Quatro whiskies (muito) caros à venda no Brasil

A escritora Ellen Raskin, uma vez escreveu em uma de suas obras que “os pobres são loucos, os ricos são meramente excêntricos“. Não sei se concordo com Ellen. Ainda que a tênue linha entre a excentricidade e a loucura seja puxada um pouquinho mais para o norte à medida que a conta bancária cresce, já presenciei – e ouvi falar – de uma boa porção de ricos que eram, seguramente, absolutamente doidos.

Para evitar polêmicas com meus conhecidos, vou recorrer a um exemplo histórico. Cecil Chubb. Em 1915, Chubb – que era um advogado relativamente abastado – comprou o monumento de Stonehenge em um leilão. É isso mesmo, aquelas pedras circulares, que são conhecidas por outra espécie de malucos como sendo mágicas, magnéticas ou só um heliponto de ET, se é que os ETs tem algo parecido com helicópteros.

Cecil pagou seis mil libras pelas pedras e pela porção de terra ao seu redor. O que, nos dias de hoje, equivaleria a quinhentas mil libras, ou aproximadamente três milhões de reais. Segundo o milionário, ele teria comprado a propriedade para presentear sua esposa, Mary Bella Alice Finch. Mary – que talvez também estivesse bem além da linha média da sanidade – porém, fez pouco do presente. Disse a ele que preferia um jogo de cortinas para seu palácio. E como a casa de leilões não aceitaria a devolução de dezenas de pedras milenares erigidas por uma civilização extinta, Chubb teve que doar Stonehenge para o governo inglês.

Chubb, assim, era doido. Mas talvez, não mais doido do que milhões de outras pessoas. Comprar Stonehenge parece maluco, mas é menos maluco quando pensamos que Chubb vivia lá perto, era apaixonado pelo monumento e queria preservar o lugar. Nesse aspecto, ele não difere muito de qualquer colecionador de arte. Ou de carros. Ou de qualquer coisa insanamente cara e – de algum modo – valiosa, como, por exemplo, whisky.

E assim, entramos no tema deste post. A lista abaixo contém quatro whiskies que estão ou já estiveram à venda no Brasil, e que são suficientemente caros a ponto de sua sanidade ser questionada por terceiros, se você comprar um deles. Mas eu não me preocuparia muito com isso. Afinal, pelos padrões de Ellen Raskin, se você puder comprá-los, você é somente excêntrico.

JOHNNIE WALKER BLUE LABEL 1805

O Blue Label 1805 é provavelmente o whisky mais caro oficialmente trazido ao Brasil da história. Lançada em comemoração ao bicentenário de seu fundador, é uma edição especial limitada a 200 garrafas no mundo todo – cada uma representando um ano, caso você não tenha notado a coincidência numérica. Foram utilizados apenas nove barricas, cujo conteúdo teria maturado entre 45 e 70 anos.

As garrafas, porém, nunca foram vendidas. Elas foram presenteadas a pessoas que – na opinião da Johnnie Walker – fizeram uma contribuição significativa à vida moderna. Essa lista jamais foi divulgada.  Esteticamente, o whisky é irrepreensível. Ele é apresentado em um estojo de madeira que remonta uma escrivaninha vitoriana, e vem com uma réplica de uma caneta da época da fundação da marca, e um livreto contendo uma reprodução do documento mais antigo nos arquivos da Johnnie Walker.

Sensorialmente, bem, sensorialmente é difícil determinar, já que a garrafa custa mais de R$ 100.000,00 (cem mil reais). Estima-se que apenas quatro foram trazidas para o Brasil. Uma delas foi leiloada pela Dédalo – conhecida casa de leilões em São Paulo – há alguns anos. A foto acima foi tirada por este Cão de um colecionador particular, que possui uma das mais impressionantes coleções já vistas por este canídeo.

MACALLAN REFLEXION

O Macallan Reflexion foi criado por Bob Dalgarno, Master Whisky Maker da The Macallan, utilizando barricas (hogsheads) de primeiro uso de ex-jerez, tanto de carvalho americano quanto europeu. Sua coloração é totalmente natural – o que, apesar da falta de declaração de idade, sugere que o whisky é bastante maturado. Segundo a destilaria, o Reflexion possui notas de limão, laranja, uvas passas, damascos e maçãs, com um final longo de madeira tostada, bastante balanceado.

O decanter do Reflexion é multifacetados, e foi projetado para refletir a luz e tornar a coloração do whisky ainda mais atraente. Aliás, todos os decanters de sua linha possuem essa característica. Ele faz parte da “Masters Decanter Series”, da qual também faz parte o The Macallan No. 6 e o The Macallan M. Uma versão de cinco litros deste último, por certo tempo, deteve recorde de whisky mais caro já vendido em um leilão.

Foram trazidas apenas 18 decanters do Macallan Reflexion para o Brasil, pela pechincha de R$ 12.000,00 (doze mil reais, o que parece uma barganha perto do Johnnie Walker acima), cada.

JOHNNIE WALKER PRIVATE COLLECTION 2014

A Private Collection é uma série de lançamentos anuais limitados da Johnnie Walker, que presta homenagem ao trabalho dos blenders da marca. O primeiro whisky da série é de 2014, e apresenta um caráter eminentemente defumado. De acordo com a empresa “o master blender Jim Beveridge selecionou a dedo apenas 29 barricas de estoques insubstituíveis e experimentais para criar esta mistura única (…). Foram produzidos apenas 8.888 decanters de  Private Collection 2014. Cada um dos decanters em vidro azul escuro com um design impressionante que ecoa o famoso rótulo inclinado de Johnnie Walker.

E continua “Um estudo de sabores, este whisky é a sofisticada expressão do defumado das três melhores regiões de whisky da Escócia: marcante e turfoso defumado de Islay, doce e fresco defumado das ilhas e defumado sutil de Highland.”  Nos anos subsequentes, outros blends da série foram lançados. Enquanto o Johnnie Walker Private Collection 2014 era defumado, a edição de 2015 possuía um caráter eminentemente frutado, a de 2016 equilibrava o aroma frutado e de mel e a de 2017 celebrava a madeira e sua influência na maturação da bebida.

O preço? Aproximadamente R$ 3.000,00. Por ano, porque se você tiver um, qual a chance de não querer completar a coleção?

CHIVAS REGAL 25

O Chivas 25 é um dos mais luxuosos e exclusivos rótulos do portfólio permanente da Chivas Regal. Isso, claro, muitos já sabem. O que poucos imaginam é que ele foi o primeiro blended whisky da marca, criado em 1909, e voltado para a alta sociedade novaiorquina. A ideia da marca era oferecer uma experiência mais complexa, sofisticada e – claro – cara a seus exigentes consumidores.

Na verdade, há uma imprecisão aqui. O Chivas 25 anos atual não é o mesmo de 1909. Mas foi inspirado em seu predecessor, conhecido como o primeiro whisky de luxo do mundo. Porém – assim como seu pai – foi muito bem avaliado e recebido, tanto pelos afortunados (literalmente) que o experimentaram, quanto especialistas. Um exemplo é Jim Murray, que, em sua Whisky Bible de 2010, o elegeu como melhor blended whisky com idade superior a dezoito anos.

Este belíssimo blend de mais de um quarto de século de idade pode ser seu por (nem tão) módicos R$ 1.900,00.

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