Drink do Cão – Mint Julep

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Sabe, o mundo é cheio de pretextos. De razões coadjuvantes para desculpas protagonistas. Inventamos motivos importantes para tudo aquilo que nos parece frívolo ou, na verdade, simplesmente secundário. Porque com uma boa razão, quase tudo que estiver dentro do discutível limite da moralidade, se justifica. Ou, ao menos, torna-se mais leve.

É o caso, por exemplo, daquele outro Cão, amigo meu, que queria muito ver a Playboy da Luana Piovani, e disse para sua Cã que não podia deixar de ler a entrevista do… qual é o nome dele mesmo? Ou aquela pescaria, organizada pelos amigos, cujo manifesto contava com duas varas de pescar e meia dúzia de iscas, mas mais de vinte packs de cerveja.

É que a gente vai pescar uns peixes-pileque, lindinha...
É que a gente vai pescar uns peixes-pileque…

O engraçado é que todo mundo sabe a real razão por trás dessas coisas. Mas isso não é declarado. E talvez a mais coletiva dessas atividades seja o Kentucky Derby.

O Kentucky Derby é conhecido como a mais famosa corrida de cavalos do mundo. O tempo rendeu-lhe o título de  “os dois minutos mais emocionantes do esporte”. É a primeira das três disputas que compõe a Tríplice Coroa, juntamente com o Preakness Stakes e Belmont Stakes. Realizada em Louisville, Kentucky, o Derby é um festival de roupas extravagantes e indivíduos excêntricos. Chapéus vitorianos dividem espaço com fraques, monóculos e cartolas. A corrida, em si, é apenas uma boa desculpa para o que talvez seja o cosplay mais caro da história. Ah, e para encher a cara, claro.

A quantidade leviatanesca de álcool consumida durante a turfe foi documentada pelo jornalista Hunter S. Thompson. Junto com Ralph Steadman – ilustrador britânico conhecido – Thompson foi uma vez convidado para cobrir o Kentucky Derby. Seu relato conseguiu perfeitamente captar a essência daquele evento. Em sua matéria “O Kentucky Derby é Decadente e Depravado” o jornalista descreve a corrida como “milhares de pessoas desmaiando, chorando, copulando, atropelando-se e lutando com garrafas quebradas de whiskey“. E ainda que isso pareça uma hipérbole, ninguém reclamou. Porque, como apontou Steadman “não reclamaram porque acho que, de certa forma, eles sabem que aquilo meio que acontecia mesmo“.

Kentucky Derby, na visão de Steadman
Kentucky Derby, na visão de Steadman

O principal culpado pela bebedeira durante o evento é um coquetel. O Mint Julep. Desde 1938, ele é o drink oficial do Kentucky Derby.

A história remota do Mint Julep é incerta. A teoria mais aceita é que seu nome derive da palavra “juleb”, do árabe, que significaria algo como “água de rosas”. Com o tempo, juleps passaram a ter também função medicinal. No século dezoito, os médicos recomendavam o consumo deste curioso remédio para males de estômago e deglutição. Porque, claro, beber coisas alcóolicas sempre ajudam na gastrite e enjoo.

No entanto, o consumo de mint juleps  somente começou a se popularizar em 1875, com a criação do Kentucky Derby. E foi em 1938, quando o coquetel recebeu o título de drink oficial do evento, que ele realmente deslanchou. Naquele ano, ele passou a ser vendido nas tradicionais taças de prata – que, aliás, eram um brinde. Atualmente, o número de Mint Juleps consumidos durante o Kentucky Derby é de impressionar. Em 2015, foram usados 5.040 litros de Bourbon para produzir 127.341 mint juleps.

O Mint Julep é um coquetel como poucos. Todos seus ingredientes são fáceis de encontrar – com exceção da taça, talvez. A mistura de coisas simples lhe traz uma complexidade difícil de acreditar.  Mistura, essa, aliás, que pode ser feita em menos de dois minutos. Talvez os dois minutos mais emocionantes da coquetelaria.

MINT JULEP

Nota: Existe uma infinidade de receitas diferentes para o coquetel, mas, para evitar quaisquer celeumas, ensinaremos aqui a versão clássica, da International Bartender’s Association, e depois uma um pouco aprimorada, caso você esteja com tempo e paciência.

 INGREDIENTES:

  • 1,5 doses de Bourbon whiskey – Este Cão utilizou Woodford Reserve. Mas pode testar à vontade. Como haverá diluição (tanto pelo gelo quanto pela água), o ideal é que seja um whiskey com graduação alcoólica mais alta.
  • 3-4 ramos de hortelã
  • 1 colher de chá de açúcar
  • 2 colheres de chá de água sem gás
  • colher bailarina
  • taça de julep. Se não tiver – o que é bem possível – aposte em um copo alto (highball) pequeno.
  • gelo triturado

PREPARO

  1. coloque o açúcar no fundo do copo e umedeça com a água. Dê um tapinha no hortelã e adicione ao copo.
  2. adicione gelo até quase o topo e coloque o whiskey. Misture com a colher bailarina gentilmente.

VARIAÇÃO*

(*caso você esteja à toa)

Talvez esse drink seja simples demais para você. Talvez você queria desafios maiores. Ou talvez simplesmente esteja buscando alguma forma de preencher seu tempo e acredita que a preparação do mint julep seja rápida demais para isso. Então, aí vai uma versão discutivelmente aprimorada, para dar um pouco de trabalho.

  1. Em uma panela, adicione partes iguais de açúcar e água. Adicione alguns – isso é uma medida discricionária – ramos de hortelã. Leve ao fogo até que a mistura fique translúcida. Veja bem, isso é bem antes do ponto de calda. Basta o açúcar desaparecer. A calda deve ficar praticamente incolor. Deixe esfriar e engarrafe, ou guarde em algum lugar para usar em breve.
  2. Quando a calda estiver fria, prepare o mint julep da mesma forma descrita acima, mas, ao invés de adicionar a água e o açúcar, use meia dose da calda de açúcar e hortelã. Pode reduzir o hortelã do coquetel, para contrabalançar o sabor da calda. Ou não. Pode ser que você goste muito de hortelã.

 

7 thoughts on “Drink do Cão – Mint Julep

  1. Mint julep
    Parabéns pela dica, fiz a variação da receita como eu n queria fazer apenas para uma dose acabei ficando no final com 400ml de calda. Provei e adorei com jack ainda vou eaperimentar com meus outros whiskys

    1. Fantástico Caio! Nos conta depois como foi a experiencia…. e, bom, calda demais não é um problema! rss

  2. Interessantíssimo texto, Maurício!
    Primeiramente, me trouxe lembranças da infância, já que meu próprio vô pariticipou dessa modalidade de pescaria. Eu poderia te mostrar uma foto, mas aí talvez vc não quisesse mais contato comigo haha…
    Segundo, que achei simplesmente brilhante a descrição da festa feita por Thompson.É impressionante como algumas pessoas conseguem realmente ilustrar uma situação, não?
    Terceiro ponto é que tenho como intenção, quando sair do Wild Turkey 81, provar o WR. Eu gosto do drink “cowboy”, mas acho que tentaria fazer o Mint Julep (o primeiro, claro haha, sem muitos desafios).

    Grande abraço!

    1. Então mestre, acho que você poderia gostar do Woodford. Recentemente chegou por aqui também o Bulleit. Um pouco mais seco e mais spicy. Pode ser seu gosto!

  3. Já experimentei vários wiskeis, mas não consigo gostar de outro a não de Jack Daniels e Jim Bean. Mint Julep de Jack.

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