas dentro de uma barrica não pode ser simulado de outra forma. 

O tempo suaviza algumas características também. Whiskies turfados, por exemplo, são sensorialmente mais turfados quando são jovens. Com o tempo, ocorre um processo de degradação dos fenóis. Que é um processo físico químico, e que pode acontecer por oxidação, absorção, extração etc. Além de que, com o aumento da influencia da madeira, os fenóis ficam mais discretos.

Por fim, há uma questão de equilíbrio. Um whisky que usa um barril muito forte – um first fill de jerez, por exemplo – chega a seu ponto de equilíbrio muito rapidamente. O ponto de equilíbrio é aquele em que, sensorialmente, o new-make spirit pode ser sentido tanto quanto a barrica. Nada se sobrepõe.

Então, em resumo, idade não é sinônimo de qualidade. Depende da proposta. Se você quer um whisky extremamente turfado e alcoolico, por exemplo, é melhor engarrafá-lo jovem. Se usar uma barrica muito potente, também. É o caso do Port Charlotte Scottish Barley (para o primeiro exemplo) e do Aberlour A’Bunadh, para o segundo.

GUARDEI UMA GARRAFA POR 30 ANOS, ELA DEVE VALER UMA FORTUNA

Desculpe-me se for agressivo. Se você guardar uma coisa ordinária por trinta anos, ela não se tornará extraordinária por conta do tempo. Ela continuará sendo uma coisa ordinária. Velha e ordinária. Então, aqui, a resposta é bem simples – apenas whiskies extraordinários, com real valor de colecionismo, realmente raros e desejados, tendem a valorizar. Whiskies mais simples, que eram amplamente comercializados, não tem qualquer valor de colecionismo. É uma questão simples de economia, considerando oferta e procura. Um whisky somente se valorizará se a oferta for menor do que a busca por ele.

Pois é. Não vale dois mil reais.

Pode-se traçar facilmente um paralelo com automóveis. Alguns carros antigos são extremamente desejados e concorridos. São aqueles que quebraram paradigmas, ou que marcaram época com design inovador ou soluções de engenharia criativas. A Mercedes-Benz Gullwing, por exemplo, o Hemi-Cuda ou a Corvette Stingray. Eram carros raros que se tornaram ainda mais raros, cada um por seus motivos. O Marea Turbo, entretanto, continuará sendo apenas um Marea Turbo. Até pegar fogo.

Da mesma forma, um Ballantine’s Finest ou um Pinwinnie Royale não mudaram muito de preço. Um Lagavulin Distiller’s Edition ou um Brora – cuja destilaria foi fechada na década de 80, no entanto – valorizaram incrivelmente. Se quiser saber mais sobre isso, clique aqui. Há algumas poucas exceções, como os White Horse da década de sessenta, mas, eles apenas confirmam a regra.

2 thoughts on “Mitos e Lendas do Whisky – Parte II

  1. Excelente texto como sempre! O tempo de envelhecimento nem sempre é indicativo de qualidade, é só umas das variáveis contidas. Mas na minha humilde percepção, um Whisky muito “jovem” acaba carecendo de qualidade. Sou apreciador do Ballantines 12 anos, tenho ele como um coringa sempre em casa, fui provar por curiosidade o finest e foi um experiência tenebrosa, não consegui terminar a dose. No dia seguinte fui dar uma segunda chance, foi igualmente horrível, um amargor digno de remédios antigos para má digestão, álcool muito mal integrado, não me lembrou em nada seus irmãos de 12 e 17 anos, considero ainda pior acabado que o já negligente red label…

    1. Opa, fala Jeronimo. É, então, nem sempre idade é qualidade. Existem whiskies que são melhores, mais intensos, quando mais jovens. Mas isso não é regra e nem exceção. É só o que é, uma coisa independe da outra. Também gostamos mais do Ballantine’s 12. Alias, provou o novo Bourbon FInish da Ballantine’s? Bom custo-benefício viu!

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